quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Shlomo Sand, professor de História Contemporânea da Universidade de Tel Aviv: “Nunca pensei que os judeus tivessem direito histórico a esta terra"



Shlomo Sand e a Terra de Israel

Apesar de apoiar a existência de Israel, o professor de História Contemporânea argumenta que o apego dos judeus ao território é algo "inventado"


Shlomo Sand é, há mais de 20 anos, professor de história contemporânea da Universidade de Tel Aviv, a mais importante de Israel. Ele é um homem corajoso, como o título de seu livro mais recente, A invenção da Terra de Israel (Saraiva, 2014), indica. Mesmo assim, ele decidiu esperar até obter seu doutorado e sua estabilidade na universidade antes de começar a expor urbi et orbe suas teses, que põem em xeque tudo aquilo que o establishment nacionalista judeu tem sustentado desde a criação do Estado de Israel, em 1948.

No Brasil, seu primeiro petardo intelectual foi lançado em 2011, com A invenção do povo Judeu. É a obra de autor israelense mais traduzida em todo o mundo, com uma vintena de edições em diferentes línguas. Com as controvérsias que seus livros criaram, Sand se tornou um pária da intelligentsia israelense, sobretudo num momento em que o confl ito com os palestinos se acirra. Mensagens e telefonemas de ameaça não são uma experiência incomum para ele. Mas não é surpresa que seus livros recebam elogios e críticas tão ácidas como extravagantes, especialmente do mundo acadêmico e político israelense.

A invenção da Terra de Israel é uma obra extraordinária, brilhantemente escrita e argumentada. Começo pelo fim do livro, cujo derradeiro capítulo é uma tocante homenagem a Cheique Muwannis, “tranquilo vilarejo que desapareceu como se nunca tivesse existido”, para dar lugar ao campus da universidade em que Shlomo Sand atualmente dá aulas. Ele também mora na área (assim como moraram lá dois falecidos primeiros-ministros, Golda Meir e Yitzhak Rabin, além do ex-presidente Shimon Perez), de maneira que se justifica a dedicatória da obra à memória dos antigos moradores, “que há muito tempo foram arrancados do local onde hoje vivo e trabalho”.

Sand escreve: “Tanto meu apartamento como meu local de trabalho estão localizados sobre as ruínas da aldeia árabe que deixou de existir em 30 de março de 1948. Naquele dia, os últimos amedrontados moradores seguiram a pé pela estrada de terra, levando com eles os pertences que conseguiram carregar, desaparecendo lentamente da vista dos inimigos que haviam cercado a aldeia (...). Na fuga apressada, em terror, deixaram mobília, utensílios de cozinha, malas e trouxas, junto com o esquecido e confuso bobo da vila, que não conseguiu entender por que havia sido abandonado. (...) Assim, os habitantes de Cheique Muwannis desapareceram das páginas da história da Terra de Israel e caíram nas profundezas do esquecimento”.

Não há dúvida que o autor de A invenção da Terra de Israel é um sujeito corajoso. Seu propósito não poderia ser mais ousado e arriscado, isto é, expor as “falsificações ideológicas e as construções mitológicas” que sustentam os pilares do moderno nacionalismo judaico, cujo rebento institucional é o Estado surgido da expulsão da população nativa do território conhecido como “Palestina” desde a época da presença romana, há 2000 anos. Nas palavras de Sand: “Nunca pensei que os judeus tivessem direito histórico a esta terra (...). O sionismo se apoderou ilicitamente do termo religioso ‘Terra de Israel’ e o transformou num termo geopolítico (...). Eretz Israel não é a pátria dos judeus, ela só se tornou tal na passagem dos séculos XIX-XX, com o surgimento do movimento sionista”. Em outros termos, o moderno nacionalismo transformou a teologia em um programa político.

Não surpreende que o autor tenha de confrontar hoje a célebre hasbará, poderosa máquina de propaganda internacional formada pelo Estado e seus defensores mundo afora. Até mesmo em seu departamento na Universidade de Tel Aviv Sand percebe uma “crescente sensação de isolamento” em relação a seus colegas professores, como notou em entrevista recente.

Nascido em 10 de setembro de 1946, em Linz, Áustria, de família judia polonesa que emigrou para Jaff a, Israel, em 1948, Shlomo Sand sustenta que a vinculação e o apego dos judeus à mítica “Terra de Israel” é, historicamente, uma fabricação, ou uma ‘’invenção’’. E ele faz isso oferecendo uma extensa e abrangente pesquisa histórica que, de fato, comprova que o elo dos hebreus da diáspora com a região foi, ao longo dos últimos 2000 anos, frágil. Vinculação histórica nacional, dizemos, não ligação religiosa e simbólica, que certamente existiu, mas que não pressupõe necessariamente a formação de uma entidade territorial nacional. Ou seja, Jerusalém e o espaço em torno da cidade santa para três religiões sempre foram predominantemente encarados como território sagrado e simbólico, foco de anseios espirituais, mas não necessariamente de anseios nacionalistas no senso moderno.

O cerne da tese de Sand é expor a confusão intencional, por parte do nacionalismo judaico, entre o conceito do Israel bíblico e a noção de um território sob domínio de um grupo particular. Eretz Israel é, originalmente, um conceito teológico, não a “terra pátria” dos nacionalistas. Historicamente, a Terra de Israel não tinha o significado e o papel que lhe são atribuídos pelo sionismo político moderno. Heinrich Heine, poeta alemão de origem judaica, protagonizou uma vez um episódio em que tomou uma Bíblia nas mãos e disse: “Esta é a minha pátria portátil!”. Ele expressou assim o ponto de vista tradicional, no qual “Israel” assume um valor simbólico, não sendo necessariamente um lugar para viver, e certamente não exige a criação de um Estado para determinado povo.

Mesmo, certamente, reconhecendo uma afinidade entre os judeus e a Terra Santa, Sand argumenta que uma ligação religiosa com o lugar não pode basear direitos territoriais exclusivos. Ainda assim – e isto pode parecer contraditório –, ele apoia a existência de Israel. Não por uma razão histórica, mas meramente “porque o país hoje existe e porque tentar desconstruí-lo resultará em novas tragédias”. Nesse sentido, ele se considera um ‘’pós-sionista”.

Shlomo Sand também se opõe à solução de um único Estado para israelenses e palestinos...

Mateus Soares de Azevedo é mestre em história das religiões pela USP e autor de Homens de um livro só: fundamentalismo no Islã, no cristianismo e no pensamento moderno (Best Seller, 2008), entre outros

Leia este artigo na íntegra na História Viva 131, à venda nas bancas ou aqui.

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