segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O "especialista" e a Indústria da Multa


Isso aqui foi publicado na edição de 31 de Agosto da Revista da Folha, na seção de cartas. É sobre a reporcagem "Capital da Multa", publicada noutra edição da revista, e que comentei neste post:


"Fui marronzinho da CET durante 19 anos. O que posso relatar sobre a matéria é que existe sim uma indústria de multas e as empresas de radares que são contratadas trabalham para faturar o máximo. O exemplo é um radar que foi instalado na marginal Tietê embaixo da ponte das Bandeiras que chega a fazer 10 mil multas por dia.
O.S.B, 48, produtor audiovisual


O nome dele não importa, já que não é pessoal, e o que me importa mais aqui é o testemunho de alguém "de dentro" da CET, o testemunho de um "especialista". Aquela coisa do argumento de autoridade. Tipo "Tá vendo, o cara é de dentro e tá contando as verdade!!!"

Vou (re-)contar uma historinha que aconteceu comigo, cerca de uns 10 anos atrás. À epoca, eu trabalhava em uma banca de jornais na zona oeste paulistana, um típico covil de eleitores do PSDB. Pois bem, acho que era 2004 e a Marta estava tentando a reeleição.
O povo lá tudo contra ela e coisa e tal, uns passavam lá e ficavam me doutrinando sobre o perigo dela ser reeleita e coisa e tal. Como é de amplo conhecimento de todos, o cliente tem o "direito" de azucrinar suas orelhas e exigir sua obediência ao que te ordenarem, pelo fato de gastarem alguns trocados comprando alguma coisa com você. E como tem comerciante morto de fome, eles escuta e aceita. Por vezes não é sacrifício nenhum, pois tenho a impressão de que estão do mesmo lado, em termos de partido político. Mas isso é outra história.
Pois bem. Eu tinha uns 10 anos de banca de jornal e essa categoria de comerciantes enfrentava uma séria situação com relação a suas atividades. Como se trata de bancas localizadas em logradouros públicos, e que só podem exercer o ofício mediante a concessão, por parte da Prefeitura, do famoso TPU, ou Termo de Permissão de Uso. Tipo licença de camelô. 
E a lei municipal de então, como já escrevi diversas vezes, não permitia a venda de determinado tipo de produtos. Como, por exemplo, picolés ou refrigerantes ( a menos que fossem máquinas de ficha ). Tal lei, se não me engano, vinha desde 1986 e teve uma pequena mudança na administração Pitta, em meio ao que se tornou o famoso esquema da Máfia dos Fiscais. Mas isso não vem tão ao caso.

O fato é que era proibido, era a lei, e não dependia da boa ou má vontade do prefeito. Veja só: é modo de dizer, já que, recentemente, o atual e muito criticado pelo imprensalão prefeito Haddad FINALMENTE permitiu que a lei mudasse, contemplando os anseios dos milhares de estabelecimentos que se viam sujeitos a uma legislação draconiana e desatualizada. Disso ninguém fala. Na minha época, esse assunto no meio jornaleirístico era o nervo exposto da atividade, a questão mais importante de todas. Se você fosse pego pelo fiscal comercializando ítens proibidos, você perdia o TPU, o ponto e seu patrimônio. Ponto final. Má ou boa, essa era a lei. Era com Erundina, Pitta, Maluf, Serra, Marta, Kassab, todos eles.

Como sempre fui funcionário eu não ligava tanto para essas questões burocráticas e administrativas. Mas, um dia, eu chegava no trabalho e dei de cara com o proprietário do estabelecimento, pregando um catecismo do medo e ódio a uma freguesa, informando-a, de forma canalha, que a banca não tinha sorvete nem refrigerante PORQUE A MARTA NÃO DEIXAVA! Tipo, "Ela é má, feia, invejosa e não deixa eu vender sorvete por pura má vontade e perseguição!"
"Que vaca filha da puta!", sentenciou a freguesa

Só que eu peguei no pulo. Dei de cara com ele terminando de dar a informação mentirosa, por objetivos exclusivamente partidários, já que ele era contra a então prefeita. 
Evidentemente, por ser um "especialista" no ramo, ele poderia dizer o que quisesse para a mulher, que aceitaria qualquer coisa vinda de alguém tão conhecedor da atividade.
Quando me viu ele ficou branco e começou a gaguejar, mas terminou de dizer o que vinha dizendo.
Eu, que tinha menos anos de atividade, mas sabia fazer o serviço, e vendo que o cara estava manipulando a boa-fé da mulher - se bem que aquela eu sabia que tinha tendência a "acreditar" em qualquer coisa que se dissesse sobre a Marta - já tasquei de primeira:
- Uai, mas porque você tá dizendo isso? Porque você não diz que isso é uma lei municipal e a proibição não depende da boa vontade do prefeito ou da prefeita do momento!!?? Que era assim com o Pitta, o Maluf e também com ela? Diz que é a lei, caramba! Pra que mentir? Só pra queimar o filme dela? É assim que se faz para ganhar eleição, mentindo?"

Entendem o que quero dizer? Que um especialista pode usar seu conhecimento - e o nosso desconhecimento - das coisas com propósitos nem tão nobres. Ou, pior, inventar coisas, já que o "argumento de autoridade" costuma ser bastante eficiente.
Não sei se é o caso do autodenominado "ex-marronzinho". O que importa é o que EU VEJO e que sempre acabo transmitindo aqui neste blog minhas impressões sobre a questão. Mas mantenho a opinião: A INDÚSTRIA DA MULTA NÃO EXISTE!

OBS: Pra não dizer que não falei só dos espinhos, acima da carta publicada do cidadão acima mencionado, havia outra mensagem, que faço questão de transcrever aqui. E faço questão, dessa vez, de postar o nome completo da pessoa, como forma de homenagem e reconhecimento. E para que eu me convença de que não sou só eu quem vê essas coisas, citadas por ele:

Não concordo com essa visão de que existe uma "indústria das multas" na cidade. Quem, como eu, anda por aí, percebe que a quantidade de infrações que não são registradas é enorme. E, em outras ocasiões, já vi marronzinhos fazendo vista grossa para autuações.
ALEXANDRE FONTANA, 44 anos, publicitário


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