domingo, 21 de setembro de 2014

As anáguas e o ex-senador


Houve um tempo e lugar em que mulheres eram obrigadas a usar montes e montes de roupas, diversas saias sobrepostas, anáguas e o escambau. Imagine na noite de núpcias, o casal demorando horas pra "descascar" a noiva até chegar nos finalmentes.

Pois bem. Ontem o jornal Estadão ( versão papel ) publicou a notícia - cuja leitura causou-me uma má impressão danada, e vou tentar explicar isso adiante - de que uma operação da Polícia Civil do DF prendeu 4 ex-dirigentes do Sest e Senat ( ver aqui a notícia no site do jornal ) por causa de um suposto envolvimento deles num suposto esquema de desvio do recursos públicos.

E o que isso sem a ver com os quilos de roupas do primeiro parágrafo do post?

Um ex-senador, Clésio Andrade, também faria parte da gangue. Na verdade ele seria o cabeça da trama. 

Primeira cisma minha: eu descobri isso por acaso, folheando a esmo o diário. O jornal me caiu na mão casualmente e não tinha manchete nenhuma sobre o fato. Achei a notícia apenas na página A21!

Num país em que, ao que parece, todos detestam políticos - basta escutar uma conversa de bar ou de fila de ônibus e facilmente se conclui isso - chega a ser estranho que um evento como esse não mereça sequer uma chamada na capa, que é o que chama a atenção do leitor - e possível eventual comprador de jornal. Um ex-senador procurado. Não parece algo digno de capa? Pra mim, sim (*)

Dando sequência: não havia capa, nem manchete e a notícia se escondia na página A21, sob o título: "Ex-senador ( nome? ) é investigado por desvio de dinheiro". Tudo bem genérico, até aí. Ex-senador, desvio de dinheiro. 

Na lide, finalmemente, aparece um nome: "Clésio ( quem? de quê? ) que também foi vice-governador de Minas ( quando? de quem? ) é suspeito de chefiar esquema envolvendo órgãos ligados à CNT, entidade que dirige atualmente". 

Distância e isenção típicas de uma questão de matmática em prova escolar. Talvez para "preservar Aécio"? (**). Além de suspeito de chefiar esse esquema na CNT, Clésio também é réu em outro esquema. Gente fina. Mas as informações são dadas a conta-gotas, essa é parte da minha implicância. 

Só depois de alguma leitura do texto é que, até que enfim, somos apresentados à capivara do sujeito ( mas não se informa que os recursos desviados do mensalão mineiro eram de estatais mineiras ).

Primeiro (longo) parágrafo: "A Polícia Civil do Distrito Federal etc (...)" <== Esse é o trecho em que se informa das prisões dos dirigentes do Sest e Senat.

Segundo parágrafo: "(...) O ex-senador e ex-vice-governador do Estado - durante o primeiro mandato de Aécio Neves (PSDB) atual candidato à Presidência - ( ... ) Clésio é réu no chamado mensalão mineiro - acusação de desvios de recursos ( de onde? ) do então governador de Minas Eduardo Azeredo (PSDB) - e renunciou ao mandato de senador em julho (***). Com isso, a ação penal a que ele respondia no STF será remetida para a 1a. Instância (...)".

Pode parecer que a ordem dos fatores não altera o produto, mas não é verdade. Se fosse de outro partido ( filiado, simpatizante ou indiretamente ligado ), que não goza junto à mídia da mesma simpatia que esta tem por Aécio e o PSDB, eles dariam um jeito de colocar o "ex-senador" em primeiro plano, com sua biografia toda destrinchada ainda nas primeiras linhas da notícia.

(*) É que nem o caso de José Serra, que deverá depor na PF a respeito de seu suposto envolvimento com o #TREMSALÃO, o famoso esquema de propinas que multinacionais supostamente teriam pago a "membros do partido no poder" em SP para vencer concorrências públicas em estatais do governo paulista - o "partido no poder" está no poder há 19 anos neste Estado. De acordo com esta notícia, Serra é investigado por isso. 
Bem, os jornais, além de insistirem no argumento de que o governo paulista seria, na verdade, vítima de um "cartel", não destacou em nenhum momento essa situação no mínimo constrangedora que envolve Serra. Sua ficha política, sua carreira longa e até bem-sucedida não justificaria que se falasse bastante nisso? No entanto, a mídia o poupa. 
Como sempre, aliás. Nada de fazer marola para não prejudicar o candidato tucano ao Senado, certo? Até porque, se eleito, terá foro privilegiado, correto? Vai que ele esteja mesmo envolvido com esse - outro - propinoduto tucano. O Estadão até que pôs uma ridícula chamadinha na capa, para parecer isento. Ora, até hoje eu encontro gente que nunca escutou falar desse assunto! Como é possível tal desinformação, já que Serra não é um office-boy do PSDB, é um dos políticos MAIS IMPORTANTES DO BRASIL!?

Pra ficar mais compreensível o que quero dizer, eu teria que explicar meu conceito de "ler O jornal e ler jornal", mas não sei como. Infelizmente sou mais intuitivo que assertivo. Mas sei que uma informação envolve mais que papel e letrinhas. Envolve avaliar o próprio veículo que temos em mãos. Fica pra outra vez.

(**) e (***) Os jornais, se fosse outro partido, tachariam a renúncia de Clésio de "manobra" - eles usam e abusam desse e de outros termos ao falar de não-tucanos; 

Em 20 de fevereiro de 2014, o Estadão publicou na página 04: "Azeredo renuncia para adiar sentença do mensalão mineiro e preservar Aécio". Tal renúncia recebeu manchete, consonante com a importância do caso e da figura em questão. Mas foi uma "manobra", noticiada de modo suave e equilibrada. 

Em 14.02, a Folha noticiou que "Aliados do senador Aécio Neves (PSDB-MG), pré-candidato do partido à Presidência da República, atuavam nos bastidores para tentar evitar que o caso respingasse na campanha nacional". 

Ou seja, "manobra", mas dita de outra forma. 

Ainda assim, à época não havia "perigo" os jornais darem manchete pros casos de mensalão mineiro e renúncias, pois ainda não se vivia a corrida eleitoral. Em 14.02, como assinalado acima, Aécio ainda era um pré-candidato. Agora ele é candidato, disputa eleição, e botar o Clésio Andrade na capa poderá atrapalhar os planos do candidato tucano.

Isso significa que só vazamentos seletivos de depoimentos sigilosos que impliquem e comprometam o governo federal é que merecem amplo destaque e uma divulgação mais ampla ainda. Geralmente beirando a histeria, diga-se de passagem. e não são escondidas nas páginas A21 da vida.

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