quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Tipos ( 2 )




GENNARO, O DISCURSEIRO
Ele aluga os ouvidos alheios. Sempre perto de você, ele procura a audiência. Ele acua as pessoas na fila, na banca de jornal, no ponto de ônibus, às vezes até dentro do ônibus. Ele é brilhante. Brilhante em seus argumentos e pontuações. E um brilhante orador. Adora escutar o som de sua própria voz. 
Ele sempre tem uma opinião a dar, sobretudo a quem não a pede.
Ontem ele estava no busão, nos bancos ali na frente, próximo ao motorista. Em instantes, ele começa sua brilhante palestra - inicialmente na forma de uma inocente conversa com outro passageiro, mas que com o passar do tempo e ao longo da viagem vai se tornando uma espécie de monólogo, e o volume de sua voz vai também aumentando, de modo que quem estava nos bancos traseiros do ônibus passou a escutar toda a preleção do sabujo. Com exceção daqueles que se encheram logo e desceram do ônibus.
Gennaro começou com aquele gastésimo chavão messiânico de que "o homem" está destruindo a natureza por causa do dinheiro, passando a tentar relacionar este postulado com a falta de água em São Paulo, mas no meio do caminho, com a mais absoluta gravidade na voz, asseverou que isso se dá por causa do desmatamento.

Em seguida, tratou de diversos outros temas como os crimes horrorosos que massacram a sociedade brasileira, assinalando que "nos outros países isso ( citou esses casos de pais matando filhos ) não acontece, o que serviu de ligação direta para - que surprêsa! - penetrar no delicado tema da "corrupção". 
Como acredita a maior parte das pessoas ( e nosso querido Gennaro não é nada diferente ), "corrupção" significa SEMPRE corrupção "duspuliticus", não há outra!

E Gennaro passou a fazer, em voz cada vez mais alta - ficando até mais alta que o insuportável barulho do motor caquético daquele ônibus velho - acusações seriíssimas contra esse bando lamentável que fica roubando nossos dinheiros públicos, e essas acusações - dessas que a gente lê nas redes sociais - genéricas terminaram por encontrar, finalmente, um alvo direto, concreto e de carne-e-osso, o dito "chefe da quadrilha do maior escândalo de corrupção de todos os tempos no hemisfério Ocidental"

E as veias do pescoço de Gennaro saltaram. E sua voz ficou mais alta e estridente. Os dois minutos de ódio de que falara Orwell. E, vaidosão como ele só, Gennaro ia falando e olhando em volta para ver se suas palavras ecoavam junto àquela seleta e CATIVA ( de "cativeiro" ) audiência, e se as pessoas escutavam com ar de admiração e aprovação. 

Todo ensimesmado, não via que conseguiu, mesmo, foi o efeito inverso: os passageiros estavam detestando-o profundamente.

No fundo do busão os passageiros já estavam de saco cheio de tudo aquilo, mas ninguém se manifestava. Um olhava pra cara do outro, fazendo aquele "tsk! tsk!", mas ninguém mandava o falador fechar o bico. Pessoal vindo do serviço, todo mundo cansado, e tinha que ficar escutando discurso, proselitismo, aquele verdadeiro zurrar de um sem-noção e sem respeito.

Finalmente, um sujeito que dormia a maior parte do caminho, e que acordou, depois de muito tempo que o berrador começara suas verborragias, olhou pros passageiros e rapidamente entendeu o que estava acontecendo. Sem muita paciência pra pregação do indivíduo, gritou lá do fundo, quando apenas se escutava a voz tonitruante do chatonildo, :

- É O QUE DIZIA MEU PAI: QUANTO MAIS VAZIA A CARROÇA, MAIS BARULHO ELA FAZ!!!!

De repente, o silêncio. 

- Ahah, essa foi boa!, disse uma moça.
- É mesmo..., respondeu a amiga.
Sem que ninguém combinasse fazer isso o ônibus caiu numa gargalhada só, que durou alguns minutos. Vermelho e atônito, Gennaro calou-se e afundou no banco. 
Segundos depois, desceu - pela porta da frente - do veículo, e a viagem prosseguiu, agora em paz. Finalmente em paz.

- Povo burro!, pensou Gennaro.

Caminhou dez metros, encontrou um povo que lia as capas de jornais expostas numa banca. Uma nova platéia.
Colocou-se ao lado de um gaiato que observava a capa do Lance! e disse:
- É...O futebol está que nem o ser humano: perdido! Esse desmatamento, essa corrupção...

FIM

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