quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Suicídio de Getúlio: Sessenta anos, Por Jasson de Oliveira Andrade




No dia 24 de agosto de 1954, há sessenta anos, o então presidente Getúlio Vargas se suicidou. O ato extremo é até hoje polêmico. Um fato não existe controvérsia: o motivo foi evitar a sua deposição. Quanto ao outro fato, este sim, deixa ainda dúvidas: o atentado contra o jornalista e político udenista Carlos Lacerda, que causou a morte do major Vaz, que o acompanhava. Gregório, Chefe da Guarda Pessoal de Vargas, planejou o atentado. Alguns afirmam que ele agiu por conta própria, outros dizem que a ordem partiu do governo ou de parentes do presidente. Existe mesmo uma hipótese do jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, em seu livro “Quem matou Vargas - 1954: uma tragédia brasileira”, que houve inspiração estrangeira (CIA). É a hipótese mais polêmica, que veremos posteriormente.

Existem vários livros que tratam do suicídio de Getúlio. O melhor e mais completo, em minha opinião, é: “1954: Um Tiro no Coração”, do historiador Hélio Silva (1904-1995). Ele relata, com minúcia, como se deu o atentado e o desenrolar do Inquérito até o suicídio, além de anexos ( discursos de vários políticos daquela época, Manifestos de Militares, Carta Testamento e outros documentos importantes ). O livro foi publicado em 1978, pela Civilização Brasileira e reeditado em 2007 pela L&PM (livro de bolso).

Agora, em agosto de 2014, saiu o último livro sobre o assunto: Getúlio 3 (1945-1954), do historiador Lira Neto. Antes, tivemos um filme sobre o Getúlio, interpretado por Tony Ramos. Luiz Carlos Merten, em artigo publicado no Estadão (9/8/2014), sob o título “Filme retrata emoção dos momentos finais”, após comentar o livro de Lira Neto, escreveu: “E o filme é maravilhoso, um grande thriller político. Quem é mais fiel, Lira Neto ou George Moura/João Jardim? Não importa, ou melhor, o que importa é que ambos tentam decifrar o enigma do homem e do político. (...) O leitor imagina Getúlio com base na iconografia oficial. O espectador vê Tony Ramos, tão perfeito no papel, que nem o próprio Getúlio desfaz a mágica. São obras sérias, o filme como o livro. Nos permitem entender como 1954 (o suicídio) antecipou 1964 (o golpe). A fórmula “leia o livro, veja o filme” nunca foi mais acurada”.

Como já disse, o livro mais polêmico sobre o suicídio de Getulio é o de Cony. Nele, o escritor levanta uma hipótese que merece ser divulgada, embora até hoje não tenha sido provada. Ele diz: “O episódio de Torneleiros [atentado contra Lacerda] teria de imediato, uma versão oficial, que até hoje persiste. Mas ao lado da versão oficial, o tempo está se encarregando de mostrar outro aspecto do problema e já se pode erguer, sobre bases concretas (sic), não ainda uma nova versão, mas uma hipótese”. Na opinião de Cony, “na crise – ou no crime – de Toneleiros, dois homens entraram de Pilatos no mesmo credo. Um deles foi Gregório. O outro foi Lacerda”. Aí Cony desconfia da Cia. Ele lembra que outros governantes haviam sido vítimas dela. Depois faz um gráfico, de difícil reprodução em jornal, e cita nesse gráfico, um deputado lacerdista, afirmando: “Embora não fosse da CIA, Armando Fonseca, o “guarda-de-luxo” da equipe de Gregório (sic), mantivera permanente contato com funcionários da Embaixada dos EUA, freqüentando festas, excursões e atividades sociais. Fazia o elo entre os funcionários da embaixada e os guardas pessoais do Catete, trocando informações e programas, oficiais ou não. Mais tarde, Amando Fonseca foi sócio da mulher de Gregório (sic) num mercadinho em Copacabana. Eleito deputado pela Guanabara, foi líder de Carlos Lacerda (sic) na Assembléia Legislativa do Estado da Guanabara”. Uma trajetória no mínimo estranha: de “guarda-de-luxo” da equipe de Gregório a líder de Lacerda! Seria coincidência o deputado lacerdista estar ligado à Embaixada dos Estados Unidos? Cony termina seu livro afirmando; “(o suicídio) ficaria eternamente impune se, na hora de sua morte, Getúlio, mais pela intuição que pelo conhecimento do caso, não tivesse escrito um testamento [ Carta Testamento ] em que dava o nome aos bois”. Será? Se non é vero, é bene trovato, como dizem os italianos. Se não é verdade, é bem provável...

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu 
Agosto de 2014

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