sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Internet, baixarias e vulgaridade




Cacá Diegues bem sintetizou a problemática: “A internet é um espaço de progresso humano, através dela podemos dizer o que pensamos a um número superior de pessoas, além de nossas relações. Até acho mesmo que, de algum modo, ela nos levará a uma nova forma de gestão política em que poderemos dispensar a representação dos que não nos representam. Mas não aguento mais receber ‘informes políticos’ insanos de ativistas de todos os partidos, nessas vésperas de eleições. São textos do mais baixo nível, contendo óbvias infâmias e mentiras ostensivas, conclamando os destinatários a ações antidemocráticas contra o governo ou contra a oposição, numa linguagem primária, desprovida de sentido e grosseira. A internet pode ser também um espaço de irresponsabilidade e de apologia da violência política. Como não podemos mais abrir mão dela, cabe a nós tentar evitar que isso acabe acontecendo” (Globo 9/8/14: 20).

Nossa primeira alma é composta do Eu nas relações comunitárias menores: família, local do trabalho, escola, bairro etc. Nesse ambiente reduzido sabemos do nosso valor, da importância que temos para os outros, do respeito ao outro etc. A segunda alma (dilacerada) surgiu quando o Eu passou a viver em grandes cidades (onde a despersonalização é a regra). É aí que sentimos nosso pouco valor, um ser composto de quase nada e cuja existência muitas vezes fica sem sentido algum.

Essa segunda alma depauperada (nos grandes centros urbanos) foi substituída pela alma digital, que apareceu com a internet. Esta proporcionou a recuperação do Eu, a exteriorização da espontaneidade não refinada, a ilusão de que temos enorme valor, a sensação de que somos relevantes perante o mundo, a liberdade (que a democracia nos confere) de opinar sobre tudo e sobre todos; tudo isso, no entanto, sem as mediações da civilização, da ética e dos bons costumes (Gomá Lanzón).

Do “Penso, logo existo” passamos para o “Existo ou apareço (com minhas postagens), depois eu penso”. É a negação completa do pensamento do filósofo Descartes. O Eu não civilizado, não domesticado moralmente, mas independente e livre por força da democracia, tem todo direito de existir e de expressar publicamente suas ideias, tanto quanto o civilizado, quanto o mais seleto grupo cultural (afinal, todos são dotados da mesma dignidade ao nascer). Nisso consiste a igualação da democracia, que é marcada, no entanto, pela desigualação moral de cada um dos seus membros.

A prazerosa vulgaridade se instalou na nossa cultura (Gomá Lanzón 2009: 12). Tornou-se um direito de todos. É fruto da sonhada igualdade e liberdade (inerentes ao sistema político democrático). Normalmente o exercício dessa prazerosa vulgaridade não traz maiores consequências para o indivíduo ou para a coletividade. Em outras ocasiões sim, ela se torna nefasta.

A privacidade (mundo recatado do qual as pessoas se orgulhavam) foi vencida pela extimidade (colocação da intimidade para fora), que é comandada pelo “Apareço, logo existo”. Primeiro postar, depois pensar. Há coisas fantásticas na democracia e na internet. Ao lado delas, também vemos igualitarismo, massificação e profunda mediocridade: três frutos da democracia (dizia Tocqueville), especialmente da digital (acrescentaríamos).

Com a massificação (que apareceu em 1793, na França) teve início o desaparecimento do bom gosto e dos bons costumes. Tudo foi ficando líquido (Bauman), excêntrico (Stuart Mill), poroso, transitório.

A moral aristocrática (defendida por Nietzsche) foi substituída (ou é compartilhada, em muitos lugares) pela moral da prazerosa vulgaridade democrática, que se caracteriza (a) pela espontaneidade do Eu, (b) pela liberação dos instintos elementares e (c) pela ausência de mediações culturais e simbólicas civilizatórias (Gomá Lanzón).

Qual a saída para isso? Temos que reformar nossa prazerosa vulgaridade e isso pode ou deve ser feito, sobretudo, por meio da exemplaridade (Gomá Lanzón). Seja exemplar (para seus filhos, para sua família, para seu bairro, para sua cidade, para seu país). Uma nova paideia (educação cívica) tem que ser dirigida à exemplaridade.

É impossível edificar uma cultura sobre as areias movediças da vulgaridade (diz Gomá Lanzón 2009:12), visto que “nenhum projeto ético coletivo é sustentável se está baseado na barbárie de cidadãos liberados, porém, não emancipados, personalidades incompletas, não evoluídas, instintivamente autoafirmadas e desinibidas – dispensadas – do dever”.

Professor

Jurista e professor. Fundador da Rede de Ensino LFG. Diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Foi Promotor de Justiça (1980 a 1983), Juiz de Direito (1983 a 1998) e Advogado (1999 a 2001). [ assessoria de comunicação e imprensa +55 11 991697674 ( agenda de palestras e entrevistas ) ]

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Os chamados “memes”, confeccionados para entretenimento e até críticas, muitas vezes, só servem para poluir a rede com atuações frias e pobres de conteúdo

Por Ketllyn Fernandes

Pouquíssimos indivíduos são capazes de encarar a morte como parte da vida, sem choque ou tristeza profunda, principalmente quando se trata de um ente querido. Nada mais natural — tendo em vista as faculdades mentais do ser humano e laços que vamos construindo ao longo da existência. Às vezes também se sofre com a perda de um ídolo, por exemplo, mas certamente essa dor será amenizada mais rápido, pela diferença do tipo de vínculo. Em todo caso, depois do baque, ficam as lembranças. A notícia que toma conta do noticiário nacional e até internacional entre o início da tarde da última quarta-feira (13/8) e permanecerá em evidência nos próximos dias é a da morte do presidenciável Eduardo Campos (PSB).

Em perfil dele traçado com rigor pela jornalista Daniela Pinheiro, da revista “Piauí”, na edição 94, de julho, foi registrado o seguinte: “O candidato tinha as costas da camisa molhadas de suor. ‘Rua é a melhor coisa do mundo’, disse, escancarando os dentes e esfregando uma mão na outra. Depois do corpo a corpo, parecia tão excitado que chegou a dar soquinhos no banco, como que para extravasar a agitação”.

Aos 49 anos — completados no dia dos pais —, o pessebista deixou uma trajetória política considerável ao País, sobretudo à região que representou, o Nordeste. Em seu currículo estão os postos de ministro de Ciência e Tecnologia da gestão petista; de governador reeleito de Pernambuco, de deputado estadual e federal; além de ser um fator novo ao debate eleitoral para presidente da República. A tragédia aérea assusta por si só, pela violência com que quase sempre se dá. E por se tratar de uma personalidade em evidência por estarmos a dois meses das eleições, a exploração midiática é inevitável, fazendo com que as questões sobre quem ocupará o vácuo que Eduardo deixou na corrida ao Palácio do Planalto chegassem junto com sua morte. Como também se espalharam pela internet mensagens de comoção, pesar e, infelizmente, especulações (acusações no geral anônimas) sobre as causas, ironias e as famosas teorias de conspiração.

O que situações como estas podem vir a nos ensinar, é cedo para dizer e talvez eu não seja a pessoa mais qualificada para explorar tal enfoque. Mas, enquanto internauta, eleitora, cidadã e jornalista, sou capaz de perceber a gravidade do futuro que o mau uso da web nos reserva. O que o anonimato possibilitado pela rede finge esconder, na verdade desnuda escancaradamente: o lado mais frio e cruel do ser humano. Eduardo Campos era pai de família, esposo exemplar, filho querido, antes de ser um representante da classe política, tão desacreditada pela nossa sociedade por motivos pertinentes para isso, o que não dá direito a ninguém de “brincar” com sua morte trágica. Uma mulher está viúva com cinco filhos, um deles bebê, e não é por ter vida financeira estável que a dor dessa família será menor ou merece ser desrespeitada.

Recebi a notícia com pesar, e não foi pela imprensa, pois estava envolta em questões pessoais, também ligadas diretamente à dualidade vida x morte. A primeira reação foi de incredulidade, a segunda foi ligar na redação para confirmar com minha equipe. No local em que eu estava ainda tive que ouvir de um desconhecido que me ouviu contar para meu pai sobre a morte de Eduardo Campos que, “se for para se entristecer, que seja pelas criancinhas com câncer”; ou seja, morte de político (um ser humano) não vale. Dei de ombros, têm dias que discutir desgasta mais que enriquece. Meu pai olhou de cara feia para o indivíduo. Comentou comigo que tinha gostado do Eduardo no “Jornal Nacional” e lamentou a morte de um jovem político.

Agora me é aberta a possibilidade de ao menos relatar o caso, e assim abrir espaço para reflexão. O que está por trás desse pensamento/reação excludente de um cidadão é muito grave. É a prova de que o desinteresse pela política, somado à falta de visão de mundo ocasionada pelo pouco estudo do que nos cerca pode anular reflexões mais profundas sobre nossa condição de agentes dentro de uma sociedade, independente do poder aquisitivo, meio profissional e social. As duas situações (a minha de demonstrar pesar e a ressaltada por ele enquanto à doença) merecem sentimento –– e ações ––, sem necessidade de filtros de o que seria mais aceitável.

Os “memes” que tomaram conta das redes sociais com afirmações de que Dilma ou Aécio têm relação com o ocorrido, que esses dois presidenciáveis é que deveriam ter morrido, além de críticas de que só foi Eduardo Campos morrer para sua vida se tornar ilibada e livre de críticas, além da relação do fato com a Lei Federal nº 12.970, que dificulta acesso a informações em casos de acidentes com aviões no Brasil –– sancionada no último dia 9 pela presidente Dilma Rousseff e que realmente carece de debate aprofundado –– só escancaram o quanto parte considerável da nossa sociedade ainda engatinha no que se refere à consciência de para quê a tecnologia pode nos ser útil.

Um mundo vasto de conteúdo sendo desperdiçado por comentários agressivos, sem conteúdo, verdadeiros lixos virtuais, que nos chegam sem pedir licença. A impressão que se tem é a de que o que vale é atingir, irritar, magoar; no lugar de debater e tentar interferir positivamente em questões sérias que nos cercam diariamente e cuja falta de atenção pode resultar, mais dia, menos dia, em consequências diretas em nosso cotidiano. Um bom exemplo de assunto que carece de atenção? A (pouco interessante para alguns tantos) política. Como ando muito de transporte coletivo, não raro ouço as pessoas encherem o peito para dizer, em tom de voz até mais elevado que o normal para alcançar mais ouvintes, que não querem nem saber quem são os candidatos. Que tudo é chato, tudo é corrupto, tudo não muda nada. Pois é, e falar abobrinha também não contribui, a prova da ineficiência desse argumento é a precariedade do sistema de transporte público de Goiânia, de Goiás e do Brasil, para ficar em apenas um exemplo.

Posso até ser acusada de estar tentando cercear a liberdade de alguém com este artigo — principal argumento de quem gosta de regurgitar opiniões e ofensas por meio de piadinhas aparentemente inofensivas nas redes sociais —, mas não vou me abster de tentar, seja em qual grau for, alertar sobre o quão prejudicial é este uso superficial de uma ferramenta com o potencial da internet.

Republico abaixo algumas das postagens que me levaram a este texto, com a intenção de que o leitor que chegou até aqui gaste somente alguns minutos de reflexão sobre em que seus “conteúdos” lhe foram úteis. 

P. S: Muitos deles foram excluídos de suas páginas originais, o que me dá certo conforto por pensar que foram retiradas do ar por denúncias de outros internautas do círculo de amizade de quem as produziu e dos que as compartilharam.

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