quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Folha faz patética investida contra o moinho de vento, digo, a inexistente "Indústria da Multa" paulistana


Matéria "safana" ( os mais velhos lembrarão ) da Revista São Paulo encartada da Folha, sobre - de novo - a ( tcharam! ) Indústria da Multa, esta velha e desgastada lenda urbana. 

Começa jogando para a torcida, repetindo ad nauseam o termo "multa" ( e seu primo monetário, o "dinheiro", também chamado na reportagem de "recurso" e "valor arrecadado", "arrecadação"), que não passa daquela sanção que ocorre quando existe a infração. 

Só falam nos valores, ( valores diversos, números pululam e pipocam ao longo do texto: em dinheiro, em quantidades de radares, em quantidades de multas aplicadas... ) que também podem ser enganosos. Assim, você descobre que existe uma infração "por habitante", em média. Mesmo se não tiver carro, você tem uma multa dirigida a você. 

Claro que existem os fominhas, como o sujeito que admite que já foi multado 20 vezes. O correto - e honesto, mas estamos falando de Sampa, então não se pode exigir muito - seria "Indústria dos Infratores". Mas que jornalista diria algo do tipo?

Bem malescrita, por sinal, a todo o tempo você tromba com alhos no lugar de bugalhos que surgem do além. 
Por exemplo: o grosso do texto foca nas multas via radares. 90% do texto vai nesse sentido, ressaltando que os principais abusos autuados são excesso de velocidade e rodízio, sempre na linha do "o radar pega". Beleza? Então, de repente, do nada, ainda lendo sobre os radares, você tropeça numa negação que parece ter sido feita para reforçar uma [ velha ] afirmação. Vejam:

"( ... ) Secretário Municipal de Transportes de 2007 a 2010, na gestão de Kassab, Alexandre de Moraes igualmente nega que exista tal indústria (...)" 

Até aqui só se falava em multas via radares e excesso de velocidade nas vias onde estão tais radares. Mas olha quem surgiu sobrenaturalmente no texto, como se tivesse caido do céu... 

"Posso afirmar, pelos três anos que fiquei lá, que na mentalidade da CET não há isso. O marronzinho não ganha por multa, não é promovido"

Vou repetir: até essa altura do maldito texto, não haviam sido citados, em nenhum contexto, os fiscais da CET. Só nessa hora, para negar (sic) que eles recebam para multar os pobres e santos motoristas paulistanos. Ninguém no texto tinha feito tal acusação ou suspeição, mas cai do céu a resposta para uma pergunta que não fora feita.

Mais adiante, aliás, um número revelador: há apenas 1854 agentes da CET para toda a cidade. Eu jurava que era o dobro, ainda que esse dobro já fosse insuficiente. Faça as contas: milhões de carros para 1854 fiscais. É óbvio - demais - que se há um "recorde" de multas, por outro lado está muito aquém da possibilidade. Há um recorde de multas não aplicadas. Você só toma multa se for muito azarado.

Nenhum jornalista da Folha flagrou ou mencionou carros sobre calçadas nem gente falando ao celular - um cara confessou que tomou no rabo por causa disso, celular - e esse é o tipo de infração que só o fiscal da CET pode flagrar. Ele e/ou a PM que, MUITO CURIOSAMENTE, não aparece na reportagem, apesar de, cada vez mais, contribuir com essa "Indústria da Multa" ( eu já li que em determinado bimestre os policiais autuaram mais que a CET, mas ambos comem poeira, já que os radares respondem por cerca de 70% do resultado final ).

É por isso que as calçadas da cidade já se tornaram estacionamentos na caradura. Não há pessoal. Você precisa fazer TRÊS SOLICITAÇÕES à CET, no mínimo, para ser atendido, se conseguir ser atendido. 

É assim: você faz a solicitação; aguarda meia hora, liga novamente, dá o número do protocolo e pede o "reforço" deste protocolo; meia hora depois, "reforça" o "reforço". Se tiver sorte, alguém aparecerá no local do crime. Mas corre o risco de dar com os burros nágua, já que o fiscal poderá simplesmente proceder a "remoção" ( eu achava que era "guinchar" ), que significa apenas pedir para o vagabundo meliante tirar o carro dali que tem gente reclamando. Mal o amarelinho vira as costas o bandido põe o carro de volta no lugar. 

Achou exagero ou humor? Não. É exatamente assim que funciona. Tente. Faço isso há mais de dez anos, e concluí que a Indústria da Multa deve ser a indústria de algum país quebrado e falido, tipo Albânia ou Camboja. 

Sobre o bairro onde moro, há anos eu ofereço à CET um "dossiê" com os locais e horários onde se pode caçar uns passarinhos e estes locais continuam na mesma. Eu os chamo de "pontos viciados". São sempre os mesmos locais e horários. Carros em calçada, principalemnte.
O bizarro - ou não - é que são locais movimentados, à vista de todos, com o conhecimento de todas as pessoas do bairro, locais, inclusive, onde passam viaturas da PM. Ninguém multa, ninguém faz nada, e tá na fuça de todos. É um "omertá", uma cumplicidade entre marginais. Ops, esqueci que me refiro aos moradores do bairro. Tks, foda-se, são bandidos mesmo. E os pedestres são cuzões e cúmplices.

Mas uma das coisas mais curiosas - e um milagre - que se vê no texto é que 60 e poucos porcento dos motoristas dizem que eles mesmos são responsáveis pelas multas. O problema é o foco na "multa". "Culpados pela multa". Esqueçam a palavra multa e substituam por "infração". 
Porque sempre que se recorre ao termo "multa" ele vem num contexto onde se subentende "injustiça". "Infração" não dá margem a esse entendimento: "60% dos motoristas admitem que cometem as infrações pelas quais são autuados" ficaria melhor. 

A obsessão da reportagem em imprimir um tom negativo às autuações - "multas" - leva a momentos bizonhos, como o do sujeito que diz que "não precisa de mais radares" na cidade, admitindo, no entanto, que já foi multado mais de dez vezes, por infrações como falar ao celular enquanto dirigia. Concordo. Um pelotão de fuzilamento seria muito mais eficiente.

Mais comicidade: pesquisa do Datafolha, que apurou quem seria "o culpado pelo alto número de multas" ( e como mencionei, 60% acha que é dos motoristas ) também descobriu que 10% acusa os radares pelas multas e 12%, os amarelinhos da CET. Sim, os radares e fiscais da CET é que estão dirigindo os carros. Como se diz, o problema maior para os motoristas não é fazer, é não ser pego. Um ladrão de carros não reponderia diferente, arrisco afirmar.

Olha, eu podia ficar até amanhã achando defeitos nesta reportagem, mas já deu no saco. Leiam lá (*) e tirem suas próprias conclusões. A minha conclusão, contudo, é a mesma de sempre: A INDÚSTRIA DA MULTA NÃO EXISTE! E as pessoas estão, como pessoas e motoristas, cada vez mais repulsivas.


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