terça-feira, 19 de agosto de 2014

Berço de ouro na vida loka: 10% dos traficantes investigados no estado de São Paulo são de classe alta, diz MP



Narcotráfico na alta sociedade
Cerca de 10% dos traficantes investigados no estado de São Paulo são de classe alta, segundo o Ministério Público.

SÃO PAULO – Jovens de baixa renda, com poucos anos de estudo, não são os únicos cooptados pelo tráfico de drogas em São Paulo.

Nos últimos anos, um novo perfil de traficante vem chamando a atenção da polícia: são os traficantes de elite, que nasceram em berço de ouro, cresceram em bairros nobres e estudaram em escolas de ponta.

Cerca de 1.500 novos processos relacionados ao narcotráfico são investigados pelo Ministério Público de São Paulo a cada mês. Deste total, 10% dos casos envolvem indivíduos de famílias ricas.

“Há 10 ou 15 anos, quando eu entrei na Promotoria, contava-se nos dedos de uma mão os casos de traficantes ricos que chegavam aqui”, diz Alfonso Presti, coordenador da Central de Inquéritos Policiais e Processos (CIPP) do Ministério Público de São Paulo. “Com o passar dos anos, a banalização e a generalização das drogas fizeram aparecer o traficante de elite.”

Alguns entraram para tráfico distribuindo entorpecentes em seus círculos de amizades, após serem aliciados quando buscavam drogas para consumo próprio em “biqueiras” nas periferias.

Mas outros viram a atividade como uma oportunidade de ganhar dinheiro fácil. Responsáveis por negociar a compra e distribuição das drogas, eles criaram sistemas de entrega a domicílio e mantêm empregos de fachada para esconder a atuação ilícita.

“Recentemente, um produtor de TV aqui de São Paulo foi indiciado por tráfico de drogas”, diz Presti.

Os clientes encomendam por telefone ou internet e recebem as compras em casa. Cerca de 350 taxistas, 550 motoqueiros e 150 ciclistas atuam na entrega de drogas em bairros ricos da cidade de São Paulo, segundo estudo da RCI First – Security and Intelligence Advising, empresa norte-americana de segurança que atua em 18 países.

A cocaína com alto índice de pureza e a maconha de “butique”, ou seja, que tem níveis elevados do princípio ativo THC, são as drogas mais pedidas, além de haxixe, heroína, ecstasy e LSD.

Com um alto padrão de vida, o casal Luciano Chiriato e Luciana Rodrigues de Souza vendia cocaína com 99% de pureza a R$ 50, o grama – cinco vezes acima do preço médio do mercado.

A droga era entregue em clubes, festas da alta sociedade e a moradores do luxuoso condomínio de Alphaville, em Campinas, no interior de São Paulo. Presos em fevereiro de 2013, os traficantes foram condenados a oito anos de detenção em regime fechado.

O tráfico na alta sociedade não é exclusividade do estado mais rico do país, cujo PIB é de R$ 1,3 trilhão, segundo o IBGE.

Em 2012, após três meses de investigações, a Polícia Federal (PF) prendeu um traficante que faturava R$ 2 milhões e vendia 200 kg de cocaína por mês para a classe alta na cidade do Rio de Janeiro. Os pedidos eram feitos por telefone e carros de luxo eram utilizados para a entrega.

Em fevereiro deste ano, um empresário de João Pessoa com trânsito entre pessoas de classes média alta do estado da Paraíba também foi preso pela PF pelo mesmo crime.

E em março, dois homens de classe média alta foram detidos na Praia de Boa Viagem, bairro nobre de Recife, capital de Pernambuco. Um deles era estudante de Fisioterapia e foi abordado com 50 invólucros de cocaína, 15 doses de maconha, três comprimidos de ecstasy e 70 selos de LSD. O outro foi detido em uma cobertura com 1.000 comprimidos de ecstasy e 59 gramas de haxixe.

“Não é só o dinheiro que motiva o envolvimento com o crime. O tráfico envolve prestígio, poder, status. Isso seduz o jovem de classe média alta”, explica o antropólogo Paulo Malvasi, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

A logística e a qualidade dos produtos diferenciam o traficante de elite do convencional. Mas o poder de influência e os contatos que ele têm são as principais características desse perfil de criminoso.

“Por circularem em outros ambientes, eles fazem a ponte entre o crime organizado e setores econômicos, como o mercado financeiro”, explica Presti.

A expansão do narcotráfico nas classes mais altas demanda investimento maciço para investigações em ambientes onde esses traficantes atuam, como casas noturnas e universidades, segundo Presti.

O coordenador também alerta que a elitização do crime leva a uma sofisticação da lavagem de dinheiro.

“A lavagem de dinheiro vem crescendo na mesma proporção que o tráfico e o consumo de drogas na classe média alta”, diz Presti.

Por Thiago Borges para Infosurhoy.com

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