domingo, 17 de agosto de 2014

As fatais afinidades religiosas entre EUA e Israel




Para o professor Mokhtar Ben Barka, professor de Ciências Políticas especializado em Estados Unidos e Oriente Médio, Barack Obama não teria coragem de deixar de proteger Israel

Para Mokhtar Ben Barka, professor de Ciências Políticas especializado em Estados Unidos e Oriente Médio na Universidade de Valenciennes, na França, o elo entre os EUA e Israel é antes de tudo religioso. “Escolhidos de Deus”, os americanos acreditam que “amar Israel é obedecer à vontade de Deus”. Como seus predecessores, Barack Obama não teria coragem de deixar de proteger Israel.

CartaCapital: O senhor costuma dizer que o “fator religioso” é mais forte nos Estados Unidos do que em outros países democráticos. De que forma a religiosidade americana faz de Israel um aliado?

Mokhtar Ben Barka: O “fator religioso” tem enorme impacto nos EUA. Essa religiosidade é histórica, remonta ao século XVII, quando judeus começam a ir aos Estados Unidos. É conectada à certeza de que eles, os americanos, foram os escolhidos de Deus, como dita a Bíblia. Nasce então nos americanos a certeza de que eles vivem na Nova Jerusalém. Amar Israel, especialmente para os evangélicos, os protestantes conservadores, faz parte da fé cristã. De fato, você não pode ser cristão se não amar Israel. Amar a Grande Israel, aquela de Abraão, como na Bíblia, é obedecer à vontade de Deus. Por isso, em 1948, sob a presidência de Harry Truman, os Estados Unidos foram o primeiro país a ratificar Israel, como novo Estado. A criação de Israel passa a ser uma profecia cumprida. Israel torna-se o principal aliado dos EUA. Os evangélicos, inclusive aqueles fundamentalisas, passam ainda a ter maior influência na política exterior dos EUA sob George W. Bush.

CC: E o lobby judeu?

MBB: É fortíssimo, principalmente nos EUA. Lobistas judeus têm muita influência sobre os congressistas americanos.

CC: A mídia israelense critica John Kerry, o qual busca mediadores para o cessar-fogo na Turquia e no Catar, não no Egito. Pela primeira vez, faria sentido o comportamento do secretário de Estado?

MBB: Os EUA encontram-se em uma posição bastante desconfortável. De fato, a Turquia é uma potência emergente, um país respeitado no mundo árabe. Os cataris, embora dominados pelos EUA, podem negociar com o Hamas, considerado um movimento terrorista por americanos e europeus. Esses países poderiam formular um tratado de paz favorável também para Gaza. Por sua vez, o Egito, que tirou do poder a Irmandade Muçulmana, um braço do Hamas, está mais preocupado em favorecer Israel.

CC: Pelo fato de Obama ter raízes na África muçulmana, ele não poderia, como se pensava quando foi eleito pela primeira vez, posicionar-se de forma mais equilibrada no Oriente Médio do que seus predecessores?

MBB: Seria a primeira vez na história. Nenhum presidente americano tem coragem para agir de tal modo. Uma posição equilibrada no Oriente Médio marcaria o fim da carreira de Obama, e com repercussões graves para o Partido Democrata.

CC: Os EUA foram o único país a votar na semana passada contra uma resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU para fomar uma comissão internacional chamada a investigar os ataques israelenses contra a Palestina. Aquele voto, dado por um país que busca o cessar-fogo, não lhe parece contraditório?

MBB: Voltamos à herança religiosa dos EUA, ao elo com Israel. É impensável para Washington se opor a Israel. Obama tenta satisfazer ambos os lados. Fala em cessar-fogo para ajudar Gaza, vítima de um massacre, mas vota contra uma comissão de observadores da ONU para averiguar se os ataques de Israel
fogem às normas do direito internacional.

CC: No mundo árabe, com seus 19 países, há diferenças enormes entre eles. Mas, de forma geral, até que ponto os árabes apoiam a Palestina?

MBB: É um tema importante para a vasta maioria. No entanto, países em diferentes regiões reagem de maneiras diferentes. As monarquias conservadoras do Golfo Pérsico não querem se envolver no conflito, embora possam lamentá-lo. Já no Magrebe é intenso o apoio aos palestinos. A Tunísia, por exemplo, está a enviar medicamentos, mantimentos e roupas para Gaza. De todo modo, apesar de simpatizar com os palestinos, nem todos os governos árabes concordam com a ideologia do Hamas.

LEITURA COMPLEMENTAR

"O sionismo é uma ideologia racista e colonialista"

O genocídio negado
Magid Shihade, professor da universidade de Birzeit, na Cisjordânia, sustenta que os palestinos nada têm a ver com o holocausto porque são os europeus que devem pagar por esta tragédia

Magid Shihade, professor de Relações Internacionais da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia, atualmente a lecionar sobre Oriente Médio e Ásia do Sul na Univerdaide da Califórnia, em Davis, vê as negociações de paz entre Israel e Palestina com ceticismo. Para o acadêmico, Israel fará o possível para impedir a existência do Estado da Palestina. E o Hamas será colocado à deriva pelo Egito. Shihade aplica uma tese já defendida no seu úlitimo livro, No Just a Soccer Game. “O Estado israelense é um Estado colonial judeu voltado a afirmar a supremacia racial”, diz. E, neste caso, aliado ao Egito, com o qual mantém relações desde 1979.

CartaCapital: A chamada “comunidade internacional” diz que Israel vai bem.

Magid Shihade: Essa “comunidade internacional” é um jargão enganoso. Ela decide termos como “genocídio”. E não dirá que Israel está a cometer genocídio contra os palestinos, embora esteja.

CC: Israelenses como Benjamin Netanyahu e outros de seu governo, como o ministro do Exterior, Avigdor Lieberman, são tão racistas quanto os nazistas?

MS: São todos guiados pelo sionismo, ideologia racista e colonialista. Essa ideologia remonta a 1948 (com a fundação do Estado de Israel). É uma ideologia baseada na desapropriação de outras pessoas, deslocalização, e na supremacia dos judeus sobre os povos palestinos nativos.

CC: O Holocausto foi uma tragédia. Matou 6 milhões de judeus. Mas o mundo não se dá conta que durante a Nakba, de 1948-1949, árabes palestinos foram deslocados. Diferenças à parte, por que a Nakba não é celebrado como o Holocausto?

MS: O Holoscausto é um evento europeu, e eles, europeus, precisam pagar por isso, não os palestinos. Os palestinos não têm nada a ver com ele. Isto é, novamente, um reflexo do racismo Ocidental.

CC: Acredita que Netanyahu iniciou esta guerra atual porque não podia aceitar a nova união entre o Fatah e o Hamas?

MS: Sim. Além disso, Netanyahu quer tirar proveito da atual instabilidade da região. E o ataque contra Gaza pode reabilitar o Hamas, que estava em baixa, devido ao seu não apoio à Síria. Vale não esquecer que o Hamas e outros grupos islamitas precisam do apoio de árabes. O motivo? Essas imagens nutrem as fobias dos ocidentais.

CC: O premier de Gaza, Ismil Haniyeh, é ingênuo ao pensar que o Hamas pode se aliar ao Fatah, enquanto Netanyahu continua a colonizar a Cisjordânia?

MS: No fim das contas, apesar da união de abril entre Hamas e Fatah, o Hamas não aceitará a reconciliação com o Fatah, a menos que o Hamas domine a política da Palestina. Ambas, lembre-se, são legendas que visam à dominação política. O Hamas entrou nessa negociação com o Fatah porque está marginalizido pela Síria ( apoiou os sunitas contra Bashar al-Assad e o Irã e o Hezbollah, contra Assad ).

CC: Mas negociar com o Egito e seu líder Al-Sisi, que acabou com a Irmandade Muçulmana, seria estranho para o Hamas, não?

MS: De fato. Al-Sisi fez o que pôde para erradicar a Irmandade Muçumana de Mohamed Morsi. Creio que os líderes ocidentais veem no Cairo um aliado contra os líderes do Hamas.


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