quarta-feira, 30 de julho de 2014

O mercado contra Dilma, Por Jasson de Oliveira Andrade




O Santander enviou aos clientes de renda alta um extrato alertando sobre o perigo da reeleição da presidenta Dilma. Esse alerta criou uma polêmica. O presidente mundial do banco, Emílio Botin, segundo reportagem do Estadão em 28/7, afirmou que o informe “não é do banco, mas de um analista”. O jornal noticiou ainda: o Santander informou que todas as pessoas responsáveis pela elaboração e aprovação do informe serão demitidas. Com essa drástica medida parece que a polêmica terminou. No entanto, como se verá, não é apenas o Santander que é contra Dilma e sim o Mercado.

A revista CartaCapital desta semana focalizou o assunto. Na capa consta: “E o Mercado criou o Dilmômetro – Como o sistema financeiro pretende influenciar as urnas”. Na página 28, consta longa reportagem de Carlos Drummond, sob o título “O Mercado contra Dilma – O sistema financeiro não economiza fichas para derrotar a candidata do PT”. A reportagem é longa e não temos como resumi-la. No entanto, o leitor tem uma idéia do que se trata. Já Eliane Cantanhêde, em artigo publicado na Folha (27/7), também analisou a interferência do sistema financeiro: “(...) para o PT e a campanha da reeleição, é, e não apenas parece ser, uma vantagem poder usar os mesmíssimos dados [do Santander] para cristalizar ainda mais o discurso, talvez a sensação, de que Dilma é rejeitada “pela elite”, “pelos mercados”, “pelos bancos” por sua alma “robinhoodiana” de tirar de ricos insaciáveis para dar aos pobres famintos. (...) Não é bom para Aécio Neves e para Eduardo Campos colar suas imagens, seus discursos e seus programas a essa “elite”, símbolo da desigualdade ancestral brasileira. E é bom para Dilma mostrar-se como a mulher que lutou contra a ditadura e agora enfrenta os poderosos”. Na entrevista que concedeu ao UOL (Folha), a presidenta Dilma, ao abordar o assunto, criticou: “Eu acho muito perigoso especular em períodos eleitorais. (...) É inadmissível para qualquer país, principalmente um país que é a sétima economia do mundo, aceitar qualquer nível de interferência de qualquer integrante do sistema financeiro, de forma institucional, na atividade eleitoral e política”, finalizando: “Eu vou ter uma atitude bastante clara em relação ao banco [Santander]”, evitando, porém, dizer qual.

Será que essa oposição do sistema financeiro à reeleição de Dilma se tornará a favor de quem se quer destruir? Aí o tiro sairá pela culatra. A conferir.

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu 
Julho de 2014

SAIBA MAIS:

Banespa e ‘‘rombos’’

No mês de maio, o Banespa teve um lucro na faixa de R$ 120 milhões, retomando assim a média mensal que lhe permitiu lucrar mais de R$ 1 bilhão no ano passado. O resultado exige a reflexão dos paulistas, pois volta a desmentir os argumentos apresentados para justificar a ‘‘privatização’’ do banco, vergonhosamente entregue pelo governo Mario Covas ao governo federal. O Banespa nunca esteve ‘‘quebrado’’ — pois tinha bilhões a receber do governo do Estado, uma situação totalmente diferente dos bancos privados que ‘‘quebraram’’ porque deviam aos depositantes, investidores em fundos que eles administravam etc., uma cifra muito superior aos valores que tinham a receber como retorno dos empréstimos que haviam feito. ‘‘Rombo’’, como você sabe muito bem, é quando alguém tem mais dívidas do que créditos. É o caso, por exemplo, do Banco Nacional, que tinha um ‘‘rombo’’ tão gigantesco, que o governo despejou nada menos de R$ 15 bilhões em seu ‘‘socorro’’.

Além de não apresentar ‘‘rombo’’, o Banespa é altamente lucrativo — como ficou demonstrado anos depois da ‘‘intervenção’’ combinada entre o governador Mario Covas e o presidente FHC. E é essa lucratividade que continua evidente, nos resultados de maio último. E são eles que, na verdade, devem ‘‘explodir’’ como autêntica bomba, dentro do próprio Judiciário, contra a ‘‘privatização’’ do Banespa. Por que? Como você sabe, há várias ações judiciais contra a venda do banco. Uma delas, que a grande imprensa procura esconder, é de autoria de nada menos de 11 procuradores da República — esses promotores fantásticos do Ministério Público que estão tentando combater a corrupção, negociatas e desmandos de governantes no Brasil (e que, por isso mesmo, o honesto governo Fernando Henrique Cardoso tentou silenciar, com a chamada ‘‘lei da mordaça’’).

Pois bem: nessa ação, os procuradores apontam mais de 20 ilegalidades e irregularidades na privatização do Banespa, transformada em negócio suspeito. Você sabe o que aconteceu? A Justiça confirmou que as irregularidades e ilegalidades existem e suspendeu temporariamente o processo de leilão do Banespa. Mas essa decisão foi cancelada, dias mais tarde. Por que? A Justiça mudou de ponto de vista? Não. Ela reiterou que há irregularidades e ilegalidades no processo. Mas aceitou o ‘‘argumento’’ apresentado pelo governo federal de que o atraso na privatização do Banespa traria um prejuízo ao Tesouro da ordem de R$ 400 milhões — em um ano.

Que prejuízo seria esse? O governo diz que, se o Banespa fosse vendido por R$ 2 bilhões, usaria o dinheiro para reduzir a dívida do Tesouro, que paga juros de 20% ao ano, e representam portanto R$ 400 milhões (20% sobre os R$ 2 bilhões) ao ano. Os lucros de maio mostram mais uma vez que o argumento é mentiroso. Se ficar com o Banespa, o governo participará dos lucros de R$ 1 bilhão ao ano, ou duas vezes e meia o tal ‘‘prejuízo’’ de R$ 400 milhões. A Justiça vai enxergar a verdade. A privatização do Banespa continuará adiada. O povo paulista ganha tempo para organizar movimentos que a impeçam definitivamente.


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