sexta-feira, 25 de julho de 2014

EUA: ex-pastor metodista se suicida pondo fogo em si mesmo, e deixa carta que alega a morte como protesto ao racismo


O pastor aposentado Charles Robert Moore disse que queria honrar quem sofreu com o racismo

Um pastor aposentado da igreja metodista, que surpreendeu os moradores da cidade de Grand Saline, no Texas (EUA), ao colocar fogo em si mesmo, deixou outra revelação chocante. O homem de 79 anos deixou uma carta, onde afirma que se queimaria em honra aos afroamericanos que sofreram violentamente com o passado racista de seu país.

Na nota de suicídio divulgada pela polícia local, ele consta que muitos negros foram enforcados, decapitados e queimados, por moradores que estão vivos até hoje. Charles Robert Moore apontou então que gostaria de fazer justiça se juntando às vítimas do passado, com seu corpo incendiado para sentir na pele o que sentiram.

Após todos os indícios investigados, a polícia conta que Moore estacionou seu carro em frente a uma loja, despejou gasolina em si mesmo e ateou fogo. As chamas rapidamente tomaram conta do corpo do pastor aposentado, e mesmo com os esforços para apagar o fogo, as testemunhas chocadas foram incapazes de evitar os graves ferimentos.

O chefe de polícia Larry Compton disse ao jornal local Tyler Morning Telegraph que nunca viu nada igual em toda a sua carreira, nem ao menos por acidente, no período em que era investigador de incêndios no Corpo de Bombeiros.

Após o incidente, o homem de 79 anos foi transportado para o Hospital Parkland, na cidade de Dallas, onde faleceu mais tarde por conta das queimaduras. A carta de suicídio, deixada no para-brisa do carro de Moore, com contexto de protesto contra o racismo, foi divulgada pelo Tyler Morning Telegraph.

Veja abaixo o conteúdo da carta:

"Nasci em Grand Saline, Texas, há quase oitenta anos atrás. Enquanto crescia, ouvia insultos raciais habituais, mas eles não significavam muito para mim. Eu não me sensibilizava mesmo encontrando uma pessoa afroamericana, até que comecei a dirigir um ônibus para a faculdade Tyler Junior College e fiz amizade com o mecânico que cuidava dos veículos. Eu brinquei com ele sobre a sua cor da pele, e ele ficou muito bravo comigo; que é a forma que eu tive para aprender sobre a dor da discriminação.

Durante o meu segundo ano como estudante de faculdade, eu estava atendendo uma pequena igreja no país, perto de Tyler (Texas), quando a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou a ilegalidade da discriminação racial nas escolas em 1954; quando eu assumi ter concordado com a decisão do Tribunal, eu fui amaldiçoado e rejeitado. Quando minha opinião sobre isso se voltou para a Primeira Igreja Metodista em Grand Saline (que tinha alegremente me recomendado para o ministério – o primeiro da congregação), fui condenado e chamado de comunista; se passaram sessenta anos desde então, e nenhuma vez fui convidado para participar de qualquer atividade na Primeira Metodista (exceto os funerais da família), e muito menos para falar em seu púlpito.

Quando eu tinha uns dez anos de idade, alguns amigos e eu estávamos andando pela rua em direção a um riacho para pegar alguns peixes, quando um homem chamado de 'Tio Billy' nos parou e nos chamou em sua casa para tomar um copo d'água, mas seu real propósito era alegremente nos dizer sobre ajudar a matar um "nigger" (forma racista a se referir aos negros, em inglês) e colocar a cabeça em cima de um poste. Uma região de Grand Saline que era (e talvez ainda seja) chamada de "cidade polo", é o local onde as cabeças foram exibidas. Passaram-se anos, antes que eu soubesse o que o nome significava.

Durante a Segunda Guerra Mundial, quando muitos soldados passaram pela cidade através de trem, os cidadãos exigiam que alguns passageiros fossem escondidos nos vagões, caso houvesse afroamericanos a bordo, para que [os brancos] não tivessem de olhar para eles.

A [ organização racista ] Ku Klux Klan já foi muito ativa em Grand Saline, e provavelmente ainda tem simpatizantes na cidade. Embora seja ilegal a discriminação contra qualquer raça, em relação à habitação, emprego, etc., os afroamericanos que trabalham em Grand Saline, vivem em outros lugares. É triste pensar que as escolas, igrejas, empresas, etc., não têm diversidade racial quando ela chegou [sic] para os negros.

Minha sensação é que a maioria dos moradores de Grand Saline simplesmente não querem negros entre eles, e assim os afroamericanos não querem morar lá e enfrentar a rejeição. Isto é uma vergonha que tem me incomodado desde quando me fiz presente neste mundo, e não quis ser identificado com esta cidade descrita em um jornal em 1993, mas eu nunca levantei a voz ou por escrito uma palavra para contestar a situação. Já tive a minha antiga casa da família no endereço 1212 N. Spring St. nos últimos 15 anos, mas nunca discuti a questão com os meus inquilinos.

Uma vez que estamos atualmente para comemorar o 50º aniversário de Verão da Liberdade de 1964, quando as pessoas começaram a trabalhar no Sul para atingir o direito de voto para os afroamericanos, juntamente com outras preocupações. Este fim de semana passado houve o aniversário do assassinato de três jovens (Goodman, Schwerner e Cheney), na Filadélfia, Mississippi, que deu grande impulso ao movimento dos direitos civis – uma vez que este momento histórico está sendo lembrado, encontro-me muito preocupado com a aumento do racismo em todo o país no tempo presente. Esforços estão sendo feitos em muitos lugares para fazer a votação mais difícil para algumas pessoas, especialmente os afroamericanos. Grande parte da oposição ao presidente Obama é simplesmente porque ele é negro.

Vou completar 80 anos de idade, e meu coração está partido por causa disso. América ( e a proeminente Grand Saline ) nunca se arrependeu realmente pelas atrocidades da escravidão e suas consequências. O que a minha cidade natal precisa fazer é abrir o seu coração e suas portas para os negros, como um sinal de rejeição aos pecados passados.

Muitos afroamericanos eram linchados por aqui, provavelmente alguns em Grand Saline: enforcados, decapitados e queimados, alguns inclusive ainda vivos. A visão deles me assombra muito. Então, nesta data tardia, tomei a decisão de se juntar a eles, dando o meu corpo para ser queimado, com amor no meu coração, não só para eles, mas também para os autores de tal horror – mas especialmente para os cidadãos de Grand Saline, muitos dos quais têm sido muito gentis comigo e outros que podem ser movidos para mudar a situação aqui", relatou a carta.


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