sexta-feira, 6 de junho de 2014

“Sai, que vou passar por cima. É blindado, é blindado” ( PLUS: "Você já comprou seu jipão? )



Cena paulistana revela: em automóveis de luxo, projetados para o combate, a nobreza exerce seu poder. Fabricante exalta: é carro “para quem está no controle”

Por Flavio Siqueira Júnior, editor do Brasil de Brinquedo

A foto acima foi tirada no exato instante em que o motorista da SUV gritou: “Sai que eu vou passar por cima. É blindado, é blindado!”

Um segundo depois ele fez o prometido.

O trânsito era o mesmo como em todas as manhãs paulistanas e a Mercedes, sem perceber, ou sem se importar, “ralou” o carro parado na faixa ao lado, ao ultrapassá-lo. O trânsito parou novamente e a Mercedes voltou para a faixa em que estava antes. Errou o palpite da faixa mais rápida. Estavam novamente lado a lado. Assim, o motorista “ralado” abriu o vidro para avisar do ocorrido. Foi ignorado ou não foi visto. A Mercedes era bem mais alta que seu carro.

Minutos mais tarde, o trânsito, pregando mais uma de suas peças, fez com que o carro ralado, agora, estivesse logo à frente da Mercedes. Oportunidade para o motorista “ralado” descer do carro para falar com o “ralador”. Chegando próximo à janela, voltamos ao primeiro parágrafo, que conta o final da história.

Desespero de se atrasar para a reunião de planejamento ou medo de ser assaltado e ter que acionar o seguro?

Provavelmente o dono da SUV da Mercedes nem chegou a pensar nesses graves problemas que assolam a humanidade. Apenas fez o que deveria ser feito. Afinal, para que, depois de gastar tanto dinheiro com um carro desses, sofrer para achar uma vaga para o seu tamanho?

Mike Davis, explica isso muito bem em seu texto publicado no livro Cidades Rebeldes, quando diz que os “utilitários dão compensações mágicas de poder e conforto, mesmo que temporárias”. Na triste democracia dos engarrafamentos, eles parecem sinalizar noblesse oblige, que em bom português quer dizer: a nobreza manda.

Esses carros são comprados como moradias temporárias de luxo, concebidas para suportar o inferno do deslocamento e os “perigos” da cidade. O problema está sempre do lado de fora. O mundo está errado, menos os faróis bi-xenon com sistema de luzes inteligentes de 5 funções.

E se esse carro de combate não funcionar, o Código de Defesa do Consumidor poderá ser invocado, por descumprimento de oferta:

“A nova Classe M reforça sua característica mais que marcante: a sensação de estar sempre no controle. Com uma identidade imponente, é um automóvel para ver e ser visto.” (do site da Mercedes-Benz).

( PUBLICADO EM OUTRASPALAVRAS )

PLUS:

VOCÊ JÁ COMPROU SEU JIPÃO?, publicado na Revista Época em 01.08.2008, foi postado neste blog junto ao texto "Caminhão é transporte coletivo", de Candido Malta

ACRESENTADO EM 27.02.2015:


Quando os BRUTOS se acham os donos da rua

É comum ver nas ruas motoristas com um comportamento mais agressivo por terem um veículo de grande porte ou um modelo extremamente sofisticado

O advogado Daniel Ibirra é um fanático por carros. Mais precisamente pelo Alfa Romeo. Já teve três e atualmente pilota, com grande satisfação e orgulho, um Alfa Romeo 156 CrossWagon. “É um carro lindo, imponente, seguro e confortável”, diz. Mais do que isso, Ibirra garante que dirigir seu carro lhe dá uma vantagem inestimável na disputa diária no trânsito de São Paulo. “Sinto que os demais motoristas me ‘pagam’ uma certa reverência, como se meu Alfa fosse um nobre com direito a privilégios”. Ele garante que, graças a essa nobreza, raramente leva fechadas. Ao contrário, as pessoas dão passagem a ele. E quando isso não acontece, não tem a menor dificuldade de se impor.

“Carros muito grandes ou luxuosos dão, sim, a sensação de poder, de autoridade”, diz a psicóloga Camila Marchesano Dentes. “Isso está ligado à sociedade de consumo, na qual se acredita que aqueles com mais posses são melhores”, destaca. Mas talvez não seja só uma sensação. Daniel Ibirra tem razões para acreditar que seu carro impõe, pelo tamanho e qualidade, mais respeito e autoridade. “Quando vou buscar minha filha nas baladas, até subo na calçada, praticamente encosto o carro na porta do local [ GRIFO DESTE BLOG ] E ninguém vem me repreender. Os outros veículos devem ficar longe do movimento e sequer podem parar em fila dupla”, conta.
“Meu automóvel, sem dúvida, dá uma sensação de mais segurança. Além da questão do status”, diz o engenheiro Marco Antonio Muniz de Oliveira referindo-se ao seu Hyundai Veracruz. Embora ande apenas em companhia de sua mulher, Muniz faz questão absoluta de possuir carros grandes. Ele não sabe, ao certo, o motivo. “Acho mais confortável, seguro e tem mais presença”, arrisca. Ele reconhece sentir um certo poder quando está dentro de um carro com tamanho superior ao da maioria dos que circulam por aí.

“Modelos assim permitem um comportamento mais brusco e agressivo, características do exercício do poder”, diz Camila Marchesano. “Alguns motoristas preferem esse tipo de veículo porque talvez precisem realizar com o carro aquilo que não
conseguem na vida”, completa. Ela conta que carros avantajados podem produzir um prazer “momentâneo” de sentir-se poderoso. “A meu ver, quem busca esse tipo de sensação acaba produzindo nas outras pessoas uma impressão negativa”, diz, referindo-se à agressividade exagerada e artificial que motoristas de carros grandes podem apresentar.
Não é o caso do médico Ricardo Yamamoto, dono de um Toyota RAV4. Morador de Itu (SP), frequentemente se desloca para São Paulo ou Minas Gerais. Por isso, prefere um carro de grande porte, com porta-malas amplo e conforto para a família. “Eu tinha um Toyota Corolla, mas, apesar de também ser um carro amplo, não oferecia o mesmo conforto que esse”, explica.

Yamamoto reconhece que um carro com essas dimensões propicia uma sensação de mais segurança. “Parece que ele fica mais no chão. É mais pesado e sólido”, explica. Ele não sente necessidade de ser mais agressivo no trânsito e se de impor pelo tamanho, mas sua mulher, Darlin, quando dirige o RAV4, admite se sentir mais poderosa e respeitada entre os automóveis.

A sensação se explica não apenas pelo tamanho, mas, também, pelo fato de que esses carros, em geral, apresentam uma posição mais elevada ao dirigir, proporcionando visão mais ampla. Mas, segundo Camila, “carro não resolve a vida de ninguém. Quem pensa que pode compensar suas atitudes do dia a dia com um veículo maior, está se enganando”.
É inegável, porém, que os carrões estão mais presentes no trânsito das grandes cidades, principalmente os SUVs. À primeira vista, não haveria motivos para os motoristas que dirigem apenas no trânsito urbano procurarem cada vez mais por esse tipo de veículo. Mas os SUVs dão a sensação de mais força diante da feroz competitividade do trânsito
e são fabricados sob o conceito de oferecer recursos para quem dirige em trilhas e estradas em más condições, inclusive com tração 4x4.

Anos atrás, um dos SUVs que mais causaram temor aos “pequeninos” nas ruas foi o jipão Hummer. Largo, robusto, com aspecto de poucos amigos, o Hummer tinha o dom de deixar os demais automóveis bem longe. Na época do boom do Hummer no mercado brasileiro, o vendedor carioca José Roberto Damasceno tinha um Chevrolet Celta. Ele confessa que se sentia intimidado quando deparava com o famoso SUV no trânsito. “Quando um Hummer chegava perto de mim, eu ficava aflito para trocar de pista e manter uma certa distância”, lembra. “A impressão era que ele podia esmagar meu carro, como um tanque de guerra”.

Os Hummer desapareceram das ruas brasileiras. Mas o legado de um certo pavor provocado por um veículo grande persiste. A popularização desses modelos vem atraindo novos compradores, que desejam ter um SUV. “Com isso, é possível concluir que há muitos motoristas interessados em se impor pelo tamanho”, diz a psicóloga Camila Marchesano. Resta torcer que eles não cometam barbaridades por se sentirem os donos das ruas.

Por Carro Hoje, DATA INCERTA

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