terça-feira, 24 de junho de 2014

Empresário denuncia o "túnel da propina" do governo estadual paulista, mas não recebe manchetes nos jornais nem chamadas em tom grave no Jornal Nacional!!!




Nem a maquete resta
Empresário acusa o governo Alckmin de favorecer interesses escusos ao abandonar o projeto de uma ponte entre Santos e Guarujá


A construção de uma ligação seca entre as cidades de Santos e Guarujá, no litoral paulista, é uma promessa tão antiga quanto os congestionamentos enfrentados pelos motoristas que utilizam a balsa para fazer a travessia. Na década de 1970, o então governador Roberto de Abreu Sodré anunciou a construção de uma ponte. Não cumpriu a promessa, repetida ao longo de todas as eleições para governador desde então. Em 2010, na ânsia de provar sua capacidade administrativa, José Serra, candidato à Presidência da República, virou motivo de chacota ao inaugurar a maquete de uma ponte estaiada, orçada em cerca de 900 milhões de reais, com 4,8 quilômetros de pistas e o maior vão livre do País, para possibilitar a passagem de todas as embarcações que utilizam o Porto de Santos. “Vamos dar mais segurança para as pessoas e para os navios e mais rapidez, que são coisas fundamentais”, discursou Serra, ao lembrar o fato de a ponte ser a escolha mais segura.

Três anos após a inauguração na maquete, o projeto de Serra foi abandonado pelo seu companheiro de partido Geraldo Alckmin, que descartou a ponte e lançou o edital para a construção de um túnel submerso, orçado em 2,4 bilhões de reais. No entendimento dos técnicos da Dersa, estatal ligada à Secretaria de Logística e Transporte, a ponte seria inviável por interferir no espaço do cone de aproximação do aeroporto local. Em março deste ano, cinco consórcios inscreveram-se na disputa para construir em pouco mais de três anos o túnel com três faixas para cada sentido, caminho para pedestres e ciclistas e possibilidade de abrigar um VLT. Além da mudança no modelo, o governo, após realizar uma pesquisa de origem e destino, resolveu mudar o local da travessia. Há mais de cem anos realizada no local onde ficam as balsas, a travessia pelo túnel de 762 metros de extensão será feita entre o bairro Macuco, em Santos, e o linhão da Codesp, no Guarujá.

Mudanças de projetos, local e valores à parte, a novela parecia seguir para seus últimos capítulos não fosse a entrada em cena do autor do trabalho exposto na maquete inaugurada por Serra. Considerado o pai das pontes estaiadas no Brasil, o engenheiro Catão Francisco Ribeiro está disposto a colocar em risco seus negócios no estado de São Paulo para denunciar um suposto esquema de corrupção por trás da escolha do túnel. Formado pela USP, Ribeiro é responsável pelos projetos das principais pontes brasileiras e acumula prêmios pela complexidade de seus cálculos. Entre outras, fez o projeto das pontes estaiadas do Real Parque, Octávio Frias de Oliveira e da Estação Jamil Sabino, todas em São Paulo. Sobre os rios Negro (AM), Tocantins (TO) e Potengi (RN). Com base em seus estudos sobre a obra da Baixada Santista, Ribeiro pretende acionar a Polícia Federal para provar ser um descalabro a opção por um túnel de 2,4 bilhões de reais no lugar de uma ponte de 900 milhões e com a mesma capacidade funcional, segundo ele.

E como o túnel será construído com uma técnica inédita no Brasil, aponta Ribeiro, as empreiteiras enxergam na obra uma possibilidade de ganhar expertise, enquanto lucram com os aditivos necessários para superar o ineditismo da execução do contrato. O projeto foi desenvolvido por uma empresa holandesa. Dos consórcios inscritos na licitação, dois deles se associaram a companhias do país europeu: o Túnel Santos/Guarujá, formado pela Norberto Odebrecht, Queiroz Galvão e OAS, e o Construtor Túnel Santos/Guarujá das brasileiras Camargo Corrêa e Carioca Christiani-Nielsen com a espanhola Ferrovial Agroman. Além do custo da obra, o engenheiro garante ser a ponte mais indicada que o túnel, por causa dos seguintes quesitos: funcionalidade, manutenção, impactos ambientais, prazos de entrega e desapropriações. “O custo é muito menor, a arquitetura da ponte é uma obra de arte, enquanto o túnel fica escondido. Pode ter as mesmas utilidades que o túnel e elimina as balsas. Precisará de menos desapropriações e tem impacto ambiental menor. Ganha de 10 a zero.”

Sobre a inviabilidade por conta da altura da ponte, Ribeiro afirma ter sido a mudança de local apenas uma estratégia do governo. “É o interesse do empreiteiro prevalecendo. São grupos que saqueiam o Estado com a corrupção, patrocinados por agentes públicos corrompidos e interessados em criar dificuldades. Ao fazer esse túnel no lugar inadequado, viabilizaram a corrupção ( entrevista abaixo ).” O engenheiro também contesta a pesquisa de origem e destino realizada pela Dersa para optar pelo novo local. Segundo ele, a razão verdadeira para a mudança é o fato de a ponte no antigo local “acabar com uma mina de ouro, a balsa mantida pela Dersa”.

Em nota, a Dersa classifica como “levianas e mentirosas” as acusações de Ribeiro. “O mínimo que se espera é que cite os nomes ou encaminhe as supostas informações de irregularidades às autoridades.” Os estudos de origem e destino citados pelo engenheiro, informa a empresa, foram feitos com base em 7,5 mil entrevistas públicas e disponíveis a consultas. A respeito do projeto da ponte, a Dersa informa haver dúvidas quanto à sua localização, solução tecnológica de construção e aos impactos nas áreas urbanas. Na nova localização, argumenta a estatal, a ponte está inviabilizada pelas restrições impostas pela navegação aérea, que prevê altura máxima de 75 metros. A balsa continuaria a operar com menor volume, cerca de 80% do tráfego seria atraído para o túnel. Dos custos, informa, 1,9 bilhão de reais refere-se às obras, 360 milhões serão destinados às desapropriações e reassentamentos e 200 milhões às compensações ambientais e obras complementares de engenharia, supervisão e gerenciamento. Ribeiro promete levar as denúncias até as últimas consequências.

Entrevista

“Eles sabem que a ponte é o certo e o túnel, para roubar”

O especialista em pontes estaiadas, o engenheiro Catão Francisco Ribeiro, contesta a escolha por um túnel como ligação entre as cidades de Santos e Guarujá

Especialista em pontes estaiadas, o engenheiro Catão Francisco Ribeiro contesta os argumentos da Dersa para escolher o túnel submerso como ligação entre as cidades de Santos e Guarujá. Segundo Ribeiro, além de mais caro, o projeto visa abastecer um esquema de corrupção.

CartaCapital: Por que o governador defende a inviabilidade da ponte?

Catão Francisco Ribeiro: O governador Geraldo Alckmin repete, como papagaio, o que o secretário dele fala. Saulo Castro não entende nada de ponte. Nem sabe o que está fazendo lá. O presidente da Dersa, Laurence Casagrande Lourenço, é outro incompetente, a experiência dele são 15 anos de investigações na Kroll e cinco anos de Febem. O projeto está nas mãos de técnicos da Dersa, que são corruptos, financiados e patrocinados por grandes empreiteiras. O patrimônio deles é incompatível com o salário mensal. Todos entraram como empregados e estão ricos. A corrupção das empreiteiras que sustentam campanhas políticas é que está atrás desses interesses, como é comum no Brasil. É investigação para a Polícia Federal e o Ministério Público.

CC: O governo argumenta que, no novo local escolhido, a ponte é inviável pelo fato de a altura ser superior aos 75 metros estipulados para navegação aérea do aeroporto local. O senhor concorda?

CFR: O melhor lugar para fazer a travessia entre Santos e Guarujá é onde está a balsa há mais de cem anos. A Dersa opera essa balsa há mais de 50 anos, e se essa área não fosse ideal, ela teria mudado de lugar. O projeto da ponte feito pelo José Serra, do mesmo partido do senhor Alckmin, colocou a ponte nesse local, para acabar com a balsa. Eles colocaram a ponte em outro lugar, para manter a balsa operando. Com isso, a Dersa continua faturando com o pedágio.

CC: O senhor diz que a obra do túnel vai paralisar a entrada de navios no porto em determinados momentos. No caso da ponte, é preciso paralisar a operação do porto?

CFR: Não. O processo é de avanço sucessivo por cima, em altura grande. Só que não dá para roubar, pois tudo está à vista, é feito às claras, não tem nada escondido, enterrado. Fica difícil para qualquer um ganhar dinheiro além do permitido pela lei.

CC: O senhor contesta a pesquisa de origem e destino feita pelo governo para saber qual ponto a população acredita ser ideal para a travessia. Por quê?

CFR: Eles precisavam de uma pesquisa para justificar a mudança do local. Fizeram a pesquisa. É a única razão pela qual deixaram de fazer a ponte. Mas a razão verdadeira é que a ponte vai acabar com a mina de ouro, que é a balsa mantida pela Dersa.

CC: O senhor é um empresário e a escolha do túnel inviabilizou um projeto da sua empresa. Isso não faz com que sua denúncia seja pessoal e não de interesse público?

CFR: Qualquer ponte feita no Brasil tenho interesse. Eu posso me manifestar sobre pontes porque entendo de pontes e entendo de túneis. Nunca fui contra os túneis da Imigrantes, do Rodoanel trecho norte, da Serra do Cafezal. Evidentemente, se você perguntar por que não construíram pontes nesses locais? Não era necessário, o certo ali é túnel. Como técnico formado, sou obrigado a me manifestar quando vejo o governo em um caminho que, se não é honesto, também não é o certo. Não é o caminho da retidão também, pois a corrupção prevalece, a incompetência, também.

CC: O senhor não tem medo de prejudicar seus negócios?

CFR: O Brasil não é uma ditadura. Tenho obras em Santa Catarina, Ceará, Bahia, Sergipe. Em todos esses lugares faço minhas pontes e, às vezes, em substituição a outras pontes. Os empreiteiros são meus clientes? São mais clientes que o Estado e eu posso falar na cara deles, pois eles têm vergonha de pedir para eu desistir de lutar pela ponte. Eles sabem que a ponte é o certo e o túnel é só para ganhar dinheiro.


NOTA DO BLOG: Transcrvemos essa reportagem que apresentas essas denúncias horrorosas, em prol da cidadania, da defesa do bem público e, principalmente, da imparcialidade, já que se depender do imprensalão tucano elas jamais verão a luz do Sol...

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