sexta-feira, 16 de maio de 2014

"A Indústria da Multa não Existe" em: LENDA URBANA


Planeta: Terra
País: Brasil
Cidade: São Paulo
Local: Um apartemento num bairro qualquer

CIDA: Claro que existe!
GEOVÁ: TSK! Existe NADA!
CIDA: Eu mesmo já vi uma vez!
GEOVÁ: Ahhh, uma vez só? Era ilusão de ótica!
CIDA: Outras pessoas estavam lá, elas também viram!
GEOVÁ: TSK! A isso se dá o nome de "histeria coletiva". Isso que foi que aconteceu, Cida.
CIDA: Ora, eu tô falando que tem sim! Até a imprensa fala!
GEOVÁ: TSK! Imprensa quer vender jornal. Por isso que eu não leio.
CIDA: Por isso que você é mal informado.
GEOVÁ: Uaaauu! Touchê!
CIDA: Sem sarcasmo, por favor!
GEOVÁ: Sou mal informado, mas você é que fica aí, acreditando nessas lendas urbanas, nessas coisas que aparecem na Internet. E já te pedi pra não me repassar essas bobagens.
CIDA: "Lenda urbana"?
GEOVÁ: É, lenda urbana, sim senhora! Fala "Beatlejuice" 3 vezes e ele aparece, coisas desse tipo!
CIDA: Que Beatlejuice o quê? É "Bloody Mary" 3 vezes e diante de um espelho, burrão!!!
GEOVÁ: Tanto faz, criatura! Nenhum deles existe! É disso que eu tô falando.

E a discussão entre o casal de namorados se estendeu até que um deles decidiu pôr um termo àquela conversa:

GEOVÁ: Vou provar que não existe!
CIDA: Como?
GEOVÁ: A começar de amanhã, e durante trinta dias, eu vou praticar umas barbaridades no trânsito, pra ver se essa criatura mitológica aparece.
CIDA: Tipo o quê? Ah... e "mitológica" é a mãe, antes que me esqueça!
GEOVÁ: Eu penso em algo.
CIDA: Sei. Você vai é arrumar pra cabeça.

No dia seguinte, à tarde, Geová entra em casa e Cida vai logo perguntando:
- E aí, fez?
- Fez o quê?, responde Geová.
- Oras, você não ia provar que a "lenda urbana" não existe?
- Ahhhh, é! Fiz, sim!
- E fez o quê?

E Geová explica o plano: todos os dias iria falar o possível ao celular enquanto guiasse pelas ruas da cidade. Indo pro trabalho, voltando dele, indo às compras, ao cinema. Só tinha que lembrar de fazer isso, já que não tinha esse costume. Além disso, nos próximos 30 dias iria procurar sempre estacionar o carro sobre as calçadas. Também não tinha esse costume, mas sabia que uma grande parcela da população da cidade sim. Segundo seu raciocínio, se alguém estacionava seu carro sobre a calçada, o que é uma falta grave, e fazia isso com frequência, era porque não havia perigo nenhum. E, de fato, não havia. Não há.
Esse era o foco da discussão ocorrida ente o casal. Cida dizia que havia uma tal "Indústria da Multa" operando em São Paulo, o que era refutado por Geová.

Ao fim do período de trinta dias, Geová informa, de maneira triunfal, que não recebeu NENHUMA MULTA.

CIDA: Ah, vai, nenhuma?
GEOVÁ: Nenhuminha da Silva.
CIDA: Du-vi-do.
GEOVÁ: Ahh, agora a cética é você?
CIDA: Rsrrsrsrs! "Touchê"!
GEOVÁ: É, te peguei!
CIDA: Mas você fez direitinho? Não sacaneou não?
GEOVÁ: Nada disso! Teve uma vez que estacionei o carro uma semana seguida na calçada de uma rua lá no bairro, onde passa ônibus, caminhão e a calçada é estreita. Eu batizei de "evento teste". Se não fosse multado ali, não seria em lugar nenhum.
CIDA: Que rua?
GEOVÁ: A Rua Sete.
CIDA: Ah, aquela! A da padaria?
GEOVÁ: Eu deixava o carro, ia lá na padaria e passava horas só tomando cerveja e conversando com as pessoas e, dali onde estava, eu tinha uma visão privilegiada do meu carro.
CIDA: E não aconteceu nada?
GEOVÁ: Sim e não!
CIDA: Como assim?
GEOVÁ: Bom, é que teve uns momentos em que quase meu experimento científico foi por água abaixo.
CIDA: Não entendi!
GEOVÁ: Bom, passava velhinha, ou mulher com carrinho de bebê e tinham que sair da calçada e ir pro meio da rua pra poder passar. Teve uma vez que o ônibus passou triscando numa mulher, uma velha, coitada! Ela passou apertada entre o carro e o busão. Cheguei mesmo a pensar em desistir. Mas mantive-me firme! Tudo pela Ciência!
CIDA: Credo! E não apareceu ninguém?
GEOVÁ: Uma vez ou outra pintava um carro de polícia fazendo a ronda, mas não aconteceu nada comigo.
CIDA: Só isso?
GEOVÁ: Não, peraí. Teve um dia, o quinto do experimento, pintou um carro da CET. O cara desceu, ficou procurando, procurando, pareceu meio contrariado, pegou o talão e...
CIDA: "E..."
GEOVÁ: Eu corri lá, me apresentei como dono do veículo. Ele falou que ia deixar passar, me deu um sermãozinho. Aí tirei o carro.
CIDA: Viu só?
GEOVÁ: "Viu" o quê? Eu dei a volta no quarteirão e botei no mesmo lugar. E nunca mais fui importunado! Que "Indústria da Multa" é essa?
CIDA: Você teve é sorte?
GEOVÁ: Teve uma sexta-feira que gastei umas duas horas subindo e descendo a Paes de Barros falando ao celular. Fingindo, na verdade, já que eu não ia ficar gastando crédito.
CIDA: Sei, a Paes de Barros. Na Moóca, né?
GEOVÁ: A própria. Eu pegava no horário de pico, à tarde, e ficava subindo e descendo, subindo e descendo...
CIDA: E ninguém te pegou?
GEOVÁ: Claro que não. Nunca pega. Pensa que só tinha eu fazendo isso? É cultural aqui! Nem devia ser proibido! E tinha carro na calçada também! Numa avenida daquelas, à vista de todos! Ninguém pega!!

Vendo que Geová se esforçou para provar seu ponto de vista, mas contrariada, Cida entrega os pontos:
- Olha, eu não tô cem por cento convencida, mas você tem alguma razão.
- "Alguma"? Tenho total razão!
- Ah, não começa de novo!
- Tá, tá certo. Bandeira branca. Pra falar a verdade, eu fiquei até mais convencido da minha certeza do que estava anterioremente. 
- Sério??!
- É pior que eu imaginava. Mas deixa prá lá. Fim da discussão!
- Por mim tudo bem!
- Vamo pedir uma pizza?
- Boa!

ALGUNS DIAS ANTES, numa casa na Rua Sete duas vizinhas conversam:

EMA: NÃO EXISTE EM HIPÓTESE ALGUMA!
MARIA: Existe sim!
EMA: NÃO!!
MARIA: Sim!!
EMA: Tá vendo aquele carro ali na calçada!!!???
MARIA: Que que tem!
EMA: Toda tarde alguém deixa lá e some por horas! Outro dia uma velhinha teve que descer da calçada pro meio da rua e quase um ônibus pegou!
MARIA: Credo!
EMA: E toda tarde eu ligo pra CET e nunca acontece nada! Faz quase uma semana!
MARIA: Não vem ninguém?
EMA: Você tem que telefonar a primeira vez, esperar uns quarenta minutos e tornar a ligar, "reforçando" o pedido!
MARIA: Mesmo?
EMA: No quarto ou quinto dia veio um amarelinho. Eu pensei "Até que enfim!"
MARIA: Então! Aí multou o cara! Tá vendo?
EMA: Em primeiro lugar, se o cara tá na calçada e é multado, isso é merecido, não tem nada a ver com "Indústria da Multa"! Então não tem nada de "tá vendo", certo?
MARIA: Tá, e daí? Então multou?
EMA: Responda você: o carro tá lá agora, não tá?
MARIA: Mmm, é, tá né?
EMA: Então, a menos que o dono do carro tenha dinheiro pra jogar fora, é óbvio que não recebeu multa nenhuma!
MARIA: É, não deve ter recebido mesmo.
EMA: Claro que não recebeu. Eu assisti tudo: o CET veio, fiscou ciscando, ciscando, uns 5 minutos, até que o dono chegou. Aí eles conversaram, parecia que o CET deu meio que uma bronca. Esperou o cara tirar o carro, e foi embora.
MARIA: Aí o cara volta a estacionar hoje aqui.
EMA: "HOJE"? O cara voltou na mesma hora, uns dez minutos depois. Deve ter dado uma volta no quarteirão, sei lá! Voltou pro mesmo lugar! Putaquepariu, fiquei enfurecida. No dia seguinte tava ele lá de novo. Eu voltei a chamar a CET, contei o caso pro atendente, contei que todo dia tem isso. Contei que o amarelinho veio, não multou e que o motorista voltou pro mesmo lugar! Até o atendente ficou puto!
MARIA: E você continuou chamando?
EMA: Não, eu desisti. A hora que alguém se machucar, uma criança for atropelada, aí vai ser aquele choro, mas aí ninguém é responsável, né?
MARIA: Isso quer dizer então que "não existe"?
EMA: Não, a Indústria da Multa não Existe...

(BASEADO EM FATOS REAIS)


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