sexta-feira, 4 de abril de 2014

BC eleva juros pela nona vez seguida e Selic sobe a 11% ( Com notas do blog )


Uma alta de 160% nos juros reais básicos

O nono aumento seguido nos juros básicos, perpetrado pelo Banco Central na quarta-feira sob aplausos explícitos do Planalto, significa, em termos reais, uma elevação de +160% nos juros reais básicos dentro do país, ou seja, na taxa acima da inflação – de 1,7% (abril/2013) para 4,42% (abril/2014).

Bem maior, portanto, do que o aumento apenas nominal de 7,25% para 11%, apesar deste aumento (+51,72%) já ter, para um cidadão normal, um travo, no mínimo, de extorsão.

É preciso ser estúpido ou cínico para dizer que esses aumentos de juros foram para combater a inflação [ grifo do blog ]. Essa é a parte em que os aplausos do Planalto se revelam dignos do velho Nabucodonosor em sua fase final – aquela em que se apresentava de quatro, nos Jardins da Babilônia, para comer capim.

Pois o Planalto acha que vai ganhar votos com a estagnação, a paralisia e o retrocesso do país - os aumentos de juros do BC levam ( aliás, já levaram ) a isso. Deve ser, portanto, o plano mais maluco ou mais asinino que alguém já bolou para uma eleição no país.

Bem, leitores, parece dispensável repetir que não houve e não há, faz muito, nenhum descontrole quanto à inflação. O problema do país é falta de crescimento e não descontrole de preços.

Até o recente Relatório de Inflação, publicado pelo próprio BC, apesar das suas negaças & firulas, diz quatro vezes ( p. 7, 80, 104 e 118 ) que há “baixa probabilidade de ocorrência de eventos extremos”; duas vezes ( p. 7 e 78 ) que “os preços de commodities têm mostrado certa acomodação”; e, até mesmo, que “hoje não se faz necessária a geração de superavit primários de ampla magnitude” ( p. 82 ).

Claro que o relatório diz também o contrário – afinal, é um relatório do BC. Mas o fato de não conseguirem expurgar o lado que não lhes é favorável, somente mostra como tem força a realidade.

Entretanto, há algo que não é tão claro: os aumentos de juros, ao contrário do que dizem os neoliberais do Planalto e do BC, estão tendo – eles, sim - um efeito inflacionário. Como disse na quarta-feira, inadvertidamente, um executivo da área financeira, os aumentos de juros estão sendo embutidos por antecipação no preço dos produtos, assim como nos outros juros, pois sempre se espera – e é fácil prever - que o BC aumentará outra vez os juros básicos ( o executivo estava querendo mostrar que o aumento da taxa básica não redundará em grande aumento dos outros juros ou dos demais preços, porque esse aumento já foi embutido, antes de acontecer, tanto nos juros quanto nas mercadorias em geral ).

Em fevereiro – antes, portanto, do último aumento nos juros básicos – a média dos juros do crediário estava em 68,81% ao ano ( taxa que está, obviamente, embutida inclusive no preço à vista dos produtos – daí as promoções de crediário “sem entrada e sem juros” ). Essa taxa de 68,81% era um aumento de +14% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

Os juros do cartão de crédito estavam em 216,59% ( aumento de +12% na mesma comparação ).

O cheque especial cobrava, em média, 154,06% ( aumento de +6% )

Quanto às empresas, houve um aumento de +16,75% nos juros dos empréstimos para capital de giro e de +12% no desconto de duplicatas (todos os cálculos de variação foram feitos a partir da Pesquisa de Juros mensal da ANEFAC - Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade).

Na média, considerando todas as operações de crédito, desde que o BC começou a aumentar os juros básicos, em abril de 2013, “a taxa de juros média para pessoa física apresentou uma elevação de (…) 88,61% ao ano para 97,16%. Nas operações de crédito para pessoa jurídica houve uma elevação de (…) 43,74% para 47,98%” (ANEFAC, Pesquisa de Juros, fev/2014)

E os aumentos de juros só não tinham sido maiores porque há um ponto em que tudo fica muito arriscado. Isto, repetimos, antes do aumento de quarta-feira.

Resta saber qual é o país do mundo que convive – e sobrevive - com essa aberração.

Nenhum, exceto o nosso. Estão completamente certos os vários líderes ( dos trabalhadores aos empresários ) e profissionais que apontaram que esse brutal aumento de juros ( nove aumentos seguidos e +160% em termos reais! ) é o estrangulamento da produção nacional em benefício de cinco ou seis bancos que mandam e desmandam no mal chamado “mercado financeiro”.

Até porque o aumento da inflação pelos juros só não aparece mais nitidamente porque, ao mesmo tempo, pratica-se ainda uma taxa de câmbio que diminui o preço das importações e encarece a produção interna – o que é uma consequência não somente dos juros altos, mas também das intervenções do BC no “mercado de câmbio”. Essa taxa de câmbio é a pior causa da destruição industrial, ao lado dos juros. A isso se chama frequentemente de desindustrialização. Não deixa de ser ilustrativo, do ponto de vista psicopatológico, como esse governo acredita ou finge acreditar que desnacionalizar a economia é a solução para o crescimento, e, sobretudo para a indústria, na mesma medida em que a realidade mostra o oposto. O máximo a que isso pode levar – e já estamos diante dela - é a uma quebra nas contas externas.

Como já abordamos várias vezes esse aspecto, mais vale aqui reproduzir a descrição do professor Wilson Cano:

“O governo neoliberal adotou um modelo que funciona basicamente da seguinte forma: você barateia as importações de tal modo que o produtor interno não tem como competir no mercado com o produto importado e, portanto, é obrigado a fechar ou baixar seus preços e, com isso, sua taxa de lucro. Assim você contém a inflação.


“Evidentemente, isso abre um buraco na balança de pagamento, que antes não havia. Seus saldos comerciais acabaram e viraram déficits, e seus déficits em transações correntes aumentaram violentamente, porque com a privatização você estrangeirou empresas que eram nacionais e que não mandavam dinheiro para fora, mas agora passaram a mandar.


“Pagamento de assistência técnica, royalties, enormes remessas de lucros, além de inúmeros serviços internacionais que você não comprava.

“Então, o que se faz? Joga-se a taxa de juros lá no céu para atrair o capital estrangeiro. Este capital vem em dois tipos de aplicação, o investimento direto ou o indireto. O investimento direto é o que deveria ir prioritariamente para os setores do seu interesse. Para que eu quero investimento estrangeiro em supermercado e shopping center? O capital nacional faz isso e tira de letra. (…) O grosso da entrada vem para jogar na bolsa e na dívida pública brasileira” ( entrevista à revista do IHU, 11/03/2014 ).

Nós teríamos apenas três observações a fazer: a primeira é que nem sempre as coisas acontecem nessa ordem ( a. Subsídio cambial às importações; b. Aumento de juros ). Mas isso é um detalhe.

A segunda é que a desnacionalização das empresas privadas tem um efeito semelhante ao que o professor descreveu para a privatização – o que está implícito no modo como ele expõe o problema. Por isso, o empresário nacional que apoia a política de privatização está apenas cavando a sua cova - para ser usada em breve.

A terceira é que o capital estrangeiro pode até prestar algum serviço ao desenvolvimento nacional, desde que seja a Nação a determinar o seu lugar na economia – como, por exemplo, fizeram os chineses.

Coisa completamente diferente ocorre quando se deixa o dinheiro estrangeiro à solta para definir qual é o espaço que cabe à Nação - como hoje é, claramente, a opção do governo Dilma.

CARLOS LOPES




NOTA DO BLOG "O CORREIO DA ELITE":

Tentei procurar, tanto neste, como em meus dois finados blogs ( O Cata-Milho e ENCALHE ), algum texto de quando o Brasil foi escolhido ( modo de dizer já que foi uma candidatura solitária ) em 2007 para sediar a Copa do Mundo de futebol. Não encontrei nada e, nesses últimos meses ( tipo, uns 4 meses ) pra cá é que me dei conta disso. Não recordo o motivo. O mais provável é que eu não devo ter dado importância. É bem capaz que eu tenha sido contra mas, pelo sim, pelo não, não existem registros. Ou ignorei ou não dei importância. Apenas recentemente, por exemplo, foi que descobri que os estádios começaram a ser aprontados só a partir de 2010. Se é que eu li direito.

Só fui realmente dar atenção a partir das manifestações de junho de 2013. Aí tive ( modo de dizer, já que segui não dando tanta importância assim ) que correr atrás, tentar entender a questão. Mas não mergulhei nas minúcias, essa é a verdade. Descolei alguns textos em meio aos milhares que rodaram e rodam ainda as mídias e os postei aqui. Os escolhidos por mim sinalizam meu lado sobre o evento ( não deve passar de uns 6 ou 7 posts ). Enquanto opositores ao evento diziam que "o governo" ( geralmente referindo-se ao governo federal, uma confusão bastante comum aqui na terrinha, só não sei dizer se é proposital ou desinformação pura mas inocente ) gastou "X bilhões" na Copa ( transportes e estádios inclusive ) outros apresentaram dados mostrando que, no caso dos estádios, o que houve foram empréstimos do BNDES ( 1 ) que deverão ser devolvidos, desonerações e etc. A questão, segundo os detratores é que "o governo" teria retirado dinheiro que DEVERIA ir para hospitais, escolas etc. Defensores, por outro lado, tentaram demonstrar que dinheiro nenhum foi retirado da saúde e educação. Enfim... 

Alguns dos textos, que julguei melhores, foram por outro caminho. Defendem a disputa da Copa e os supostos gastos, que seriam baixos, mas sob outra abrodagem, cobrando que, se for para protestar contra "desvios de dinheiros da saúde e educação", que se proteste contra a "transferência aos bancos, sob a forma de juros, de bilhões de dólares" ( 2 ). Eu não tenho NENHUMA COMPETÊNCIA ou preparo para falar nos termos [ o texto acima está repleto de exemplos ] de economistas e especialistas, mas sou um cidadão desse país, com direito a voto como qualquer outro, e que ( é óbvio ), não adianta fingir que a questão não me atinge. 

Esse texto ( 3 ), de Junho de 2013, ou seja, bem em meio ao furacão das manifestações, explica umas coisas: não teve dinheiro de saúde e educação indo pra estádio, só que o Brasil gasta bilhões e bilhões em juros, MAS NINGUÉM FALA NADA. Esses gastos encontram , sob o nome de "responsabilidade fiscal", "austeridade fiscal", "superávit primário" e outros, respaldo e defensores tanto na mídia como no mercado financeiro, e seriam a maior causa do estrangulamento no Orçamento para as áreas de que tanto se reclama ( saúde, transporte, educação ): "De janeiro de 2011 a abril de 2013 foram desviados R$ 305 bilhões – que o governo federal empregaria na Saúde, Educação, Transportes, etc. – para a reserva dos juros, o “superávit primário”. Mas o total de juros transferidos aos bancos foi ainda maior: R$ 448 bilhões. Só em “desonerações”, o governo concederá R$ 70,1 bilhões este ano, beneficiando monopólios, via de regra multinacionais, com o único efeito de aumentar suas margens de lucro. Enquanto isso, o governo bloqueia gastos em seu Orçamento e mantém Estados e municípios sob uma asfixiante camisa-de-força financeira."

Pois bem, como admiti acima, não tenho condições de falar nos termos dos especialistas, então vira-e-mexe sou obrigado a recorrer a alguns deles. Como Amir Khair que, em 2010, escreveu o seguinte: "Ambos os lados [ mercado financeiro e governo ] usam a Selic para defender sua posição e ela não tem nada a ver com o problema, pois não altera o preço dos serviços, não altera a oferta de crédito, nem o valor das prestações, não influi sobre os preços internacionais e pior, desestimula a oferta ao inibir os investimentos das empresas, sendo esse importante fator de equilíbrio entre oferta e demanda. Em vez de atenuar a inflação a Selic a agrava...Se não tem a ver com isso, porque é a mais alta do mundo há tanto tempo? É porque predomina no País o rentismo, que é o ganho fácil, sem risco, em cima do governo federal, que paga os juros de quem aplica em, seus títulos, que têm taxas de juros balizadas pela Selic”. ( 4 )

Entenderam onde eu quis chegar? Cada vez que nosso glorioso BC - ou o Copom, sei lá - sobe a tal SELIC, sobem as despesas do governo federal com seus compromissos e empenhos a bancos e os chamados rentistas, retirando do Orçamento generosos nacos que faltam a Saúde, Educação etc.

De 2005, um texto que menciona Márcio Pochmann, explica melhor a situação, de onde destaco o trecho bastante didático: 

"Naquilo que poderia ser classificado como o seu maior programa de transferência de renda, o governo federal paga, a cada ano, mais de R$ 100 bilhões para cerca de 7 milhões de pessoas que estão entre as mais ricas do Brasil. O grupo representa 4% da população do país.

Trata-se dos gastos com juros da dívida interna, que são pagos para todos aqueles que investem em títulos públicos. O ganho da aplicação está atrelado à taxa Selic." ( 5 )

Não vejo como possa ser mais claro. Não há como.

Um dos argumentos usados para defender a Copa ( 6 ) e seus gastos ( existentes ou não ) por parte do governo ( sic ) é exatamente o de que os juros são os maiores sugadores de recursos do país, não o dinheiro da Copa, justamente por ser verdade, mas uma dolorosa verdade: a maior defesa que se pode fazer da Copa é denunciar os gastos com juros. Tendo me convencido disso, EU MESMO passei a usar esse argumento. Se não me engano, o Stédile disse o mesmo numa de suas colunas na Caros Amigos, ou seja, juros e não a Copa, deveriam ser foco das manifestações. Outros defenderam essa idéia, mas não me lembro de nenhum nome agora.

Agora, conforme a notícia acima, o BC torna a subir os juros. Difícil foi ler partidários do governo comparando os juros atuais com os praticados durante o nada saudoso governo de FHC que, quando já se encontrava apodrecendo e em extrema-unção, sob Arminio Fraga, elevou os juros a 45%. Não precisa ser o homem que calculava para saber o significado dessa escorcha mas, em vez de comparar com FHC, por quê não comparar com os juros da Era Lula? Deixem FHC em paz, que ele é passado. Comparar 11% com 45% realmente parece uma goleada, mas... 

Digamos que, hipoteticamente, o governo da Dilma suba os juros até 40%. Mesmo nesse patamar ele ainda ele será menor que o de FHC, certo? É muito bom, se o objetivo for apenas permitir à militância dizer nas redes sociais que seu governo pratica juros menores que FHC, mas isso não refresca nada. Entende que apenas comparar taxas de juros nessas circunstâncias só é bom para se gabar de que "a nossa é menor", mas a grana da saúde, educação e transporte continua indo pelo ralo, e é no atual governo que essa sangria prossegue. Mal comparando, é o mesmo que sentar num toco de 20 cm, alegar que antigamente o toco tinha 40cm e que, portanto, estamos no lucro.

Fazia tempo que eu não escrevia nada que não fosse ficção, mas esse aumento da SELIC meio que me obrigou a isso. De qualquer maneira, não é de hoje que eu tenho procurado me envolver menos com assunto "política". Quem lê meus blogs ( dois hoje finados ) já deve ter percebido isso. E procurei, a partir de junho do ano passado, diminuir mais acentuadamente meu interesse pelo tema. A partir da constatação - já antiga - de que não tenho muito talento para a coisa e que não queria, no fim das contas, me tornar um "nerd da política". É muito enfadonho. Hoje eu mal leio jornais e revistas. 
Não devo satisfação a partidos nem militantes ( profissionais ou não ) apenas à minha consciência, e ela quase sempre me levou a votar no PT, mas tá cada dia mais difícil justificar isso a mim mesmo. Evidentemente, cravar "PSDB/DEM" na urna está fora de cogitação, sempre.
Essas notas explicatórias não passam de desabafo, já que eu conheço bem minha enorme importância ( #ironymode ) nisso tudo. No fim, eu não passo de um voto.
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