sábado, 26 de abril de 2014

A certeza desinformada, Por Valdemar Figueiredo


ENTRE OS EVANGÉLICOS, O DEBATE DAS QUESTÕES SOCIAIS E POLÍTICAS É DESQUALIFICADO

Impressiona, no Brasil contemporâneo, a desenvoltura dos presunçosos. Eles se antecipam para emitir suas velhas opiniões formadas sobre quase tudo. No entanto, só reproduzem as idéias ventiladas pelos grandes grupos de comunicação. São doutos ventríloquos incapazes de diferenciar entretenimento de política, muito menos versão de fatos. Consomem informações sem qualquer senso crítico, emitem opiniões desprovidas de embasamento e, pior ainda, passam adiante o que viram na tela ou leram em algum veículo "confiável" sem qualquer questionamento.

O poder da imagem é quase absoluto diante da força avassaladora das edições que transformam notícias, por piores que sejam, em produto para consumo. Importa informar, mas sem perder o foco - ou melhor, editar para não perder a audiência. O bom texto na voz de William Bonner, o âncora da Rede Globo, soa como fato consumado de interesse público. Os comentários de Ricardo Boechat, na Bandeirantes, desnudam sentimentos públicos. As persuasivas opiniões de Rachel Sheherazade, apresentadora do SBT, que não tolera o malfeito do marginalzinho, mas compreende a fase rebelde do playboyzinho de classe média que precisa transgredir para se reencontrar. A síntese de tudo bem que poderia ser o close manjado do Boris Casoy e seu bordão ambíguo: "Isto é uma vergonha!"

Segundo o cientista político Giovanni Sartori, a televisão se mostra como porta-voz de uma opinião pública que, na realidade, é apenas o eco da própria voz. Democracia prevê a multiplicidade de opiniões; o perigo é quanso o monopólio da fala começa a definir as suas poucas vozes como opinião pública. No Brasil, a estrutura vigente da comunicação social foi montada em plena ditadura militar, entre os anos 1960 e 80. Houve  a redemocratização, e, em diversos aspectos, as liberdades democráticas avançaram. Por que será que uma ampla reforma neste setor encontra tanta resistência?

Entre os evangélicos, o debate das questões sociais e políticas é desqualificado. No Brasil de hoje, em que os crentes se orgulham de ser quase 25% da população, sofremos da inábil prerrogativa de que qualquer notícia é um fato. Uma simples versão muitas vezes repetida pela mídia vira verdade indiscutível. Já a opinião fraca, trajada de linguagem religiosa, resulta em intolerância. "É preciso segurar numa mão a Bíblia e, na outra, o jornal", aconselhou Karl Barth. Como imaginar o eminente teólogo suíço em diálogo com uma imprensa totalitária, que escolhe criteriosamente o enquadramento das notícias? Nas democracias saudáveis, a liberdade de expressão tem a ver com a diversidade dos veículos de informações e a variedade das opiniões. As redes de comunicação evangélicas, tão bem distribuídas no território nacional, estão longe de ser neutras em termos políiticos. Parte significativa dos deputados e senadores que compõem a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional são detentores de concessões de radiodifusão.

Muitos sermões dominicais são ilustrados com notícias frescas ouvidas em debates numa rádio qualquer. São ecos de opiniões e informações que geram alarmismos suficientes pra se demonizar pessoas e instituições. Geralmente, os pastores são treinados a não tirar o texto bíblico do seu contexto para não construir aberrações retóricas; mas o mesmo cuidado não ocorre quanto às chamadas outras fontes. Manchetes de jornal ou chamadas de noticiário de TV pautam cada vez mais as pregações. Por outro lado, para os emissários do apocalipse que preferem teclas a trombetas, o ambiente do Facebook é perfeito. Ali, vigora a falsa impressão do poder de produzir notícia. Alguns se habituam a fazer o trabalho de espalhar boatos, mostrando a cara com comentários indignados, enquanto preservam os covardões que fabricaram as versões e que, por questõe mesquinhas, preferem as sombras.

Existe um princípio basilar das sociedades democráticas de direito que encontra amplo respaldo nos ensinos da ética cristã: a de que todos são inocentes até que se prove o contrário. Mas a presunção da inocência não é algo com que a comunicação de massa opera. Na sociedade do espetáculo que se estabeleceu no Brasil, as igrejas evangélicas não podem se deixar transformar em simples caixas de ressonância.

PUBLICADO NA REVISTA CRISTIANISMO HOJE, Edição 40

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