segunda-feira, 17 de março de 2014

Males de Nosso Tempo: Dependência da internet leva jovem à internação clínica. Vício custou-lhe o emprego, a saúde, a família...



Relação desequilibrada com as redes sociais custou-lhe o casamento e o emprego e impactou de forma negativa no convívio com os filhos

Os polegares de Lucélia Cristina Paes já não ficam inquietos durante uma conversa e ela já não sua frio quando vê um aparelho celular. Aos 26 anos, a jovem está internada em uma clínica em Araçoiaba da Serra há um mês para tratar a dependência em internet que lhe custou o casamento, o emprego e o convívio com os filhos. O problema passou a ser constatado pela família quando Lucélia começou a emagrecer. Foram 30 quilos perdidos em menos de um ano. A suspeita era de uso de drogas mas quando o smartphone quebrou e Lucélia teve um ataque de fúria foi constatado que a dependência era de internet e não de entorpecentes. 

Para ficar mais tempo conectada Lucélia deixava de comer. Quando trabalhava como auxiliar de cozinha era proibida de levar o aparelho celular para o serviço. No horário do intervalo para a janta, ao invés de se alimentar a jovem aproveitava para conferir as novas postagens em redes sociais e salas de bate-papo - passatempo preferido dela na grande rede. O casamento acabou há cinco meses. O marido foi embora reclamando atenção por parte da esposa que também deixou de cuidar dos filhos e, com o tempo, largou o emprego para ter mais disponibilidade para os amigos virtuais. 

Lucélia começou a ter uma relação desequilibrada com a internet depois do término de seu casamento. Ela lembra que disputava o computador com o marido e como ele trabalhava o dia inteiro, ela aproveitava a noite, enquanto o companheiro dormia, para ficar na rede. "A gente brigava o tempo todo para ver quem ia mexer no computador. Ele largava o computador às 11 da noite e eu aproveitava para usar e ficava até de manhã. Isso foi em torno de uns dois anos assim", lembra. Para acabar com as brigas Lucélia comprou um celular com acesso à internet e agravou sua dependência à rede. 

Segundo a jovem, com o fim do casamento a dependência ficou ainda mais grave e até o emprego ficou em segundo plano. "Eu já não estava rendendo mais o que rendia antes então decidi pedi as contas", diz. Com isso toda sua atenção foi direcionada para o mundo virtual e antes da jovem ser internada para tratar a dependência planejava abandonar os filhos e morar com uma pessoa que conheceu pela rede no Paraná. Com o desemprego, lembra, ficava mais do que 24 horas conectada. "Meus pais sempre brincavam dizendo que iam me internar e eu ria, mas chegou uma hora que concordei em vir", comentou. Mesmo desempregada, Lucélia continuou com os planos de diversas operadoras para acesso à internet no celular. Mensalmente a família gastava, no mínimo, R$ 200 para quitar a fatura do telefone celular da jovem. No último mês a conta ficou em R$ 400. "Isso porque eu nem fiquei todos os dias de dezembro em casa", diz. 

Crise de ansiedade 

Quando o aparelho celular quebrou, em um sábado à noite, Lucélia teve uma crise de ansiedade. O aparelho pegou umidade pois a jovem não desgrudava dele nem para tomar banho. "Eu queria a qualquer custo encontrar um lugar para arrumar o aparelho. Fiquei muito nervosa e percebi que eu realmente estava precisando de ajuda." A internação começou no dia seguinte e um mês depois Lucélia conta estar mais consciente sobre sua patologia e está disposta a mudar os hábitos. "Eu não tinha mais convívio com ninguém. Largava meus filhos. Meu pai é quem levava e buscava meus filhos na escola. Eu perdi e estou perdendo muita coisa por conta dessa dependência. Meus filhos me pediam atenção e eu não dava. Hoje eu vejo o quanto eu perdi para ficar na internet", lamenta Lucélia. 

O isolamento causou dificuldades de relacionamento e na habilidade da escrita com caneta e papel. Copiar salmos bíblicos é um dos exercícios a que a jovem é submetida. "Quando ela chegou aqui falava com a gente mexendo os polegares, como se estivesse digitando as palavras em um celular. Era um dos aspectos do transtorno", revela a psicóloga que acompanha o tratamento dela, Ana Leda Bella. Retomar a convivência no mundo pessoal e desenvolver na jovem a habilidade de lidar com a internet de forma saudável é um dos objetivos do tratamento. Quando ficar curada, Lucélia quer retomar os estudos e fazer curso para trabalhar com transporte de valores. 

Fora da clínica o desafio de Lucélia será o de fazer o uso consciente da internet. Ana acredita que o recomeço de Lucélia será ainda mais difícil do que de dependentes químicos. "As drogas ilícitas são mais difíceis de serem adquiridas. Já a internet está presente em todos os lugares", argumentou a psicóloga. Lucélia sabe que não será fácil, mas diz estar trabalhando para o êxito na empreitada. "Eu já não suo mais quando vejo um aparelho celular. Sei que vou ter que me controlar e me policiar. Mas quem está na chuva é para se molhar e agora que comecei eu vou até o fim." Para os pais, Lucélia deixa um alerta. "Hoje, as crianças de seis ou sete anos já têm celular. Os pais têm que prestar muita atenção na forma que os filhos estão usando a internet. Se puder colocar senha e controlar o acesso é muito bom", finalizou.


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