terça-feira, 4 de março de 2014

Favor ou caridade ( ficção )



O sujeito encosta na banca de jornal, começa a olhar as capas dos jornais expostas, e puxa papo com o jornaleiro:
- Aí, ó. Esse lance de caridade que tá aí na capa do jornal. Mulher boba. Fica criando vagabundo preguiçoso.
O jornaleiro, safo, nem se digna a olhar pro entrujão. Tava de saco cheio de discursador e palanqueiro alugando seus ouvidos. Toda hora era isso...

Sem se abalar com a indiferença do jornaleiro, o chato insistiu:
- É... Esse lance de caridade... Só prá criar preguiçoso.

O jornaleiro não responde. Nem sequer resmunga.

Na cara-de-pau, o chato finalmente mostra qual era sua real intenção:
- Troca uma nota de cem pra mim?

Não, vocês não leram errado. Ele não usou o "por favor". E nem usará o "obrigado", se conseguir seu intento. É o "zeitgeist" em que vivemos.

Diante da exigência - não foi bem um pedido - o jornaleiro, finalmente, dá uma atenção pro chato:
- Não troco nada prá ninguém. Aqui é banca, não banco. Não faço caridade.
- Mas não estou pedindo caridade. Estou pedindo um favor! - responde o chato, diante da negativa.
- Não vejo diferença.
- Mas tem! Mas tem!
- Hmmm...É? É qual é?
- Hum, ééé...Hum...! Bem, veja por esse lado: eu posso vir a me tornar seu cliente, comprar uma balinha, um docinho de vez em quando se...
- ..."se" eu fizer o favor de trocar o seu dinheiro? É isso? E a caridade, qual a diferença?
- A caridade, ela é aquilo que eu falei antes, lembra? Cria preguiçoso. E você não ganha nada com ela, é a fundo perdido...

Finalmente, o jornaleiro abandona a defensiva, e resolve responder assertivamente às besteiras do chato:
-"Preguiça", amigo, é que eu estou, aliás, ESTAVA, acostumado a trocar dinheiro pra qualquer dequalificado que vinha me encher o saco. Aí sim, eu criei preguiçoso, que passou a achar que eu tinha OBRIGAÇÃO de ficar trocando dinheiro. Olha o banco aí do outro lado da rua. Ninguém quer ir lá, porque "dá trabalho", tem que pegar fila, esperar. Prá puta que pariu, isso sim!
- Não, mas é que...
- E, de mais a mais, eu não faço as coisas esperando algo em troca, uma retribuição, nem nada disso. Tenho todo tipo de defeito, mas esse não é um deles.
- Hmm... então é mais provável você fazer alguma caridade do que favor, já que caridade não tem retribuição?
- Bem, er, pensando nessa conversa que estamos tendo, sob alguns aspectos, eu até admito que, sim, faria caridade, mas não favor.
- Então: VOCÊ FARIA A CARIDADE DE TROCAR UMA NOTA DE CEM PRA MIM? DE PREFERÊNCIA, TUDO DE DEZ!
- Oras, claro que não!
- O...QUÊ? Por quê não? Você não acabou de dizer que...
- Sim! E a primeira coisa que você me disse, lá nas primeiras linhas, é que é contra a caridade, que é fábrica de preguiçosos e...
- Sim, sou contra, mas comigo é diferente, já que eu sou um cidadão de bem e...

FIM


.



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