domingo, 23 de março de 2014

Falta de água nos faz cometer loucuras ( ficção )



Como filha única, Cecília herdou o imóvel onde morou a vida toda. Pertencera ao avô de Cecília e, em seguida, ao pai dela. Tanto o avô como o pai de Cecília eram pessoas simples e a casa refletia isso também. O imóvel era daqueles antigos, com dependências ( sala, quartos, cozinha ) externas, espalhadas pelo terreno. Para ir ao banheiro, a pessoa tinha que sair no quintal, por exemplo. 
O terreno, por sua vez, não era totalmente construido, ocupado. Ao contrário: havia um quintalzão de terra, hortinhas e canteiros de flores, plantas, árvores. Pés de frutas, como limoeiros, e pés de tomate, couve, xuxu, vagem orelha-de-padre. Muito do que Cecília teve no prato ao longo da juventude veio daquele quintal.

Mas havia as folhas. E o barro. Que Cecília detestava até a morte .

Aos 38 anos, Cecília era casada e morava num bairro de classe-média de uma grande metrópole brasileira. Residia num desses imóveis novos e modernos, onde o passado de árvores, plantas e barro já não mais cabia. Tanto que, ao herdar o imóvel que pertenceu a seus parentes, vendeu rapidinho e vibrou, quando tudo foi abaixo e a construtora levantou quatro casas ali naquele terreno, onde antes havia apenas uma moradia e bastante espaço "vago". O que mais Cecília gostou foi que a área externa destes novos imóveis era do tipo "cimentado para botar carro". Plantas, nem em pensamento. Um vasinho, talvez.

Uma das coisas na vida que mais agradavam Cecília era lavar o quintal de sua casa. Nada de vassoura ou esfregão. Era só mangueira ligada durante dezenas de minutos, todos os dias, fizesse frio ou calor. Nada de sujeira nem mato ( na rua haviam árvores e estas "teimavam" em soltar suas folhas que se espalhavam por todas as residências, o que irritava Cecília de montão; mas isso servia como justificativa para Cecília "regar" seu quintal cimentado e a calçada diariamente ).

Os vizinhos, no entanto, não se acostumavam com aquele costume da vizinha asseada. Achavam exagero. Pra quê tanta limpeza? Até em dias de chuva ela fazia aquilo.
Outros, com consciência mais "ecológica", achavam aquilo uma "estupidez tremenda" quando não, um desperdício burro e alienado. Água potável sendo usada para propósitos imbecis.

Estes, os "ecológicos", criaram coragem e começaram a comentar em voz alta, para que ela escutasse, quando apanhavam Cecília praticando seu esporte predileto:
- Êita, mania de limpeza...
- Vai gastar o chão de tanto lavar...
- Esse quintal tá mais limpo que meus pratos lá de casa...

Mas Cecília fingia que não ouvia. Seguia normalmente com sua rotina diária, tentando não dar ouvidos às más línguas da vizinhança. Que cuidem de suas vidas, poxa!

Passou o tempo, como nada mudava, os "ecológicos" partiram para o ataque direto:
- Ô Dona Cecília, tá gastanto água demais! Um dia vai faltar e a gente é que vai se ferrar!
- Usa a vassoura, filha da puta!
- Puta que pariu, o mundo já tem lugar em guerra por causa de água e essa lazarenta fica gastando!

Cecília não queria nem saber. Respondia aos ataques:
- Cada um, cada um!
- Cada um coseus problemas!
- Deus deu a vida para cada um cuidar da sua!

E, o argumento supremo, de cidadão:
- Tô pagando!

Ou, uma variante deste:
- Eu posso pagar!

É verdade. Podia. Além da grana que ganhou com a venda da casa, Cecília tinha sua poupança e o marido ganhava bem no mercado imobiliário, que vivia um boom sem precedentes.
O mundo é assim, não? As leis de mercado, vamos dizer. Quem tem dinheiro paga pelo produto. Quem não tem, azar. 
Cecília se orgulhava muito da vida que levava, e por ter condições de pagar pelas coisas.
- Os vizinhos, eles são é invejosos do nosso padrão de vida. Quem não tem, bate palmas, ora!

( *** )

Um dia, Cecília ligou a TV no noticiário, pois gostava de acompanhar a realidade do dia-a-dia. Saber das coisas:
- Gosto de estar informada de tudo, e nesse mundo isso é fundamental.
Cecília era muito ativa nas redes sociais, onde trocava informações, comentários e notícias:
"Como tem roubo e corrupção nesse país"
"O cidadão de bem está acuado pelo crime nesse país"
"O cidadão de bem não pode andar de carro nesse país sem ser apanhado pela Indústria da Multa"

Pois bem, Cecília ligou a TV a tempo de ver o âncora dizer que "o forte calor que faz nesse Verão e a falta de chuvas poderão acarretar em racionamento de água".
Bem, o âncora esqueceu de dizer o papel do governo nesse possivel racionamento, mas faria pouca diferença, já que o último negava a possibilidade de isto ocorrer, e o público acreditava. Ou queria acreditar.
Só que isso é assunto para outra ocasião.

( *** )

Passou o tempo. O perigo do racionamento era cada vez maior. Alguns bairros já viviam essa realidade, mas de forma "não-oficial": o governo negava o racionamento mas, na pratica, esses bairros - não o de Cecília, é bom ressaltar - tinham longos periodos diários de torneiras secas.

Pensam que isso afetou Cecília? Claro que não! Ela seguia naturalmente com sua rotina. E confiava no governo:
- Se ele diz que não vai faltar, é porque não vai. Isso aí de falar em racionamento é política.

Ela tocou num ponto importante: era ano eleitoral, e não seria politicamente interessante ao governo impor racionamento de água pelos meses que faltavam, já que ainda era Fevereiro. Oito meses sem água poderiam levar a população a pensar seriamente em mudanças. Talvez isso passasse pela cabeça do governo. Então, nada de dar munição ao adversário. 
Logo, o governo passou a pagar espaço na mídia para fazer campanha pela economia de água. A mídia, que sempre lhe foi simpática, encampou a idéia e passou a apresentar em forma de jornalismo e notícia o apelo governamental.

A crença de Cecília no governo saiu pela culatra. Agora, os desperdiçadores de água eram considerados os responsáveis pela mais que certa falta do líquido, que se aproximava, e as campanhas institucionais diziam isso:
"Sabe aquele vizinho que gasta água regando o quintal? Ele é um inimigo da população! Isso tem que parar!"
"Não desperdice água. Se souber usar, não vai faltar, seu maldito!"
Os noticiários acompanhavam o tom:
"Companhia de água do governo apela a cidadãos para que economizem água. E pede que denunciem os gastadores!"
Não preciso dizer que alguns vizinhos de Cecília atenderam ao apelo do governo. Ela recebeu umas comunicações da companhia de água, mas ficou nisso.

( *** )

Sob esse clima, a vida foi acontecendo. Como a situação pouco se alterou, o governo resolveu agir. Não imporia racionamento ( seria impopular e um suicídio eleitoral ) mas decidiu elevar a tarifa de água. Tipo, multiplicou por 10 o preço do m3. Quem gastava pouco, no entanto, seria pouco afetado. Haveria maior fiscalização e rigor, para evitar os "gatos". 

Diante disso, o marido de Cecília, que não havia aparecido no texto até aqui, diz à esposa:
- Vai ter que parar de lavar o quintal e a calçada todo dia.
- O QUÊ????!
- A gente vai gastar uma fábula! Tem que parar!
- N-não, não pode!
- Cecília!
- Não vou! Não tolero sujeira! Não dá!
- É só até as coisas normalizarem!
- Não!
- Pensa direito, Cecília!
- N-não posso!
- É muita grana, Cê!
- A gente pode pagar! Eu posso pagar!
- Aiaiaiaiai!
- Eu posso pagar...eu posso pagar...
O marido decidiu deixar as coisas rolarem. Lavar o quintal e a calçada deixava a esposa feliz. Fazer o quê? 

( *** )

Meses depois, o nível das represas estava num patamar desesperador. A estação das chuvas havia passado. 
Cecília, no entanto, não se abalava. Sua rotina era a mesma. Um pouco mais cara, mas tudo bem. Ela podia pagar.

Um dia, foi fazer compras e pegou um carro-pipa lavando a fachada da Subprefeitura.
Cheia de revolta e indignação, postou no Facebook:
"Revolta. Caminhão-pipa da prefeitura lavando fachada enquanto cidadão tem que economizar. Por que a Prefeitura, que manda a gente não gastar água, não dá o exemplo? Isso é Brasil!"

Recebeu 7.300, "Curti". A postagem foi respondida por um internauta:
"Quem está 'mandando' a gente economizar água é o governo estadual e a companhia estadual de água. E o caminhão-pipa em questão, era água de reuso, como a que usam no final das feiras-livres para lavar as ruas. Vai se informar. Kkkkkk"

Cecília respondeu:
"Comunista. VTNC"

( *** )

O governo estava decidido a não baixar um impopular racionamento de água à população, pelo menos até que a eleição passasse. Decidiu, então, por um novo reajuste na tarifa de água. Agora o bicho ia pegar.

O marido de Cecília impôs a condição:
- VAI TER QUE PARAR! AGORA É SÉRIO! SE NÃO PARAR, EU PEÇO O DIVÓRCIO!

Cecília gostava muito do marido, e decidiu se controlar. 

Nos primeiros dias foi muito difícil. Continuava lavando o quintal e a calçada, em dias intercalados ( Domingo sim, segunda não, terça sim, e assim por diante ). 
Depois, em dias intercalados, mas que só o quintal. Em seguida, dois dias por semana. E a calçada apenas uma vez por semana, depois por quinzena. Por fim, a calçada era lavada apenas uma vez por mês. E o quintal, uma vez por semana. 

Cecília não aceitou facilmente aquilo. Mas não havia o que fazer. A água estava realmente custando caro. Havia a previsão - e a promessa do governo - das coisas se normalizarem e as decisões ( como os reajustes brutais das tarifas ) desfeitas. Mas tinha que esperar.

( *** ) 

Certa manhã, Cecília estava na Internet, e leu a notícia de que o governo descobriu uma vasta, riquíssima e incalculável reserva de petróleo num lugar qualquer. 
"Dane-se o petróleo, cadê a água?", pensou.

( *** )

Finalmente, o governo venceu a eleição. Estava novamente reeleito. 
Mas, ao contrário do que se falava por aí, não houve racionamento, já que a campanha pela economia havia sido um relativo sucesso. Só que não o suficiente para haver um "afrouxamento" do nó. Houve, na verdade, um outro reajuste da tarifa. Àquela altura, Cecília estava lavando o quintal apenas uma vez por mês. E a calçada, nem lembrava quando foi a última vez.

( *** )

A campanha contra o desperdício de água, com a cobrança de altas taxas pelo consumo perdurava, já fazia três anos. Nesse tempo todo a chuva não cumpriu seu papel de antes. Os reservatórios se encontravam sempre no limite. Se não havia racionamento nem estiagem, por outro lado a economia era fundamental. Nada de desperdício. 
E leu a notícia de que, graças àquele poço megagigantesco de petróleo descoberto tempos atrás, o governo decidiu que o litro da gasolina custaria menos que um iogurte.

( *** ) 

Tempos depois, Cecília - que nem lembrava mais quando havia lavado o quintal pela última vez, só lembrava que era há mais de oito meses - passava pela parte da cidade onde moravam as gentes mais "bem de vida" e vencedoras. Grandes e espaçosas casas.
E notou que as calçadas e quintais de quase todas as casas apresentavam sinais de terem sido lavados. Com a mesma água potável que ela, Cecília, tinha que economizar para não faltar para beber, tomar banho e fazer comida.

De estupefata, Cecília passou para o estado de revoltada.

Ao passar diante de uma belíssima e enorme residência, flagrou a empregada lavando o quintal. E berrou:
- Ôu! Pára de gastar água!
Assustada, a empregada correu pra dentro da residência e regressou, segundos depois, com a dona da casa:
- Ela aqui, Dona Celeste!

Dona Celeste olhou para a mulher que se encontrava do lado de fora do portão e perguntou:
- O que deseja?
- Essa mangueira..., respondeu Cecília.
- Que que tem?
- Sua funcionária, ela tá desperdiçando água, gastando com o quintal...
- Ótimo, tá fazendo o que mandei...Ainda falta a calçada, Dinorá!
- Já ia fazer, dona Celeste - defendeu-se Dinorá - mas ela me atrapalhou.
- Mas... e a falta dágua, o racionamento?, perguntou Celeste, meio desconcertada.
- Não me preocupa. O governo diz que não vai ter. Desde que começaram a falar nisso ele nega racionamento. Até hoje não teve, era tudo boato eleitoral.
- M-mas, e o preço? Toda hora ele reajusta a tarifa.
- E daí? Eu posso pagar.

( *** )

Depois daquela conversa, Cecília retornou a casa. No caminho leu, numa banca de jornais, a capa de um jornal exposto, cuja manchete dizia:
"GOVERNO REDUZ PELA TERCEIRA VEZ NESTE ANO O PREÇO DA GASOLINA"
A gasolina custava menos que a água, percebeu Cecília. Ela, que sempre pôde orgulhosamente pagar pela água que consumia em quantidades industriais, agora tinha dificuldades em fazê-lo, mesmo consumindo pouco em comparação àqueles tempos idos. 

( *** )

Chegando em casa, Cecília sentiu um forte impulso de dar uma lavadinha no quintal. Uma vezinha só, pelos velhos tempos. Não ia custar tão caro que ela não pudesse pagar:
- Só essa vez...

Foi ao quintal e pegou a mangueira - que se encontrava da mesma maneira que havia sido deixada - e abriu a torneira. Só saiu um som de ar.
Não havia racionamento oficial, mas alguns bairros passavam, há anos, por um racionamento "não-oficial". E esse racionamento "não-oficial" chegou, finalmente, ao bairro de Cecília. E nunca chegaria ao bairro de gente bem que Cecília havia recem-visitado, é bom que se diga.

Cecília suspirou. Pegou alguns vasilhames que estavam guardados no quartinho da bagunça. Umas garrafas de plástico, bombonas, litros, todos com tampa. Botou no carro, deu o contato e saiu.

( *** ) 

Retornou meia hora depois, com os vasilhames cheios. Estacionou o carro na rua e pegou os frascos, entrando em seguida no quintal da residência. Abriu cada vasilhame e despejou o conteúdo na área do quintal e, em seguida, na calçada. Por fim, pegou uma última garrafa e entornou o líquido sobre si e sentou no cimentado. 
Tirou um isqueiro do bolso e acendeu-o, levando a chama ao chão. Em segundos, quintal, calçada e Cecília ardiam sob a ação de fortíssimas chamas.
Em estado de choque ( ou, sei lá, tomada de delírios ), Cecília berrava:
- Não tem água, mas tem gasolina! Não tem água, não tem água, não tem racionamento, não tem água, água de beber, eu quero meu quintal limpo, água, não tem água...

Seu sofrimento durou poucos minutos, sob os olhares apavorados dos vizinhos, que nada podiam ter feito.

( *** ) 

Menos de uma semana após a tragédia de Cecília, voltou a chover normalmente e, em poucos dias, inacreditavelmente, as represas estavam novamente com suas capacidades recuperadas. Conforme havia prometido o governo, não houve mesmo racionamento, as tarifas foram sendo reduzidas aos poucos e a vida voltou ao normal. 


FIM


.

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