sexta-feira, 21 de março de 2014

Babel ( ficção )



Essa aqui se deu no tempo do Onça, na época em que havia muita gente maleducada em São Paulo. Graças a Deus, esse tempo não existe mais. Mas ficou o registro. Vamos ao fatos:

Gilberto voltava do trabalho. Era noite, tipo umas dez horas. Subiu no busão, no ponto inicial. De lá até sua casa daria uns 25 minutos. 
Como um dos primeiros na fila, Gilberto pôde escolher um lugar de seu agrado para sentar-se. Ocupou o banco, abriu a mochila e pegou seu jornal. Não tinha tido tempo de lê-lo ainda, então serviria para distraí-lo durante a viagem.
Quando faltavam segundos para a partida, um rapaz sentou-se a seu lado. Gilberto estranhou, pois havia muitos lugares para o carinha escolher. O veículo estava praticamente vazio.
Mas, enfim, tratou de dirigir a atenção ao jornal e ignorar o resto.

Finalmente, o ônibus saiu.

Minutos após ter o veículo deixado o ponto inicial, o rapaz abre a mochila e apanha o celular. E bota uma "musiquinha" para animar o ambiente. Sem fones de ouvidos.

Já na primeira manifestação da batida da música, Gilberto se irritou, incrédulo. O que é bastante compreensível. Minutos atrás, tudo estava na maior paz e, de repente, o caldo havia simplesmente entornado.
Não se trata de gosto musical, mas sim, de local adequado. Dentro do busão? Naquele tempo, Gilberto já tinha escutado falar da existência de lixos que gostavam de escutar o som alto dentro do transporte público, como trens e o Metrô - além dos ônibus - mas nunca tinha tido o duvidoso privilégio de presenciar tais eventos. 

Depois da popularização dos celulares e MP3, a febre simplesmente explodiu. Hábitos claramente inoportunos e maleducados transformarm-se em hábitos inoportunos, maleducados e provocativos. Quem fazia parecia menos se preocupar com a música que escutaria e mais com a tentativa de "peitar" os outros. Senão, qual a explicação de não se usar fones de ouvidos? Tratava-se de um evidente desafio aos demais passageiros. E geralmente se davam bem, já que quase ninguém iria brigar por causa daquilo. Por achar que não valia a pena, ou que era nada para se preocupar ou, é mais provável, por medo de arrumar uma briga que pudesse resultar em alguma tragédia. Então, as pessoas de um modo geral acabavam engolindo e passando a viagem escutando música quando o que mais queriam era o silêncio. 
Ou, há que se reconhecer, tem quem não se incomodaria em escutar música naqueles ambientes, contanto que fosse o tipo de música de seu agrado. 
Infelizmente nunca era o caso. Os "DJs" sempre obrigavam os passageiros a escutar um tipo de música que agradava somente a ele. Era batata. 

Mas, para Gilberto, se fosse para escutar música na viagem, então teria que ser a música que ele gostava. Ou que, ao menos, não lhe fizesse diferença. Ele gostava de Beatles mas, no trabalho, escutava uma rádio que tocava MPB o dia todo; então aprendeu a, digamos, tolerar os gostos diferentes do seu. Até aprendeu a cantarolar uma do Ivan Lins. Quando o chefe estava fora - ele que escolhera a rádio de MPB - o subgerente botava noutra estação que tocava música suave, uns pop internacional inofensivo, como Chris De Burgh. Não incomodava Gilberto, então tudo bem.

Mas, naquele momento, dentro do busão, com aquele tums-tums-trrrrrrr-tums, Gilberto se sentiu ofendido. Em primeiro lugar, pelo fato do cara ter sentado bem ao seu lado quando havia um monte de lugares vagos. Pareceu-lhe uma provocação deliberada e direta. Um desafio.

Apesar disso, Gilberto olhou pro sujeito ao lado, que ia balançando a cabeça tentando acompanhar o ritmo da peça musical que impunha aos demais passageiros, e pediu-lhe:

- Você não tem fone de ouvido?

O sujeito, que já parecia preparado de antemão para este momento, respondeu na lata:

- Não, por quê?

- Bem, é que tá me incomodando, respondeu Gilberto.

- Cada um, cada um. Cada um coseus problema. Os incomodados que se mudem..., devolveu o carinha, parecendo que estava lendo uma lista de frases-feitas.

Aquilo desconcertou Gilberto, mas não havia mais volta. Respirou fundo, abriu sua bolsa e pegou seu celular. O folgado arregalou os olhos. Pensara que Gilberto aceitaria passivamente a ofensa, mas ele realmente não conhecia Gilberto. Este pegou o aparelho e ligou-o. Olhou novamente pro carinha e disse:

- Então...Você não tem fones de ouvido?

Pensando se tratar de um blefe, o carinha -  que chamava-se Wheskleysson - respondeu, resoluto:

- Não, não tenho não!

Gilberto então disse:

- Então, é que tá incomodando os passageiros. Olha o aviso, lá: "Proibido o uso de aparelhos sonoros". É lei! Os passageiros tão chiando e com razão.

Passageiros que, até então, não se manifestaram publicamente. Apenas resmungaram e olharam feio. E olharam pro outro lado, como  uma tentativa inócua de tentar esquecer aquela barulhada que Wheskleysson fazia. 

Ninguém foi em auxílio de Gilberto. Que percebeu que a parada seria somente entre ele e o folgado ( "Que se dane a lei...", respondeu Wheskleysson, "...eu tô no meu direito, cada um cada um!" ). 

Assim, Gilberto não teve outra altenativa a não ser se unir ao barulhento. Se era para ter que escutar música quando não queria, então que fosse a música de que gostava. Também era seu direito, afinal de contas...

Começou com Helter Skelter.

Wheslleysson olhou feio, mas não saiu do lugar nem baixou o som. Se fizesse isso, Gilberto também o faria. Mas Wheskleysson era folgado mesmo.

Finda Helter Skelter, começou Revolution. 

Wheskleysson aumentou o volume. 

Gilberto fez o mesmo. E, terminada Revolution, botou Ramones.

Depois repetiu Ramones.

Wheskleysson aumentou o som.

Gilberto fez o mesmo. E tascou um Stooges. Depois Rolling Stones. E Nirvana na sequência. E Motorhead.

( *** )

Finalmente, as pessoas começaram a sair da apatia. Um passageiro lá no fundo, revoltado com aquela "guerra" aderiu a ela. Catou o celular e botou Carmina Burana. 

Um outro rapaz, com cara de estudante universitário, botou Chico Buarque. Mas a música era muito leve, então não se sobressaiu muito. Mas engrossou a maçaroca sonora que começava a se formar naquele veículo. 

Uma garota botou um play do Legião Urbana que tinha baixado. Um outro senhor, mais velho, sintonizou um jogo de futebol. Dona Clarice, que acompanhava a confusão desde o começo - foi uma das primeiras a subir no ponto inicial - resolveu pôr na novela. Outro garoto, com cabelo roxo, tratou de mandar um drum'n'bass. Valquíria, por sua vez, botou um Luan Santana, seguida por Patrícia, que mandou Lady Gaga e em seguida, Madonna. 

Ao fim de uns vinte minutos quase 90% dos 30 passageiros estavam escutando aquilo que queriam, alto e sem o uso de fones de ouvido. Aliás, escutando é modo de falar, pois só se tinha cacofonia.  A verdade é que ninguém conseguia escutar mais nada, mas ninguém arredou pé daquela guerra para a qual tinham sido arrastados.

Motorista e cobrador não falaram nada, pois não eram loucos de desafiar o povo. 

Ah, sim: Depois de ter executado umas 5 ou 6 músicas, Gilberto desceu no ponto de casa. Quase simultaneamente, a bateria do celular de Wheskleysson pifou, e ele passou a ter que aguentar a música alheia pelo resto da viagem, e olha que faltava muito ainda. As pessoas criaram coragem e cercaram o banco onde se encontrava Wheskleysson, que teve que aguentar toda aquela barulheira em volta dele, como uma espécie de "prisão sonora". 

E todos desceram no ponto final, cerca de 30 minutos depois, Wheskleysson inclusive. Morrendo de dor de cabeça. 

FIM



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