quinta-feira, 27 de março de 2014

50 anos: No golpe de 64 civis não tinham vez, Por Jasson de Oliveira Andrade





No dia 1º de abril, o Golpe de 64 completa 50 anos. Neste artigo pretendo analisar um fato pouco estudado pelos historiadores. Refiro-me aos civis que lideraram o movimento. Eles foram punidos, visando evitar que os mesmos concorressem à Presidência da República, opondo aos militares. Todos, sem exceção, tiveram seus direitos políticos suspensos por 10 anos: Adhemar de Barros, ex-governador de São Paulo; Juscelino. Ex-Presidente e Carlos Lacerda, ex-governador da Guanabara ( Rio ). Os dois últimos ainda foram presos. Outra vítima do Golpe: Pedro Aleixo, prócer da UDN ( União Democrática Nacional ) de Minas Gerais e que fora eleito Vice-Presidente da República de Costa e Silva. Ele também foi preso. Crime cometido: ocupar esse cargo após o Impedimento do presidente, acometido de AVC ( derrame ).

Em 1964, Adhemar de Barros era governador de São Paulo. Ele foi um dos principais líderes civis do Golpe, tendo organizado a histórica “Marcha da Família, Com Deus, pela Liberdade”, a qual, segundo alguns historiadores, foi a responsável pelo movimento, tornando-o popular e incentivando o general Carlos Luís Guedes e o general Mourão Filho a iniciarem o Golpe. Sem a Marcha, isto não seria possível. Agora, em 22/3/2014, extremistas de direita comemoraram os 50 anos dela, mas fracassaram. O Estadão, na reportagem do jornalista Roldão Arruda, “Manifestações pró-golpe têm baixa adesão”, noticiou: “A tentativa de se reeditar em São Paulo a histórica Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu meio milhão (sic) de pessoas em 19 de março de 1964 e antecipou o golpe militar, não teve sucesso. Segundo cálculo da Polícia Militar, em seu momento de maior concentração, a marcha reuniu 700 pessoas”.

  
Apesar dessa contribuição ao Golpe de 64, Adhemar de Barros teve seus direitos políticos suspensos por dez anos ( 1966 ). O ministro da Justiça da época, Mem de Sá, justificou a punição: “O sr. Ademar de Barros é conhecido em todo o Brasil e creio até fora do Brasil, como um corruptor e um corrupto”. No entanto, quando ele liderou a Marcha já tinha esse atributo. [ grifo do blog ] O motivo verdadeiro é que o ex-governador paulista, marginalizado pelo governo que ajudou a colocar no Poder, aderiu ao MDB (oposição) e iria enfrentar a ARENA ( governista ). Para não ser preso, Adhemar se exilou na França. Morreu em Paris em 12/3/1969.

Outro político eliminado pelos militares: o ex-presidente Juscelino Kubitschek, o JK. Ele foi o presidente mais popular do Brasil. O seu governo tornou-se conhecido como “cinqüenta anos em cinco” e também pela construção de Brasília, inaugurada em 21/4/1960, em homenagem à Inconfidência Mineira. JK, na época, era senador por Goiás. Como dominava o PSD ( Partido Social Democrático ), ele foi atraído pelo então candidato a Presidência Castelo Branco, o ajudando a se eleger, indiretamente. Mesmo assim, foi cassado e teve seus direitos políticos cassados por 10 anos, tendo mesmo sido preso. Posteriormente se exilou. O brasilianista Thomas Skidmore, norte-americano, no seu livro “Brasil: de Castelo a Tancredo”, na página 61, fez essa revelação: “A Embaixada americana, que apoiou com entusiasmo (sic) a Revolução [ Golpe ], advertiu o presidente [ Castelo Branco ] e a cúpula militar que o expurgo de Juscelino seria mal recebido pela opinião pública americana e européia”. Adiante constatou: “O ex-presidente [ JK ] sabia que seus inimigos estavam fechando o cerco em torno dele. Os militares da linha dura, que há muito queriam vê-lo punido, agora bombardeavam Castelo via ministro da Guerra Costa e Silva, acusando Juscelino de corrupção [não foi provada] e colaboração com os subversivos. Estas acusações eram uma espécie de mercadoria em depósito nas dispensas dos udenistas, sobretudo de Carlos Lacerda, que também aspirava à presidência e que, portanto, gostaria de ver seu concorrente expulso de campo”. Este foi realmente o motivo do expurgo de Juscelino: ele seria facilmente eleito em 1965, caso a eleição fosse realizada. Com o expurgo dele, a chance da eleição de Lacerda seria enorme. Mas o feitiço virou contra o feiticeiro.

Castelo Branco surpreendeu Lacerda. Ao invés de realizar a eleição de 1965, prorrogou seu próprio mandato. Lacerda, marginalizado, rompeu com os golpistas. Cony, em artigo na Folha (23/3/2014), afirmou: “Percebendo que não tomaria o poder, Lacerda passou a criticar com a violência costumeira o governo e o próprio Castello Branco [ que por sinal era lacerdista! ], associando-o aos “anjos da rua Conde Lage”, zona do baixo meretrício, garantindo que ele era mais feio por dentro do que por fora”. Em 1968, com o AI-5 ( Ato Institucional nº 5 ), Costa e Silva suspendeu seus direitos políticos por 10 anos, tendo mesmo sido preso. Mais uma vez, foi o feitiço contra o feiticeiro. De nada adiantou tirar Juscelino de campo! O maior líder civil do Golpe de 64, que sempre quis ser presidente e se tornou conhecido como o demolidor de Presidentes ( título do livro de Marina Gusmão de Mendonça ), morreu sem alcançar o seu intento. No especial 1964, a revista Veja ( Carlos Lacerda: A tragédia da vitória ), ironizou: “A ditadura (sic) havia definitivamente derrubado o “derrubador de governos”. ( Veja, 26/3/2014 ).

Se alguém ainda tem dúvida sobre o afastamento de civis, o caso de Pedro Aleixo confirma essa tendência dos militares. Como Vice-Presidente, teria que assumir o lugar do presidente Costa e Silva, afastado do governo por motivo de doença no dia 31/8/1969. Era da lei! No entanto, ele não tomou posse. O motivo: os ministros militares Aurélio de Lira Tavares, do Exército; Augusto Rademaker, da Marinha e Márcio de Souza Melo, da Aeronáutica, editaram o AI-12 ( Ato Institucional nº 12 ), oficializando a investidura de uma junta militar constituído pelos três. Além de não assumir ao cargo que fora eleito, Pedro Aleixo foi preso! Sem comentário. A Junta Militar se extinguiu com a posse do general Médici.

Como visto no Golpe de 64 os civis não tinham vez...

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu 
Março de 2014


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