sábado, 22 de fevereiro de 2014

Vanguarda descolada X Trabalho de massas



Publicado no Portal GGN

Há algum tempo vinha observando com algum descontentamento o rumo das manifestações, e o falecimento do cinegrafista da bandeirantes Santiago Ilídio Andrade é um triste marco na história dos protestos que começaram em junho do ano passado.

Para mim o início da discórdia se dá com o #NãoVaiTerCopa. Um movimento que, independente da boa vontade, das boas intenções e do possível desejo de melhoria para a sociedade de seus membros é, enquanto tópico, enquanto ideologia, enquanto pauta, um desastre absoluto.

Os estádios estão praticamente prontos, restando apenas dois serem finalizados ( ambos com previsão de término no final de abril ). O momento para se protestar contra a copa ser realizada aqui já passou, foi no momento em que o Brasil disputava a eleição da sede da copa, mas o que se viu no momento da escolha foi festa – tanto na copa quanto nas olimpíadas. E não é injusto cobrar que se protestasse à época, pois, por exemplo, na cidade de Chicago – que disputava a sede das olimpíadas e perdeu para o Rio de Janeiro – houve vários protestos durante a eleição, e isso pesou contra a cidade na escolha.

Ou seja, o dinheiro já foi gasto, e o Brasil poderia ter um bom retorno com os ganhos advindos do turismo, porém, com todo esse clima, a imprensa internacional começa a repercutir negativamente ( como não poderia deixar de ser ) a situação brasileira, e estamos perdendo uma boa fonte de renda que com certeza contribuiria em muito para a economia e para a própria diminuição das tensões socioeconômicas que contribuem para os protestos.

Já com relação aos gastos da copa em si, a desinformação é retumbante. Os gastos totais com a Copa são orçados em 26 bilhões de reais. Destes 26, apenas 8 bilhões tratam dos gastos em estádios. Os outros 18 bilhões foram/serão gastos em aeroportos, portos, segurança, mobilidade urbana, estruturas temporárias, telecomunicações e outros. Na verdade, o que me parece ruim é que grande parte deste dinheiro NÃO será investido. O governo gastará menos – mas isso ao custo de deixar de fazer obras necessárias, especialmente no que tange a mobilidade urbana.

Ou seja, tanto se bate com relação aos gastos em estádios, e ele não é sequer um terço do que é gasto para a Copa. Destes 18 bilhões, como apontado, a maior parte são investimentos que permanecerão contribuindo para o país depois do evento. ( A quem interessar possa, os gastos com a Copa estão estratificados aqui .)

Agora sobre os próprios 8 bilhões dos estádios. Metade desse valor na verdade é de financiamento, ou seja, o governo não esta investindo, mas emprestando para empreendedores privados. Portanto, o gasto efetivo do governo nos estádios é de cerca de 4 bilhões de reais.

Pode-se questionar a relevância destes gastos de 4 bilhões de reais em comparação com outros mais prementes, com certeza, mas em se considerando o retorno financeiro com turismo, o destaque internacional, o próprio conforto que os torcedores passaram a ter nos estádios, a geração de emprego e renda durante a construção das obras, a conta talvez não seja tão desfavorável.

Alguns pontuam como se, deixando os estádios de lado, conseguíssemos resolver os problemas da saúde e educação. Mas o orçamento da saúde e da educação do ano de 2013 foram, somados, cerca de 200 bilhões de reais – contra os 4 bilhões dos estádios... não esta aí a panaceia, é evidente.

E fica ainda mais revoltante ao saber que 42% do orçamento da união em 2013 ficaram por conta de juros e amortização da dívida pública. [ grifo do BFI  ]

Apenas para que se tenha noção, no mundo inteiro, somente dois países (Grécia e Líbano, ambos envoltos em crises gravíssimas) tiveram gastos com a dívida superiores ao Brasil no ano passado.

Se fosse para apontar apenas um gasto, com certeza a dívida seria a panaceia, este é o calo, este é o alvo, este é o sugador de sangue que, através do estado, retira riquezas da sociedade inteira para benefício de alguns poucos, via impostos – mas qual dos manifestantes esta disposto a bater neste tema? ( Pra não falar dos coxinhas, os imbecis úteis em seu eterno argumento contra a corrupção, como se fosse ela a responsável por não termos avançado tanto quanto podíamos enquanto nação - com certeza atrapalha bem, mas não foi e não é a causa principal ).

Mas não, de maneira energúmena, anti-ideológica, alguns manifestantes escolheram a copa como alvo. Sinceramente, não dá pra mim.

Como apoiar um movimento que, se tudo der errado e ele fracassar, a única coisa que conseguirá terá sido atrapalhar o setor de turismo? Ou, como apoiar um movimento que, se der certo, em última instância, a única coisa que conseguiria seria eleger qualquer herói dos coxinhas – possivelmente um Joaquim Barbosa da vida?

Se não enquanto desejo dos manifestantes, mas enquanto resultado, o “#NãoVaiTerCopa” pode culminar na nova “marcha com Deus pela família e liberdade”.

Voltando um pouco no tempo, lembremos de como começaram os protestos. Com uma qualidade de vida cada vez mais deteriorada nas cidades, que vão se tornando monstros insustentáveis ( trânsito, poluição, insegurança, etc. ), e vitaminados pela ampla repressão que o governo Alckmin (PSDB) havia feito em São Paulo, no protesto pelos 20 centavos, a massa então explodiu.

E no meio daquela comoção toda, houve a Copa das Confederações. Mesmo com protestos ocorrendo no dia dos jogos, o que pudemos ver do povo? Acompanhou e torceu ( e muito ) pela seleção – que, diga-se de passagem, arrebentou, especialmente na final.

Agora imagine no meio da Copa do Mundo, que já é um evento que normalmente magnetiza o povo – além do mais sendo aqui no Brasil. E os caras querem dizer que não haverá copa? É de uma ingenuidade de fazer corar. É lógico que haverá copa, lutar contra isto é remar contra a corrente, é desperdiçar energia que poderia ser canalizada em algo frutífero. Deve-se bater nos alvos que de fato obstam o desenvolvimento do povo brasileiro – e não em uma paixão nacional que é o futebol e seu evento maior que é a copa do mundo.

Esta infantilidade lembra quando, no auge da ditadura, em 1970, na terrível repressão do governo Médici, os revolucionários brasileiros combinaram de não torcer para a seleção canarinho. E como certa vez eu vi numa entrevista do José Genoino: “Não queríamos torcer, mas quando o negão ( Pelé ) pegava a bola, a ideologia ia por água abaixo”. É bem por aí. Ignorar como o futebol é um elemento característico da sociedade brasileira é ignorar o desejo do povo pelo qual se diz combater. Não dá, não vejo este caminho como salutar.

Ademais, diga-se de passagem, a copa do mundo é NO Brasil, não é DO Brasil.

Concomitantemente a isto, basta ver os comentários em qualquer portal de notícia, em múltiplos grupos do facebook, o debate contra a direita mais torpe, mais reacionária, mais anti-democrática possível, um combate que necessita ser travado, um trabalho de massas, de convencimento, de participação popular – e esta parcela da esquerda, justamente a mais combativa, a mais aguerrida, se perdendo em #NãoVaiTerCopa... pelo amor de Deus, é demais...

Há alvos preferenciais, os protestos – para se ater a pauta reformista do capitalismo – poderiam ser pela redução da jornada de trabalho para 40h semanais, ou o fim do fator previdenciário, ou os 10% do PIB para a Educação, ou o transporte público gratuito e de qualidade, ou a reforma agrária, ou o fim dos Leilões do petróleo e todo tipo de privatização, ou contra o PL 4330, sobre Terceirização, ou pela reforma política, ou pela democratização dos meios de comunicação, ou contra a repressão e a criminalização das lutas e dos movimentos sociais, ou pela punição dos malditos torturadores da ditadura, etc. Sobre a copa, sinceramente, não perco um minuto do meu tempo protestando. É uma pauta natimorta.

Com relação aos últimos acontecimentos, o que pude ver é uma diminuição da participação nas manifestações, que, por outro lado, ficaram mais agressivas, sem uma ideologia consistente, apenas mais hostis. Mesmo que a maioria dos manifestantes tenha seguido uma postura coerente, cada vez mais acontecimentos equivocados têm tomado conta dos protestos.

Para mim o marco foi a queima do fusca, no Rio de Janeiro. Os manifestantes podem não ter percebido o gravíssimo risco do que fizeram, mas ali poderia ter mudado a forma como a sociedade brasileira avalia todas as manifestações, tanto as passadas, quanto as atuais e futuras.

Eram os cadáveres perfeitos para a direita:

1 – Pra começar, era uma família.

2 – Em segundo lugar, eram pessoas humildes, simples, estavam dentro de um fusca.

3 – Em terceiro lugar, voltavam da igreja.

4 – Em quarto lugar, teriam morrido queimados – uma morte que é trágica e visualmente muito chocante.

Afora o aspecto humano – que pra mim é o essencial, era a vida de uma família que estava em jogo –, mesmo se o manifestante pensar apenas no sentido tático-estratégico, sua ação foi um desastre, um desastre completo, que poderia ter posto tudo a perder, qualquer causa que ele defende e julga nobre teria ido por água abaixo com sua ação equivocada.

A coisa segue nestes termos e, mais recentemente, ocorre a morte do cinegrafista da bandeirantes Santiago Ilídio Andrade. Infelizmente, a imagem é clara, uma pessoa coloca o rojão próximo do cinegrafista, ele estava de costas, trabalhando, e infelizmente é atingido de maneira fatal. Pra quem sabe o que é dolo eventual, esta claro que ele foi assassinado. É evidente que o manifestante não queria matá-lo, um pobre coitado que não tem onde cair morto, uma vítima do sistema, mas o fez, é um fato, há filmagem, há foto, o que mais dizer?

Dá pra apoiar algo assim? Eu não sou sectário para – mesmo apoiando de maneira genérica protestos que visam a melhoria do povo – apoiar ações que atentem contra este próprio povo. Infelizmente perderam a mão, e o ridículo projeto de lei que tipifica como ato terrorista os protestos pode acabar sendo aprovado por conta deste erro.

É o momento de repensar a ação, a tática, e especialmente a ideologia.

Na minha singela opinião, o caminho passa por um movimento de massas, lutando por objetivos claros, fundamentado na tentativa de convencimento diária dos que estão ao seu redor.

Ação de vanguarda completamente descolada da massa que pretende representar só fracassou ao longo da história e pode ainda contribuir para o avanço da direita mais despudorada possível.

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