sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Racionamento: a publicidade da SABESP que o PSDB não quer




Por Enio Tatto

Em 2010, o então governador de São Paulo, José Serra, ambicionava se candidatar à presidência da República. À época, com recursos do Estado, contratou agência de publicidade para propagandear a Companhia de Saneamento Básico – Sabesp em outros estados do Brasil. Só a TV Globo recebeu mais de R$ 7 milhões com inserções que divulgavam, por exemplo, obras da companhia na Baixada Santista. O flagrante desinteresse público dessa iniciativa levou, inclusive, a Justiça Eleitoral a abrir uma investigação.

Esse episódio chama mais uma vez a nossa atenção à medida que fica evidente o descaso do atual governo estadual diante da grave crise de abastecimento de água que enfrentamos. Se as quase duas décadas de gestão tucana em São Paulo foram eficazes na publicidade, estão deixando um legado de sucateamento dos serviços públicos que, lamentavelmente, tem nas áreas de transportes, saúde, segurança, educação e saneamento seus exemplos mais visíveis.

Propagandear a Sabesp fora de São Paulo foi providência tomada com rapidez, mas o combate à escassez de água sem precedentes que vivemos está sendo tratado de modo irresponsável, apesar de recomendação dos Ministérios Públicos Estadual e Federal e de alertas de engenheiros e especialistas que atuam na área.

Com receio de ver sua campanha eleitoral prejudicada, Geraldo Alckmin optou por negar o problema. Em vez de adotar um racionamento preventivo, o governo decidiu manter a retirada diária de um volume de água do sistema Cantareira, o principal para o abastecimento de água da Região Metropolitana, quase três vezes superior àquele que o sistema recebe. Faz isso quando o Cantareira tem o seu pior nível desde 1974 e contrariamente a recomendações do Ministério Público Estadual e do Ministério Público Federal que solicitaram aos órgãos gestores dos Sistemas de Recursos Hídricos do Estado de São Paulo a adoção de medidas para evitar o colapso do suprimento de água no Estado.

Geraldo Alckmin também contraria a avaliação de especialistas. Em entrevista recente a órgãos de imprensa, o presidente do Conselho Mundial da Água e professor de Engenharia Civil e Ambiental da Escola Politécnica (Poli) da USP, Benedito Braga, maior autoridade brasileira na questão dos recursos hídricos e do abastecimento de água, disse estar muito preocupado com a situação do sistema Cantareira. Segundo Braga, a situação é “gravíssima” e um racionamento de água é “iminente” e pode começar a qualquer momento em São Paulo. Além disso, critica a lentidão da Sabesp na resposta à crise e lembra que embora em 2003 já houvesse a previsão de que obras seriam necessárias para garantir a segurança hídrica na Região Metropolitana de São Paulo, medidas não foram implementadas para que a infraestrutura acompanhasse o crescimento da demanda.

O chefe do Poder Executivo de nosso Estado, entretanto, descarta recorrentemente qualquer possibilidade de racionamento. Apesar dessa insistência, Alckmin deixa uma brecha para, em caso de necessidade, contradizer seu discurso. “Se tivermos uma boa colaboração da população e uso racional da água, espero que não haja problemas”, diz o governador, revelando a intenção de transferir ao consumidor a responsabilidade por sua inação.

Os tucanos paulistas, que não economizam na propaganda de seus governos, agora temem a publicidade que a escassez de água possa lhes trazer. Esperemos que não haja o colapso do sistema, mas se isso acontecer, é bem possível que Alckmin, em vez de reconhecer sua má política, coloque toda a culpa no comportamento da população.

* Enio Tatto é deputado estadual (PT) e 1º secretário da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).

( Publicado no jornal de bairro FOLHA DA VILA PRUDENTE )

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