terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

CASO CELSO DANIEL: Tuminha constrói enredo sem pé nem cabeça para explicar crime, Por Daniel Lima



Nesta nova análise do caso Celso Daniel do livro “Assassinato de Reputações” do ex-delegado Romeu Tuma Júnior, o mínimo que se pode afirmar é que a narrativa é uma mistureba de insensatez, contradição e incongruências. Tuminha é tão confuso ao tentar ordenar informações que os mais espiritualistas poderiam afirmar que em outra encarnação provavelmente ele tentou produziu chanchadas, mas não passou pelo crivo dos produtores que consagraram o gênero. Ou seja: estaria o espírito cinematográfico de Tuminha a gerar informações policiais que, ao pegar carona num jornalista de primeira linha, como é Claudio Tognolli, que transcreveu as declarações, ganham certo foro de realidade plausível.

Quem conhece o caso Celso Daniel entretanto, investigado por diferentes forças policiais, sabe que Tuminha preparou um mal-ajambrado sarapatel a provocar indigestão em quem ousar lhe dar crédito. Por isso o crime é uma mancha de desconfiança e desconforto no conjunto do livro “Assassinato de Reputações”.

Reproduzo abaixo todos os parágrafos diretamente relacionados ao pensamento nuclear de Romeu Tuma Júnior exposto a Cláudio Tognolli sobre o assassinato do prefeito Celso Daniel. O delegado opôs-se ao que as forças policiais do governo do Estado de São Paulo e do governo federal, à época, enfatizaram solenemente: não existiram jamais quaisquer indícios de que o então prefeito foi assassinado por conta de alguma irregularidade na gestão da Prefeitura de Santo André. 

Os trechos pinçados do livro sobre as supostas razões do assassinato não passaram por edição. A transposição foi automática. A confrontação do que consta do livro e do que está neste artigo encontrará fidelidade absoluta. Foram utilizados apenas os trechos específicos da interpretação de Tuminha sobre o crime.

Consultei várias vezes as mesmas páginas, assinalei cuidadosamente todos os trechos em questão e cheguei à seguinte conclusão: o que se coloca à disposição dos leitores é algo tão confuso que somente quem conhece muito bem o assunto conseguirá destrinchar o pensamento do narrador. Para má sorte do narrador, diga-se de passagem. A tese de que Celso Daniel teria sido sequestrado e morto por causa de questões político-administrativas chega às raias do contrassenso. Os eventuais autores intelectuais do crime poderiam ser empresários de transporte coletivo que não gozavam de prestígio junto ao prefeito de Santo André -- não exatamente Ronan Maria Pinto e mesmo o supersecretário Klinger Sousa, que, como enfatiza Tuminha, eram amigos ou muito próximo de Celso Daniel.

Vejam os trechos que selecionamos e, na sequência, os comentários para cada um dos tópicos:

Romeu Tuma Júnior -- Tudo indica que Celso Daniel morreu porque o achaque do PT contra os empresários de Santo André começou a aumentar. Os empresários não aguentavam pagar essa sobretaxa. Celso Daniel ficou no meio e sobrou para ele. Tenho razões para crer que os caras sequestraram o Celso Daniel para lhe dar um susto. Pagariam depois o resgate e lhe esfregariam na cara o seguinte bordão: “Salvamos você, você deve moralmente sua vida a nós, então tire o PT da nossa bota, não queremos mais sobretaxa. Leve o recado porque você nos deve a vida”.

CapitalSocial – Quando afirma que os empresários não aguentavam mais os achaques e que por isso reagiram, a lógica é que os autores do sequestro não foram jamais nominados ou especulados como eventuais mandantes já que Ronan Maria Pinto, contra quem o Ministério Público lançou série de ofensivas, estaria, segundo o mesmo MP, aliado a Celso Daniel na suposta rede de propinas. A tese de que o sequestro seria apenas uma forma de assustar Celso Daniel é um disparate.

Romeu Tuma Júnior -- Quem executava não sabia quem havia planejado. Com qual objetivo? Provavelmente assustar o Celso Daniel. Este iria coordenar a campanha o Lula e queria limpar a área, parar com o “esquema” (de desvio para o bom do pessoal envolvido com a propina não institucionalizada ou não partidarizada: tudo deveria ir para o partido) para que nada estourasse durante a eleição. Algo como aparar arestas, manter a casa em ordem, não permitir qualquer alteração, inclusive na prefeitura; ninguém deveria se candidatar para não atrapalhar e não degringolar o esquema. Os caras do esquema não concordaram e armaram o sequestro.

CapitalSocial – Tudo que está escrito é muito confuso. Como pode alguém querer limpar a área, na expressão de Tuminha, e, paralelamente, não permitir alterações, supostamente proibindo candidaturas que poderiam atrapalhar e degringolar o esquema? Ora, se Celso Daniel pretendia mesmo alterar as supostas regras do jogo, não seria mais lógico que trocasse os jogadores, em vez de mantê-los, já que a suposta rede de propinas estaria, segundo o Ministério Público, incrustrada na gestão do petista? 

Romeu Tuma Júnior -- Oficialmente, falam em seis pessoas ligadas à morte de Celso Daniel que morreram de forma suspeita ou por assassinato. Mas teve muito mais.

CapitalSocial – Tudo não passa de fantasia do narrador, que contraria frontalmente as investigações policiais e também do Ministério Público.

Romeu Tuma Júnior -- A minha tese do assassinato é clara: a quadrilha que executou era diferente daquela que planejou. A ligação entre as duas era do Dionísio. Acho que o objetivo era dar um susto no Celso Daniel, mas a coisa saiu do controle. Não sei se a briga era para parar o “desvio do desvio”, ou “roubo do roubo” do dinheiro, ou se queriam mais recursos para a campanha. Mas tenho uma forte convicção de que o homicídio do prefeito foi acidente de percurso. Não tinha sido planejado, premeditadamente, por quem planejou o sequestro. Não podemos, entretanto, deixar de registrar que quem planejou assumiu o risco do resultado. Temos duas razões bem claras para cravar isso, primeiro que, para matar o prefeito, bastava ter atirado nele na hora da abordagem inicial; e se o Sombra não estivesse envolvido ele também seria morto ali. Segundo: como a motivação do crime, no meu entendimento, era uma disputa político-administrativa que visava dinheiro, ninguém seria insano de matar a “galinha dos ovos de ouro” e o dono da granja lá em Brasília, anos depois.

CapitalSocial – Tuminha flutua na dúvida de quem especula ao dizer que “não sei se a briga era para parar o desvio do desvio ou roubo do roubo do dinheiro ou se queriam mais recursos para a campanha.” Como acreditar num delegado que, mesmo com todos os cuidados de edição de um livro, deixa escapar a essência de seu desempenho no caso, ou seja, a fragilidade de argumentos? Quanto a “matar a galinha dos ovos de ouro” é a melhor resposta à improcedência da narrativa de Tuminha, sempre considerando a existência de corrupção na gestão de Celso Daniel. Afinal, quem mataria mesmo a galinha dos ovos de ouro, entre aqueles que gozavam da proximidade com o prefeito, quando a perspectiva, como bem definiu o delegado, era de grandes saltos no governo federal? O Dionísio citado por Romeu Tuma Júnior é Dionísio Severo Aquino, que merecerá um capítulo especial.

Romeu Tuma Júnior -- O Sombra acabou sozinho nessa história. Pagou o pato. Ele poderia se valer da delação premiada, seria o único caminho. Por trás de tudo estão empresas de lixo, de ônibus. A empregada do Celso Daniel disse, em depoimento, que juntava na casa dele sacolas de dinheiro miúdo. Segundo ela, o dinheiro ficava escondido na lavanderia. E quem era dono de empresa de transporte? O Ronan Maria Pinto, que, aliás, usava o CPF do Sérgio Sombra para abrir empresas no Nordeste e participar de licitações. Isso foi até noticiado num jornal.

CapitalSocial – “Sombra”, no caso, é um apelido inventado para estigmatizar Sérgio Gomes da Silva, muito próximo de Celso Daniel. Apenas um círculo de amigos tratava Sérgio por Sombra, como em tantas outras situações de pessoas sempre ao lado de autoridades públicas. As supostas declarações da empregada de Celso Daniel servem para, caso verdadeiras, estabelecer um elo de convivência mais que amigável entre o prefeito e fornecedores de serviços da Prefeitura, em vez de antagonizá-los. Mais que isso: Celso Daniel estaria muito intimamente ligado ao empresariado de ônibus para, justamente na largada da eleição mais importante da história do PT, de Lula da Silva à presidência da República, romper com um suposto esquema de arrecadação paralela.

Romeu Tuma Júnior -- O Celso Daniel iria ser figura central na campanha do Lula, cotado para chefe da Casa Civil de um eventual governo petista, sem dúvida. Ele seria o homem forte da campanha e do governo. Havia inclusive uma dúvida se ele sairia candidato a senador, além de coordenador financeiro da campanha, ou se só se dedicaria a essa última tarefa. Se não fosse a morte dele, o Palocci e o Gilberto Carvalho não teriam chegado aonde chegaram. Tem outro detalhe: nos casos de extorsão mediante sequestro, as quadrilhas costumam ser pequenas. Quanto menos gente, melhor a segurança. Não foi assim no caso Celso Daniel. Só em Embu a polícia prendeu mais de 15 indivíduos, e outros 10 ou 15 na favela Pantanal, fora os demais suspeitos. Quase 50 pessoas para participar de um crime de oportunidade? Tem algo errado aí.

CapitalSocial – Celso Daniel não seria candidato a senador nas eleições de 2002. Além de coordenador-geral da campanha de Lula da Silva à Presidência da República, ele se cacifaria para assumir a pasta de Planejamento do governo federal. Quanto às investigações policiais que concluíram por crime de oportunidade e o número de suspeitos citados por Tuminha, a explicação é simples: como delegado aposentado, Tuminha sabe que para efetivar a prisão de um número mesmo que restrito de criminosos é indispensável investigar a fundo, deter suspeitos e, aí sim, chegar às conclusões pertinentes.

Romeu Tuma Júnior -- O certo no caso do Celso Daniel, na minha opinião, é que se tratava de um sequestro com resgate fictício, por questões financeiras derivadas da atuação político-administrativa dele e dos idealizadores mandantes, mas que deu errado na execução e tiveram que matá-lo Quando digo questões financeiras é de dinheiro mesmo que estou falando, cuja arrecadação espúria não queriam diminuir.

CapitalSocial – Um sequestro encenado que não deu certo é uma tese de muitos observadores. Nada que surpreenda, porque outras teses sobre tantos outros pontos das investigações proliferaram informalmente. Esse é o roteiro comum de crime envolvendo gente famosa.

Romeu Tuma Júnior -- O Celso era um cara que tinha um esquema montado, institucionalizado pelo partido, então os desvios de recursos da prefeitura de Santo André eram canalizados para o partido. O próprio Gilberto Carvalho me confessou isso no dia do meu sincericídio. Eis que eu acho que aconteceu: o Celso, alguns assessores, o secretário, haviam tido algumas brigas, porque, quando ele foi convidado pelo Lula para ser o coordenador de campanha, o chefe do financeiro, ele sairia candidato a senador. Ficou uma dúvida se ele sairia ou não, pois achavam que se ele se dedicasse a uma campanha de senador poderia atrapalhar na arrecadação e na articulação, na coordenação da campanha. Nisso, algumas pessoas ligadas a esse grupo mais fechado dele, como o Ronan Maria Pinto e o Klinger, por exemplo, que queria ser candidato a deputado na época. Ele já avisara que seria o candidato a prefeito na próxima eleição. E houve então um grande desentendimento com o Celso, que fez uma reunião com o pessoal mais próximo. Celso falou que “proibia” qualquer um deles de se candidatar a qualquer cargo naquela eleição – para prefeito muito menos, porque ele iria lançar um sucessor – e que não era um momento oportuno de se falar no assunto. Mas naquela eleição ninguém era candidato, porque ele, Celso Daniel, não queria que mexessem em nada que estava funcionando. Caso alterassem algo, referia Celso Daniel, poderiam atrapalhar o esquema que já funcionava na Prefeitura, e assim afetar a campanha presidencial do partido. Aí rolavam muitas brigas relatadas por várias pessoas. Para nós isso chegou como notícia, como informação, como depoimento. O que a gente tem de concreto nisso é que eles tinham um esquema de arrecadação pró-partido, e nesse esquema estava havendo desvio para o bolso das pessoas, desses empresários e deles também. Como o achaque começou a crescer, isso se avolumou muito. Eles devem ter aumentado o valor por causa da campanha, pois sempre ficavam sem fôlego no segundo turno. Nós não conseguimos saber os valores exatos, eu não consegui prosseguir com a investigação; creio que o Ministério Público tenha isso no papel. Era uma arrecadação em torno de 20 mil reais e teria passado para 40 mil, mais ou menos. A cobrança maior era em cima dos empresários de ônibus e do esquema do lixo. Essa “contribuição” era a propina mensal que os empresários de transporte coletivo e da coleta de lixo tinham que dar à prefeitura. O que acontece nesse momento? Concebe-se um plano de sequestro para pôr limites ao esquema ganancioso e desenfreado, que parecia estar afastando os antigos “aliados” da roubalheira em prol de um projeto de poucas pessoas, somado a um outro político-partidário.

CapitalSocial – A impressão é que Tuminha reuniu o que tinha à disposição nos bastidores do crime para preparar argumentação mais que batida que justificasse a morte de Celso Daniel em circunstâncias diversas das apuradas por forças policiais, ou seja, sem qualquer envolvimento com a administração da Prefeitura de Santo André. A informação sobre a candidatura de Klinger Sousa já foi esclarecida neste estudo. A tolice de afirmar que se concebeu um plano de sequestro “para por limites ao esquema ganancioso e desenfreado, que parecia estar afastando os antigos aliados da roubalheira por um projeto de poucas pessoas, somado a um outro político-partidário”, conforme Tuminha, é pouco racional. Afinal, o que mais temem os agentes públicos e empresariais que giram em torno dos mandatários políticos é que as luzes dos holofotes da mídia se dirijam a eles. Um sequestro de araque para dar um susto no prefeito atrairia a atenção da mídia e abriria comportas à possibilidade de exposição dos supostos desvios financeiros. Um suposto sequestro encenado não teria sido levado a público numa rua de intensa movimentação. Teria sido algo muito discreto, rapidíssimo, sem qualquer estardalhaço, porque o que interessaria mesmo seria o resultado final: que o prefeito sentisse na pele o erro de supostamente romper um esquema.


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