sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Manifesto camponês apoia Maduro e propõe avanços rumo à autosuficiência alimentar



“Aqui viemos de todos os cantos da Venezuela, atravessando os rios, os lagos, os caminhos, as montanhas. Todos os camponeses viemos a Caracas para demonstrar que esta Pátria deve ser respeitada”, afirmou Luis Hernández, porta-voz do Movimento Camponês, desde o Palácio presidencial de Miraflores, onde dezenas de milhares de pessoas, convocadas por um conjunto de entidades de todos os estados, se reuniram para defender o país e seu governo “frente a todos os ataques que empreendam setores da direita e seus mentores, forças estrangeiras”. 

“Deploramos a guerra econômica. Deploramos o imperialismo. Declaramos-nos antiimperialistas. Encontrar-nos-ão no terreno que seja. Aqui estamos para defender a Pátria de Bolívar. Somos pacíficos, amamos a paz, mas estamos dispostos a defender com as unhas a nossa Pátria. Que não se enganem!”, frisou Hernández, expressando a decisão do movimento social organizado de manter a ofensiva contra os partidos e grupos financiados pelos Estados Unidos, na tentativa de criar o caos no país e promover um golpe de Estado. Assegurou, também, que o povo do campo unido redobrará a luta pelas terras, contra o latifúndio e para garantir a soberania alimentar.

Mostrando o aprofundamento da disposição da população, Ángela Carrizales, do movimento camponês do estado de Yaracuy, expressou que não permitirão “que os impérios nos invadam. Aqui estamos nós, pé no chão. É um mandato de nosso comandante Chávez”. “Estamos trazendo nosso apoio ao presidente Nicolás Maduro, cumprindo uma vez mais com o legado que nos deixou nosso comandante Hugo Chávez, impulsionando desde nossas comunas, nossos conselhos comunais e movimentos a produção agrícola”, disse.

Durante a atividade, o Movimento Camponês entregou ao presidente da República o Manifesto Camponês, em que se detalham as estratégias para garantir a produção dos itens necessários para garantir o auto-abastecimento alimentar, e combater a guerra econômica que provocam os setores reacionários contra a população.

“Pretendem as oligarquias do mundo torcer o braço ao povo venezuelano. Saibam que nosso braço é de aço e eles não vão nos derrotar. Estamos orgulhosos de ser o que somos”, sublinhou o chefe de Estado durante a concentração. O presidente lembrou que durante os últimos dias o povo tem visitado dia após dia a Casa Presidencial, o que qualificou como “uma ofensiva muito poderosa” do Poder Popular. “Isso tem sido uma ofensiva muito poderosa de mobilização do povo, de todos os movimentos sociais em todo o país, cada dia mais organizados, e todos quiseram vir ratificar seu juramento com Chávez e com a Pátria. Vocês não têm que pedir permissão para vir à Casa do Povo, à casa dos operários, dos trabalhadores, dos estudantes, da classe média positiva do país, dos camponeses, esta é a casa de todos e de todas”, sublinhou, acrescentando que “aqui estão os recursos para produzir. Não percamos nem um só dia companheiros ministros e presidentes das instituições criadas pela Revolução”.


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Racionamento: a publicidade da SABESP que o PSDB não quer




Por Enio Tatto

Em 2010, o então governador de São Paulo, José Serra, ambicionava se candidatar à presidência da República. À época, com recursos do Estado, contratou agência de publicidade para propagandear a Companhia de Saneamento Básico – Sabesp em outros estados do Brasil. Só a TV Globo recebeu mais de R$ 7 milhões com inserções que divulgavam, por exemplo, obras da companhia na Baixada Santista. O flagrante desinteresse público dessa iniciativa levou, inclusive, a Justiça Eleitoral a abrir uma investigação.

Esse episódio chama mais uma vez a nossa atenção à medida que fica evidente o descaso do atual governo estadual diante da grave crise de abastecimento de água que enfrentamos. Se as quase duas décadas de gestão tucana em São Paulo foram eficazes na publicidade, estão deixando um legado de sucateamento dos serviços públicos que, lamentavelmente, tem nas áreas de transportes, saúde, segurança, educação e saneamento seus exemplos mais visíveis.

Propagandear a Sabesp fora de São Paulo foi providência tomada com rapidez, mas o combate à escassez de água sem precedentes que vivemos está sendo tratado de modo irresponsável, apesar de recomendação dos Ministérios Públicos Estadual e Federal e de alertas de engenheiros e especialistas que atuam na área.

Com receio de ver sua campanha eleitoral prejudicada, Geraldo Alckmin optou por negar o problema. Em vez de adotar um racionamento preventivo, o governo decidiu manter a retirada diária de um volume de água do sistema Cantareira, o principal para o abastecimento de água da Região Metropolitana, quase três vezes superior àquele que o sistema recebe. Faz isso quando o Cantareira tem o seu pior nível desde 1974 e contrariamente a recomendações do Ministério Público Estadual e do Ministério Público Federal que solicitaram aos órgãos gestores dos Sistemas de Recursos Hídricos do Estado de São Paulo a adoção de medidas para evitar o colapso do suprimento de água no Estado.

Geraldo Alckmin também contraria a avaliação de especialistas. Em entrevista recente a órgãos de imprensa, o presidente do Conselho Mundial da Água e professor de Engenharia Civil e Ambiental da Escola Politécnica (Poli) da USP, Benedito Braga, maior autoridade brasileira na questão dos recursos hídricos e do abastecimento de água, disse estar muito preocupado com a situação do sistema Cantareira. Segundo Braga, a situação é “gravíssima” e um racionamento de água é “iminente” e pode começar a qualquer momento em São Paulo. Além disso, critica a lentidão da Sabesp na resposta à crise e lembra que embora em 2003 já houvesse a previsão de que obras seriam necessárias para garantir a segurança hídrica na Região Metropolitana de São Paulo, medidas não foram implementadas para que a infraestrutura acompanhasse o crescimento da demanda.

O chefe do Poder Executivo de nosso Estado, entretanto, descarta recorrentemente qualquer possibilidade de racionamento. Apesar dessa insistência, Alckmin deixa uma brecha para, em caso de necessidade, contradizer seu discurso. “Se tivermos uma boa colaboração da população e uso racional da água, espero que não haja problemas”, diz o governador, revelando a intenção de transferir ao consumidor a responsabilidade por sua inação.

Os tucanos paulistas, que não economizam na propaganda de seus governos, agora temem a publicidade que a escassez de água possa lhes trazer. Esperemos que não haja o colapso do sistema, mas se isso acontecer, é bem possível que Alckmin, em vez de reconhecer sua má política, coloque toda a culpa no comportamento da população.

* Enio Tatto é deputado estadual (PT) e 1º secretário da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).

( Publicado no jornal de bairro FOLHA DA VILA PRUDENTE )

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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Poderá Washington derrubar três governos ao mesmo tempo? por Thierry Meyssan



O poder de um Estado mede-se, ao mesmo tempo, tanto pela sua capacidade para se defender, como pela de atacar, numa ou em várias frentes. Nesta perspectiva, Washington tenta mostrar, pela primeira vez, que pode derrubar três governos simultaneamente, na Síria, na Ucrânia e na Venezuela. Se conseguir alcançar isso, nenhum governo estará em condições de ser capaz de lhe resistir.

Washington que, em 2011, falhou em conseguir bombardear, simultaneamente, a Líbia e a Síria, está em vias de tentar uma nova demonstração da sua força: organizar mudanças de regime, em três Estados de uma vez, em regiões diferentes do mundo: a Síria ( CentCom ), a Ucrânia ( EuCom ) e a Venezuela ( SouthCom ).

O poder de um Estado mede-se, ao mesmo tempo, tanto pela sua capacidade para se defender, como pela de atacar, numa ou em várias frentes. Nesta perspectiva, Washington tenta mostrar, pela primeira vez, que pode derrubar três governos simultaneamente, na Síria, na Ucrânia e na Venezuela. Se conseguir alcançar isso, nenhum governo estará em condições de ser capaz de lhe resistir .

Para o conseguir, o presidente Obama mobilizou quase toda a equipe do seu Conselho de segurança nacional.

Primeiro, a conselheira Susan Rice e a embaixatriz na ONU, Samantha Power. Estas duas mulheres são as campeãs do discurso «democrático». Elas fizeram disso uma das suas especialidades, desde há muitos anos, ao preconizar a ingerência nos assuntos internos dos outros Estados sob pretexto de prevenir genocídios. Mas, por trás desse discurso generoso, elas estão-se nas tintas para as vidas dos não- americanos, como o demonstrou a Sra Power aquando da crise das armas químicas de Ghoutta. A embaixatriz, que estava perfeitamente ciente da inocência das autoridades sírias, saiu de viagem, com o seu marido, para assistir na Europa a um festival de cinema consagrado a Charlie Chaplin, enquanto o seu governo denunciava um crime contra humanidade do qual tornava responsável o presidente el-Assad.

Depois, os três responsáveis regionais: Philip Gordon ( Próximo-Oriente e África do Norte ), Karen Donfried ( Europa e Euroásia ) e Ricardo Zuñiga ( América latina ). 

• Phil Gordon (amigo pessoal e tradutor de Nicolas Sarkozy) organizou a sabotagem da Conferência de paz de Genebra 2, enquanto o dossiê palestiniano não seja regulado à maneira dos EU. Durante a segunda sessão da conferência, enquanto John Kerry falava de paz, ele reunia, em Washington, os chefes dos serviços secretos jordanos, cataris, sauditas e turcos para preparar um enésimo ataque. Os conspiradores reuniram um exército de 13.000 homens, dos quais apenas 1.000 receberam uma breve formação militar, para conduzir blindados e tomar Damasco. O problema está em que a coluna arrisca ser destruída pelo exército sírio antes de chegar à capital. Mas, eles não conseguiram chegar a entendimento sobre o modo de a defender, sem distribuir armas anti-aéreas que pudessem, ulteriormente, ser usadas contra Israel. 

• Karen Donfried é uma ex-oficial do serviço nacional de inteligência para a Europa. Ela dirigiu durante muito tempo o German Marshall Fund (Fundo Marshall Alemão- ndT) em Berlim. Actualmente ela manipula a União europeia para mascarar o intervencionismo de Washington na Ucrânia. Apesar da fuga de uma conversa telefónica da embaixatriz Victoria Nuland, ela conseguiu fazer crer aos Europeus que a oposição em Kiev queria juntar-se a eles, e bater-se pela democracia. Ora, mais da metade dos revoltosos da praça Maidan são membros de partidos nazis, e arvoram os retratos do Colaboracionista Stepan Bandera. 

• Por fim Ricardo Zuñiga é o neto do presidente homónimo do Partido nacional das Honduras, que organizou os golpes-de-estado de 1963 e de 1972 a favor do general López Arellano. Ele dirigiu a agência da CIA em Havana, onde recrutava agentes e os financiava para formar a oposição a Fidel Castro. Ele mobilizou a extrema-esquerda trotskista venezuelana para derrubar o presidente Nicolas Maduro, rotulado de ser estalinista.

O conjunto das operações é mediatizado sob a batuta de Dan Rhodes. Este especialista da propaganda já escrevera a versão oficial do 11 de Setembro de 2001, redigindo o relatório da comissão de inquérito presidencial. Fê-lo de modo a fazer desaparecer qualquer traço do golpe de Estado militar, ( o poder foi retirado das mãos de George W. Bush cerca das 10h da manhã e só lhe foi restituído à noite; todos os membros do seu gabinete e os do Congresso foram metidos nos bunkers de segurança para «garantir a sua vida »), de maneira a que só ressalte a versão de atentado.

Nos três casos, o discurso Americano repousa sobre os mesmos princípios: acusar os governos de ter morto os seus próprios cidadãos, qualificar os opositores de «democráticos», lançar sanções contra os «matadores», e em definitivo realizar golpes de Estado.

A jogada começa, sempre, por uma manifestação no decurso da qual os oponentes pacíficos são mortos, e onde os dois campos se acusam das violências. Na realidade, as forças especiais dos E.U. ou da Otan colocadas sobre os telhados, atiram ao mesmo tempo sobre a multidão e sobre a polícia. Como foi o caso em Deraa (Síria) em 2011, em Kiev (Ucrânia), e em Caracas (Venezuela) esta semana. Por azar, as autópsias realizadas na Venezuela mostram que duas das vítimas, um opositor e um pró-governamental, foram mortos pela mesma arma.

Qualificar os opositores de democratas é um simples jogo de retórica. Na Síria, estes são takfiristas apoiados pela pior ditadura do planeta, a Arábia Saudita; na Ucrânia alguns pró-europeístas sinceros estão rodeados de inúmeros nazis; na Venezuela jovens trotskistas de boas famílias rodeados por milícias patronais. Por todo o lado aparece o falso oposicionista EU, John McCain, a trazer o seu apoio aos reais e falsos opositores locais.

O apoio aos opositores incumbe à National Endowment for Democracy ( Promoção Nacional para a Democracia-ndT ) ( NED ). Esta agência do governo americano apresenta-se, mentirosamente, como uma ONG financiada pelo Congresso. Mas, ela foi criada pelo presidente Ronald Reagan, em associação com o Canada, o Reino Unido e a Austrália. É dirigida pelo neo-conservador Carl Gershman e pela filha do general Alexander Haig (antigo comandante-supremo da Otan, depois secretário de Estado), Barbara Haig. É a NED, ( na realidade o departamento de Estado ), quem emprega o senador da «oposição» John McCain.

A este dispositivo é preciso juntar o Albert Einstein Institute ( Instituto Albert Einstein-ndT ), uma «ONG» financiada pela Otan. Criada por Gene Sharp, formou agitadores profissionais a partir de duas bases, na Sérvia (Canvas) e no Catar ( Academy of change-Academia da mudança,nd T).

Em todos os casos Susan Rice e Samantha Power assumem ares ultrajados antes de parar as sanções —logo aliviadas pela União europeia—, quando são elas as comanditárias das desordens.

Resta conseguir finalizar os golpes de Estado. E, isto, ainda não está feito. Washington tenta, assim, mostrar ao mundo que é o mestre de sempre. Para estar ainda mais seguro de si, lançou as operações ucraniana e venezuelana durante os Jogos Olímpicos de Sochi. É certo que a Rússia não se mexerá, com medo de ver a sua festa estragada por atentados islamistas. Mas Sochi acaba este fim-de-semana. Será, agora, a vez de Moscovo de jogar.

Tradução 

Fonte 


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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Golpistas chamam FMI para pilhar a Ucrânia e seu povo




Senador McCain, que esteve em Kiev abraçando os nazistas, aconselhou o “novo governo” a “tomar duras e, às vezes, impopulares decisões” com a assistência do FMI, UE e EUA... além da CIA, claro

A Rússia acusou os EUA e a UE de fazerem fachada para o golpe fascista na Ucrânia e denunciou que o governo putchista instaurado no sábado (21) usa “métodos terroristas” contra os oponentes e virtualmente “proíbe o uso da língua russa inteiramente, encoraja a perseguição política, liquida partidos, fecha setores da mídia e remove as limitações à propaganda neonazi”. Moscou também denunciou o caráter anti-semita dos golpistas. Manifestantes na Crimeia e no sul e leste do país repudiaram o governo fascista. O Departamento de Estado e a União Europeia enviaram seus “hitmen” a Kiev para organizar a intervenção do FMI no país.

Depois de três meses de arruaças, incêndios e ocupação de prédios públicos e assassinatos encabeçados pelos nazistas do “Pravy Sektor” e do “Svoboda” em Kiev, em apoio aos laranjas pró-EUA, e com suporte e financiamento da CIA e de Berlim, não levou mais que algumas horas para ser rasgado o acordo que o presidente Yanukovich havia aceito na véspera, mediado por EUA e EU, para antecipação das eleições até dezembro, reforma constitucional até setembro com referendo, pacificação e constituição de um governo provisório de coalizão que teria inclusive poder sobre a polícia, e que havia sido assinado pela troika de “líderes oposicionistas”, e respectivos poodles de Obama, Merkel e Mussolini, “Yats”, “Klitsch” e Tyanabok.

Ao invés do acordo, o que entrou em vigor foi a retirada da polícia das ruas, a declaração, pelo exército, de que não se envolveria e cuidaria dos seus afazeres rotineiros, súbita mudança de lado de certo número de deputados do próprio partido do presidente, possivelmente após uma “gerência de personalidade” como a sugerida no famoso telefonema da subsecretária de Estado, Victoria Nuland, a renúncia, por carta, do presidente do parlamento, depois de ser espancado, enquanto os herdeiros de Stepan Bandeira, o infame SS assassino de judeus e comunistas na II Guerra Mundial, tornado “herói” nacional pelo governo de Bushshenko depois do golpe laranja de 2004, assumiam o controle da capital e de cidades no oeste do pais.

Foi nesse quadro que Yanukovich se retirou para a região do país, o sul e leste, onde seu partido tem a principal força em aliança com os comunistas. Em discurso na TV, ele condenou o “golpe de Estado”, reafirmou ser o “presidente legítimo” e que não pretendia deixar o país. Também comparou os acontecimentos com a tomada do poder por Hitler. Em Kiev, cercado por nazistas e black blocs, o “parlamento” em poucos minutos declarou “vaga” a presidência, violando a constituição, e escolheu um laranja para a “presidência em exercício”, Olexandr Turchynov, braço-direito da oligarca e milionária, Yulia Timoshenko. Chefes de polícia compareceram para o beija-mão. Rapidamente, foram “votadas” leis de exceção para perseguir os partidários de Yanukovich, os comunistas e a imprensa antifascista, e foi revogada lei que tornou o russo, falado por grande parcela da população, “segunda língua” do país.

Mais tarde, seria “decretada” a prisão de Yanukovich por “assassinato em massa” de “manifestantes pacíficos” – aquela gente boa que roubou 1.500 armas e 100.000 cartuchos de balas e disparou contra a polícia com fuzis, além de espancar, incendiar e depredar. Em várias cidades do oeste, estátuas de Lenin e uma ao “soldado soviético desconhecido” foram derrubadas por ensandecidos banderistas. Em Kiev, judeus passaram a temer por suas vidas e foram aconselhados por rabinos a permanecerem em casa, como registrado pelo jornal israelense “Haaretz”. No leste e sul da Ucrânia, manifestantes se levantaram contra o regime fascista, prometendo não se submeter. Os líderes regionais anunciaram que “estavam tomando todos os poderes em suas mãos” até que a ordem constitucional “seja garantida” em Kiev. Na Crimeia, uma multidão com bandeiras russas – é uma região autônoma originalmente russa que foi transferida à Ucrânia por Krushev – pediu proteção a Moscou.

Enquanto não há ainda uma declaração do presidente Vladimir Putin sobre a questão, o primeiro-ministro Dmitry Medvedev prontamente condenou o golpe, assinalando: “se você considerar como governo gente armada de Kalashnikov e de máscaras negras que estão vagando por Kiev, então será difícil para nós trabalhar com tal governo. Alguns dos nossos parceiros ocidentais pensam diferente, e os consideram as legítimas autoridades. Eu não sei que constituição, que leis eles estão lendo, mas me parece que isso é uma aberração ... algo que é essencialmente o resultado de um motim armado”. Antes, o chanceler russo Sergei Lavrov havia denunciado “os pogromistas e extremistas cujas ações constituem uma ameaça direta à soberania e ordem constitucional da Ucrânia”.

“HERÓIS” DA OLIGARCA

Ás 16h16, hora local, segundo a BBC, um banderista, agora parceiro de Timoshenko – e conhecido por ter pedido em 2010 à União Européia que revogasse sua condenação à transformação do nazista em “herói nacional” -, e “comandante da praça Maidan”, Andriy Parubiy, declarou: “o poder é nosso”. Mais tarde, foi a vez da recém libertada magnata, condenada por corrupção e abuso de poder, saudar os “heróis do dia”. Depois, o “presidente em exercício” Turchynov pediu às potências amigas US$ 35 bilhões, declarando que os cofres estavam vazios. Rapidamente a Casa Branca, Londres e o chanceler alemão acenaram com pronta ajuda .... através de um pacote do FMI.

Mas foi o boquirroto senador John McCain, que havia ido a Kiev abraçar os neonazistas e laranjas a serviço dos EUA, quem melhor expressou o que espera a Ucrânia. “O caminho da reforma será difícil mas se o novo governo ucraniano estiver preparado para tomar essas duras e, às vezes, impopulares decisões, irá precisar de significativa assistência do FMI e da União Européia”. Os EUA também deverão “estar prontos para providenciar assistência adicional”, acrescentou. Yanukovich tentou por duas vezes negociar com o FMI, mas recuou porque o monstrengo queria aumentar o preço do gás em 40%, cortar salários e aposentadorias e privatizar o que ainda restou. Caso se submeta, a sorte da Ucrânia será ainda mais infeliz do que o infortúnio atualmente vivido pelos gregos.
ANTONIO PIMENTA


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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Mensalão Tucano: PSDB abandona Azeredo, Por Jasson de Oliveira Andrade



O mensalão tucano, que a mídia, por motivos óbvios, denomina como “mineiro”, antecedeu o mensalão petista. Os fatos se referem à reeleição do então governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, em 1998. Segundo revela o Estadão, “a Procuradoria Geral da República denunciou em novembro de 2007 um esquema de desvio de recursos públicos (sic) na campanha à reeleição de Azeredo [hoje deputado federal] e disse que os fatos foram o “embrião” do mensalão federal. A denúncia motivou a abertura de três ações penais”. Agora, quase sete anos depois, o fato poderá ir a julgamento, quando os réus do mensalão petistas já foram julgados e condenados. Os dois casos são conhecidos também por “valérioduto”, visto que o ator principal é o Marcos Valério.

Em 8/2/2014, o Estadão noticiou: “O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu em parecer enviado ao Supremo Tribunal Federal que o deputado federal Eduardo Azeredo (PSDB-MG) seja condenado a uma pena de 22 anos de prisão por participação no chamado mensalão mineiro [na verdade, mensalão tucano]. Nas alegações finais entregues nesta semana ao Supremo, o chefe do Ministério Público Federal afirmou que Azeredo, ex-presidente nacional do PSDB [atualmente o presidente nacional é o senador Aécio Neves], cometeu os crimes de peculato e lavagem de dinheiro”.

O surpreendente é que o PSDB abandonou o deputado Azeredo à sua própria sorte. João Domingos, em reportagem no Estadão (12/2), sob o título “Cúpula do PSDB faz pressão por silêncio (sic) de Azeredo”, revelou: “A cúpula do PSDB pressiona o ex-governador de Minas Gerais, ex-senador, ex-presidente do partido e atual deputado federal Eduardo Azeredo (MG), para que ele fique recluso e evite falar (sic) sobre o mensalão mineiro [tucano], que deve ser julgado neste ano pelo Supremo Tribunal Federal. (...) Os tucanos avaliam que ficar insistindo no assunto serve apenas para manter o mensalão mineiro [tucano] nas manchetes dos jornais e nas redes sociais’. Já a Folha de 14/2/2014, na reportagem “Tucanos dizem que Azeredo pode pedir licença ou renunciar”, faz essa surpreendente revelação: “Integrantes do PSDB dizem que o deputado federal Eduardo Azeredo (PSDB-MG) pode pedir licença da Câmara para evitar novos desgastes à sua imagem, ao partido (sic) e sobretudo à campanha presidencial do tucano Aécio Neves (sic)”. Adiante o jornal noticia: “Para eles [tucanos], afastamento [licença ou renúncia] reduziria exposição do caso na mídia e evitaria novos desgastes”. 

Outro fato que está preocupando a cúpula do PSDB: a ausência do governador Geraldo Alckmin na visita de Aécio a várias cidades paulistas. O Estadão de 9 de fevereiro, na reportagem dos jornalistas Pedro Venceslau e Ricardo Chapola (“Alckmin deixa Aécio sozinho em São Paulo”), revela que essa ausência é estratégica. Os jornalistas constaram: “Tucanos paulistas lembram que Aécio deu um apoio tímido a Alckmin quando ele disputou a Presidência, em 2006, e ainda estimulou a dobradinha que ficou conhecida como “Lulécio”, quando os eleitores votavam no petista para presidente e em Aécio para governador”. Outra constatação mostra qual é a estratégia de Alckmin: “Tucanos ligados ao governador paulista afirmam que a distância de Alckmin da “caminhada” de Aécio é estratégica para valorizar (sic) o que, dizem, será uma entrada triunfal (sic) do governador na campanha presidencial. A data seria o dia 22 de março, quando Aécio fará o lançamento oficioso de sua candidatura”. A conferir.

O mensalão tucano e a ausência de Alckmin nas visitas de Aécio são dois problemas para o tucanato. Será que o PSDB conseguirá contorná-los. Teremos mesmo a licença ou a renúncia do deputado Azeredo? A ver!

EM TEMPO: O deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG), réu no mensalão tucano, renunciou, em 19/2, ao mandato na Câmara. Com este ato, ele atende à pressão do PSDB e poderá ficar sem condenação (a Procuradoria pediu a pena de 22 anos). Com a renúncia, a ação penal no Supremo provavelmente descerá para a primeira instância. Com isso, os crimes poderão prescrever. A não ser que o Supremo decida que o processo continue no STF, contrariando decisões anteriores. Vamos aguardar o desdobramento da renúncia. Ainda poderemos ter surpresas ou não...

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu 
Fevereiro de 2014

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sábado, 22 de fevereiro de 2014

Vanguarda descolada X Trabalho de massas



Publicado no Portal GGN

Há algum tempo vinha observando com algum descontentamento o rumo das manifestações, e o falecimento do cinegrafista da bandeirantes Santiago Ilídio Andrade é um triste marco na história dos protestos que começaram em junho do ano passado.

Para mim o início da discórdia se dá com o #NãoVaiTerCopa. Um movimento que, independente da boa vontade, das boas intenções e do possível desejo de melhoria para a sociedade de seus membros é, enquanto tópico, enquanto ideologia, enquanto pauta, um desastre absoluto.

Os estádios estão praticamente prontos, restando apenas dois serem finalizados ( ambos com previsão de término no final de abril ). O momento para se protestar contra a copa ser realizada aqui já passou, foi no momento em que o Brasil disputava a eleição da sede da copa, mas o que se viu no momento da escolha foi festa – tanto na copa quanto nas olimpíadas. E não é injusto cobrar que se protestasse à época, pois, por exemplo, na cidade de Chicago – que disputava a sede das olimpíadas e perdeu para o Rio de Janeiro – houve vários protestos durante a eleição, e isso pesou contra a cidade na escolha.

Ou seja, o dinheiro já foi gasto, e o Brasil poderia ter um bom retorno com os ganhos advindos do turismo, porém, com todo esse clima, a imprensa internacional começa a repercutir negativamente ( como não poderia deixar de ser ) a situação brasileira, e estamos perdendo uma boa fonte de renda que com certeza contribuiria em muito para a economia e para a própria diminuição das tensões socioeconômicas que contribuem para os protestos.

Já com relação aos gastos da copa em si, a desinformação é retumbante. Os gastos totais com a Copa são orçados em 26 bilhões de reais. Destes 26, apenas 8 bilhões tratam dos gastos em estádios. Os outros 18 bilhões foram/serão gastos em aeroportos, portos, segurança, mobilidade urbana, estruturas temporárias, telecomunicações e outros. Na verdade, o que me parece ruim é que grande parte deste dinheiro NÃO será investido. O governo gastará menos – mas isso ao custo de deixar de fazer obras necessárias, especialmente no que tange a mobilidade urbana.

Ou seja, tanto se bate com relação aos gastos em estádios, e ele não é sequer um terço do que é gasto para a Copa. Destes 18 bilhões, como apontado, a maior parte são investimentos que permanecerão contribuindo para o país depois do evento. ( A quem interessar possa, os gastos com a Copa estão estratificados aqui .)

Agora sobre os próprios 8 bilhões dos estádios. Metade desse valor na verdade é de financiamento, ou seja, o governo não esta investindo, mas emprestando para empreendedores privados. Portanto, o gasto efetivo do governo nos estádios é de cerca de 4 bilhões de reais.

Pode-se questionar a relevância destes gastos de 4 bilhões de reais em comparação com outros mais prementes, com certeza, mas em se considerando o retorno financeiro com turismo, o destaque internacional, o próprio conforto que os torcedores passaram a ter nos estádios, a geração de emprego e renda durante a construção das obras, a conta talvez não seja tão desfavorável.

Alguns pontuam como se, deixando os estádios de lado, conseguíssemos resolver os problemas da saúde e educação. Mas o orçamento da saúde e da educação do ano de 2013 foram, somados, cerca de 200 bilhões de reais – contra os 4 bilhões dos estádios... não esta aí a panaceia, é evidente.

E fica ainda mais revoltante ao saber que 42% do orçamento da união em 2013 ficaram por conta de juros e amortização da dívida pública. [ grifo do BFI  ]

Apenas para que se tenha noção, no mundo inteiro, somente dois países (Grécia e Líbano, ambos envoltos em crises gravíssimas) tiveram gastos com a dívida superiores ao Brasil no ano passado.

Se fosse para apontar apenas um gasto, com certeza a dívida seria a panaceia, este é o calo, este é o alvo, este é o sugador de sangue que, através do estado, retira riquezas da sociedade inteira para benefício de alguns poucos, via impostos – mas qual dos manifestantes esta disposto a bater neste tema? ( Pra não falar dos coxinhas, os imbecis úteis em seu eterno argumento contra a corrupção, como se fosse ela a responsável por não termos avançado tanto quanto podíamos enquanto nação - com certeza atrapalha bem, mas não foi e não é a causa principal ).

Mas não, de maneira energúmena, anti-ideológica, alguns manifestantes escolheram a copa como alvo. Sinceramente, não dá pra mim.

Como apoiar um movimento que, se tudo der errado e ele fracassar, a única coisa que conseguirá terá sido atrapalhar o setor de turismo? Ou, como apoiar um movimento que, se der certo, em última instância, a única coisa que conseguiria seria eleger qualquer herói dos coxinhas – possivelmente um Joaquim Barbosa da vida?

Se não enquanto desejo dos manifestantes, mas enquanto resultado, o “#NãoVaiTerCopa” pode culminar na nova “marcha com Deus pela família e liberdade”.

Voltando um pouco no tempo, lembremos de como começaram os protestos. Com uma qualidade de vida cada vez mais deteriorada nas cidades, que vão se tornando monstros insustentáveis ( trânsito, poluição, insegurança, etc. ), e vitaminados pela ampla repressão que o governo Alckmin (PSDB) havia feito em São Paulo, no protesto pelos 20 centavos, a massa então explodiu.

E no meio daquela comoção toda, houve a Copa das Confederações. Mesmo com protestos ocorrendo no dia dos jogos, o que pudemos ver do povo? Acompanhou e torceu ( e muito ) pela seleção – que, diga-se de passagem, arrebentou, especialmente na final.

Agora imagine no meio da Copa do Mundo, que já é um evento que normalmente magnetiza o povo – além do mais sendo aqui no Brasil. E os caras querem dizer que não haverá copa? É de uma ingenuidade de fazer corar. É lógico que haverá copa, lutar contra isto é remar contra a corrente, é desperdiçar energia que poderia ser canalizada em algo frutífero. Deve-se bater nos alvos que de fato obstam o desenvolvimento do povo brasileiro – e não em uma paixão nacional que é o futebol e seu evento maior que é a copa do mundo.

Esta infantilidade lembra quando, no auge da ditadura, em 1970, na terrível repressão do governo Médici, os revolucionários brasileiros combinaram de não torcer para a seleção canarinho. E como certa vez eu vi numa entrevista do José Genoino: “Não queríamos torcer, mas quando o negão ( Pelé ) pegava a bola, a ideologia ia por água abaixo”. É bem por aí. Ignorar como o futebol é um elemento característico da sociedade brasileira é ignorar o desejo do povo pelo qual se diz combater. Não dá, não vejo este caminho como salutar.

Ademais, diga-se de passagem, a copa do mundo é NO Brasil, não é DO Brasil.

Concomitantemente a isto, basta ver os comentários em qualquer portal de notícia, em múltiplos grupos do facebook, o debate contra a direita mais torpe, mais reacionária, mais anti-democrática possível, um combate que necessita ser travado, um trabalho de massas, de convencimento, de participação popular – e esta parcela da esquerda, justamente a mais combativa, a mais aguerrida, se perdendo em #NãoVaiTerCopa... pelo amor de Deus, é demais...

Há alvos preferenciais, os protestos – para se ater a pauta reformista do capitalismo – poderiam ser pela redução da jornada de trabalho para 40h semanais, ou o fim do fator previdenciário, ou os 10% do PIB para a Educação, ou o transporte público gratuito e de qualidade, ou a reforma agrária, ou o fim dos Leilões do petróleo e todo tipo de privatização, ou contra o PL 4330, sobre Terceirização, ou pela reforma política, ou pela democratização dos meios de comunicação, ou contra a repressão e a criminalização das lutas e dos movimentos sociais, ou pela punição dos malditos torturadores da ditadura, etc. Sobre a copa, sinceramente, não perco um minuto do meu tempo protestando. É uma pauta natimorta.

Com relação aos últimos acontecimentos, o que pude ver é uma diminuição da participação nas manifestações, que, por outro lado, ficaram mais agressivas, sem uma ideologia consistente, apenas mais hostis. Mesmo que a maioria dos manifestantes tenha seguido uma postura coerente, cada vez mais acontecimentos equivocados têm tomado conta dos protestos.

Para mim o marco foi a queima do fusca, no Rio de Janeiro. Os manifestantes podem não ter percebido o gravíssimo risco do que fizeram, mas ali poderia ter mudado a forma como a sociedade brasileira avalia todas as manifestações, tanto as passadas, quanto as atuais e futuras.

Eram os cadáveres perfeitos para a direita:

1 – Pra começar, era uma família.

2 – Em segundo lugar, eram pessoas humildes, simples, estavam dentro de um fusca.

3 – Em terceiro lugar, voltavam da igreja.

4 – Em quarto lugar, teriam morrido queimados – uma morte que é trágica e visualmente muito chocante.

Afora o aspecto humano – que pra mim é o essencial, era a vida de uma família que estava em jogo –, mesmo se o manifestante pensar apenas no sentido tático-estratégico, sua ação foi um desastre, um desastre completo, que poderia ter posto tudo a perder, qualquer causa que ele defende e julga nobre teria ido por água abaixo com sua ação equivocada.

A coisa segue nestes termos e, mais recentemente, ocorre a morte do cinegrafista da bandeirantes Santiago Ilídio Andrade. Infelizmente, a imagem é clara, uma pessoa coloca o rojão próximo do cinegrafista, ele estava de costas, trabalhando, e infelizmente é atingido de maneira fatal. Pra quem sabe o que é dolo eventual, esta claro que ele foi assassinado. É evidente que o manifestante não queria matá-lo, um pobre coitado que não tem onde cair morto, uma vítima do sistema, mas o fez, é um fato, há filmagem, há foto, o que mais dizer?

Dá pra apoiar algo assim? Eu não sou sectário para – mesmo apoiando de maneira genérica protestos que visam a melhoria do povo – apoiar ações que atentem contra este próprio povo. Infelizmente perderam a mão, e o ridículo projeto de lei que tipifica como ato terrorista os protestos pode acabar sendo aprovado por conta deste erro.

É o momento de repensar a ação, a tática, e especialmente a ideologia.

Na minha singela opinião, o caminho passa por um movimento de massas, lutando por objetivos claros, fundamentado na tentativa de convencimento diária dos que estão ao seu redor.

Ação de vanguarda completamente descolada da massa que pretende representar só fracassou ao longo da história e pode ainda contribuir para o avanço da direita mais despudorada possível.

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O plano imperialista de treze anos para Síria




por Slobodan Eric



Só a pouco e pouco se vão pondo no seu lugar as peças do quebra-cabeças. Em entrevista concedida à publicação sérvia Geopolitika, Thierry Meyssan explica o que hoje se pode ver do plano imperialista traçado por Washington para o Médio Oriente, em 2001. Observa que a resistência dos povos fez fracassar esse plano, e sublinha que todos teremos de pagar as consequências, tanto os povos oprimidos como os acreditaram poder dominá-los.

Geopolitika: Estimado senhor Meyssan, pode explicar, brevemente, aos leitores de Geopolitika o que está sucedendo na Síria neste momento? É que quando se segue a informação dos grandes canais de televisão, e os relatórios do Observatório de Direitos Humanos [OSDH], não conseguimos entender qual é a real situação nesse país em guerra. Parece-nos que sopra um vento positivo para o presidente Assad, para o exército sírio e para todas as forças patrióticas que defendem a Síria, depois da iniciativa russa sobre a eliminação das armas químicas que destruiu o plano de intervenção dos Estados Unidos e da OTAN.

Thierry Meyssan: Segundo os países membros da OTAN e do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), os sírios levantaram-se contra o seu governo há 3 anos, mimetizando os norte africanos. Isso foi o que se designou como a «primavera árabe». O governo, ou melhor «o regime» –como o chamam depreciativamente– respondeu recorrendo à força e à brutalidade. Esta versão é sustentada através do Observatório Sírio de Direitos Humanos [OSDH], que divulga uma contabilidade sobre a quantidade de vítimas.

A realidade é muito diferente. No momento dos atentados do 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos decidiu destruir um certo número de países, entre os quais a Líbia e a Síria. Essa decisão foi revelada pelo ex-comandante supremo da OTAN, o general Wesley Clark, que se manifestou contra. Tratava-se de criar uma unidade política, indo de Marrocos até à Turquia, à volta da Irmandade Muçulmana, de Israel e da globalização económica. Em 2003, depois da queda do Iraque, o Congresso norte-americano(estadounidense- Br) adoptou o Syria Accountability Act (em inglês,Lei de Avaliação da Síria-ndT) que autorizou o presidente dos Estados Unidos a entrar em guerra contra Síria, sem necessidade de consultar o Congresso. Em 2005, os Estados Unidos utilizaram o assassinato de Rafik Hariri para acusar o presidente Bachar el-Assad de ter ordenado o crime, e criaram o Tribunal Especial para o Líbano para condená-lo, e entrar em guerra contra o seu país. Aquela acusação desmoronou-se com o escândalo das falsas testemunhas. Em 2006, Washington subcontratou a Israel uma guerra contra o Hezbolá, com a esperança de implicar a Síria. Em 2007, os Estados Unidos organizaram, e financiaram, grupos da oposição, na órbita da Irmandade Muçulmana, no exílio,. Em 2010, decidiram subcontratar esta guerra e a guerra contra Líbia à França e ao Reino Unido, que concluíram com esse fim o Tratado de Lancaster House. Em 2011, a OTAN enviou secretamente comandos para a Síria para semear o pânico e a destruição. Depois da queda da Líbia, transladaram o posto de comando dos seus exércitos terrestres para Izmirna [na Turquia], e os combatentes líbios da al- Qaida foram enviados para o norte da Síria. Esta guerra de agressão custou a vida a 130.000 sírios e a um grande número de combatentes estrangeiros.

Desde agosto e setembro de 2013 e a crise das armas químicas, os Estados Unidos admitiram que não conseguiriam derrubar o Estado sírio. Interromperam os seus envios de armas e, assim, os jihadistas estrangeiros só podiam contar com Israel, França e a Arábia Saudita. O exército lealista recuperou terreno, em todas as frentes e as grupos armados estão sendo derrotados, menos no norte do país. Mas, Washington continua a bloquear a paz na Síria enquanto não conseguir impor o seu arranjo da questão palestina.

Geopolitika: Que consequências tem a derrota do Exército Sírio Livre, apoiado pelo Ocidente? Qual é a situação em Alepo e nas demais frentes de batalha? Quem financia e apoia a Frente al-Nusra, a al-Qaida e os demais grupos islamistas extremistas? Serão os islamistas radicais, apesar de não serem populares, soldados auxiliares que estão a atacar a Síria por conta do Ocidente?

Thierry Meyssan: No princípio a OTAN decidiu lançar uma guerra de 4a geração. O objetivo era afogar a população síria com uma onda de falsas informações tendentes a fazer-lhe crer que o país se tinha sublevado, e que a revolução tinha triunfado, para que as gentes aceitassem a mudança de regime como uma fatalidade. O papel dos grupos armados consistia em realizar ações simbólicas contra o Estado –por exemplo, contra as estátuas de Hafez al-Assad, o fundador da Síria moderna– e actos de terrorismo para intimidar o povo e convencê-lo que não se opusesse.

Cada um desses grupos armados recebia ordens dos oficiais da OTAN mas não tinha um comando central, porque se queria dar a impressão de que existia uma insurreição generalizada, e não uma guerra de frente contra frente. Todos esses grupos, sem contacto entre, si levavam uma só etiqueta, a do Exército Sírio Livre (ESL). Identificavam-se com uma mesma bandeira –verde, branca e negra– que é historicamente a bandeira do mandato francês, do período intermédio entre as duas guerras mundiais, ou seja a bandeira da ocupação colonial.

Quando os ocidentais decidiram mudar de estratégia, em julho de 2012, trataram de unir esses grupos sob um só comando. Mas nunca o conseguiram, devido à rivalidade entre seus diferentes padrinhos: Turquia, Catar e Arábia Saudita.

Desde o começo que as únicas forças militares eficazes no terreno são as dos jihadistas, que proclamam a sua vinculação à al-Qaida. Eram eles a ponta de lança do ESL durante a primeira fase da guerra. Depois dissociaram-se[do ESL] quando Estados Unidos os qualificaram de «terroristas». E, hoje, dividem-se principalmente entre a Frente Islâmica –financiada pela Arábia Saudita–, a Frente al-Nusra – financiada pelo Catar– e o Emirado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL ou Daesh, em árabe), financiado pela OTAN, através de Turquia, mas que recebe ordens da Arábia Saudita. A rivalidade é tanta que esses 3 grupos vão matando-se mais entre si, do que lutam contra o Estado sírio.

Geopolitika: Ante a informação maliciosa, e seletiva, dos media globais, poderia dizer-nos quem atacou inocentes cidadãos, e crianças, com gás sarín? Aqui, na Sérvia, onde tivemos a experiência do massacre de Raçak, e o massacre de habitantes de Sarajevo no mercado de Markale, e se lançou a culpa aos sérvios sem prova alguma, tudo isso nos parece o guião de um filme, que já vimos, de «exploração do massacre». Estão a perder efeito essas sangrentas montagens, que serviram para manipular a opinião pública, e desencadear as intervenções militares contra a ex- Jugoslávia, e em outros lugares críticos do mundo, ou –dito de outra maneira– será que se está a tornar mais difícil enganar as gentes?

Thierry Meyssan: O ataque com gás sarín na Ghouta de Damasco, ou seja na cintura agrícola da capital, não foi o primeiro ataque com gás. Anteriormente houve outros em que a Síria recorreu inútilmente ao Conselho de Segurança da ONU. Segundo a oposição no exílio, o governo bombardeou essa zona da Ghouta, durante vários dias, para acabar de matar a população com gases. O presidente Obama, estimando que aquele ataque ultrapassava a «linha vermelha», ameaçou, então, destruir Damasco. O presidente francês Hollande seguiu-o na escalada. Mas, em definitivo, a Síria – aceitando a proposição da Rússia– assinou a Convenção contra as armas químicas, e entregou as suas reservas dessas armas à OPAQ (Organização para a Proibição das Armas Químicas). E não houve bombardeio contra Damasco. Faz uns dias, o Massachussets Institute of Technology (MIT)(inglês para, Instituto de Tecnologia de Massachussets-ndT) publicou um relatório que demonstra que os mísseis químicos recolhidos na Ghouta têm um alcance inferior a 2 quilómetros. Mas, segundo os mapas divulgados pela Casa Branca alegava-se um alcance de 9 quilómetros(quilômetros-Br) para que as forças leais fossem responsabilizadas pelo atingir da «zona rebelde». Por outras palavras, é impossível que esses foguetes viessem das forças governamentais.

Esse estudo confirma os relatórios dos satélites russos, que reportaram que os Contras tinham disparado 2 foguetes contra sua própria zona. Também valida as confissões, divulgadas pela televisão síria, 3 dias depois dos factos, de um indivíduo que confessou ter transportado esses mísseis, carregados até Damasco, desde uma base do exército turco. Valida, ademais, as acusações de famílias alauítas de Latakia, que reconheceram entre as vítimas as suas crianças, sequestradas no mês anterior pelos Contras. E, finalmente, valida a investigação de Seymour Hersh, que revela que – contrariamente ao que disse Barack Obama– as observações do Pentágono não assinalaram nenhuma atividade das forças [governamentais] de armas químicas, durante os dias anteriores aos factos. A vocês, [na Sérvia], não surpreenderá este caso, porque vocês viveram esse mesmo tipo de agressão, por parte das mesmas potências. E isso, funciona hoje com a mesma eficácia que antes. Mas as mentiras têm perna curta. E isto funcionou, mas não deu resultado. O público ocidental acreditou, mas não houve bombardeio contra Damasco, porque Rússia o impediu alinhando a sua frota ao longo da costa da Síria. Assim, para destruir a cidade, o Pentágono tinha que disparar desde o Mar Vermelho – por cima da Jordânia e da Arábia Saudita– o que teria provocado uma grande guerra regional. E só agora conhecemos a verdade com certeza, ou seja 6 meses depois.

Geopolitika: Queremos questioná-lo também sobre a situação dos cristãos na Síria. Houve notícias de que os islamistas da al-Nusra ocuparam e saquearam a localidade de Maalula, que é um antigo santuário cristão. As freiras teriam sido, igualmente, sequestradas?

Thierry Meyssan: Para sangrar a Síria, a OTAN recorreu simultaneamente a colaboradores sírios e a combatentes estrangeiros. Durante a segunda parte da guerra, ou seja desde a primeira conferência de Genebra –em junho de 2012–, assiste-se a um fluxo sem precedentes de Contras. Trata-se de uma guerra como a que se orquestrou contra a Nicarágua sandinista [em meados dos anos 1980], mas com uma proporção de mercenários estrangeiros que nunca se tinha atingido anteriormente. Há, atualmente, 120 000 combatentes estrangeiros, provenientes de 83 países, lutando na Síria contra o Estado. Todos são partidários do wahabismo, seita fundamentalista no poder na Arábia Saudita, no Catar e no emirado de Sharjah. A maioria dizem ser takfiristas, ou seja «puros» e condenam à morte os «apóstatas» e os «infiéis».

Assim é que nas manifestações gritam «Os alauitas para o túmulo!, Os cristãos para o Líbano!» Durante 3 anos massacraram dezenas de milhar de alauítas (uma igreja xiita que considera que a fé é uma questão interna, que não se expressa através de ritos) e cristãos. Sobretudo obrigaram centenas de milhar de cristãos a fugir, abandonando os seus bens. Hoje em dia obrigam-nos a pagar um imposto especial, por ser infiéis.Como estamos a chegar a um final da guerra, os grupos armados tratam de vingar-se da sua derrota através de operações espetaculares. Assim atacaram Maalula, uma cidade cristã onde ainda se fala a língua de Cristo, o aramaico. Ali, cometeram atrocidades que deixaram toda a gente em choque. Houve cristãos que foram torturados em público e que morreram como mártires, negando-se a abjurar da sua fé.

Geopolitika: Segue com muita atenção, e precisão, a situação no Médio Oriente. Como qualificaria a situação no Egipto? Pensa você que a situação nesse país se consolidou após as ação determinada do comando militar? É a primeira derrota séria dos que planificam as revoluções árabes? Como explica o respaldo dos Estados Unidos a um grupo islamista radical como a Irmandade Muçulmana?

Thierry Meyssan: A expressão «primavera árabe» é um subterfúgio dos jornalistas, para dizer que acontecimentos que eles não entendem, estão ocorrendo, simultaneamente, em países muito diferentes onde se fala o mesmo idioma: o árabe. É, também, uma forma de propaganda que disfarça de revoluções várias guerras de agressão. O Departamento de Estado inquieto quanto à sucessão de Hosni Mubarak tinha decidido derrubá-lo, para poder escolher ao mesmo tempo o seguinte governo. Assim organizou a fome, em 2008, especulando com os produtos alimentícios. Para garantir a mudança formou uma equipe ao redor da Irmandade Muçulmana. E esperou que o caldeirão começasse a ferver.

Quando começou a revolta, o Departamento de Estado enviou o embaixador Frank Wisner –o mesmo que organizou o reconhecimento internacional da independência de Kosovo– para ordenar a Hosni Mubarak que se demitisse. E isso fez Mubarak. Depois, o Departamento de Estado ajudou a organizar eleições, que permitiram à Irmandade Muçulmana pôr na presidência Mohamed Morsi, quem tem a dupla cidadania egípcio-americana, com menos de 20% dos votos. Já no poder Morsi abriu a economia às multinacionais americanas, anunciou a privatização do Canal de Suez, impôs uma constituição islamista, etc. Então, o povo sublevou-se de novo. Mas já não foram só uns quantos bairros do Cairo, como da primeira vez. Em resumo, o exército retomou o poder e encarcerou aos dirigentes da Irmandade Muçulmana. Agora sabe- se que esta última estava a negociar o o traslado da população palestina de Gaza para o Egipto. No Egipto, tal como no conjunto do mundo árabe, Hillary Clinton contava com a Irmandade Muçulmana. Esta organização secreta, que foi criada no Egito para lutar contra o colonialismo britânico, na realidade foi manipulada pelo M.I: 6 e hoje tem a sua sede internacional em Londres.

Desde o ano 2001 que Washington tinha planificado a ascensão da Irmandade Muçulmana, facilitando a eleição –na Turquia– de um responsável político que tinha estado no cárcere como membro da Irmandade Muçulmana, mas que dizia tê-la abandonado: Recep Tayyip Erdogan. Depois de 80 anos tentando numerosos golpes de Estado em vários países, a Irmandade Muçulmana chegou ao poder na Líbia, trazida na bagagem pela OTAN e, através das urnas, na Tunísia e no Egipto. Participa nos governos em Marrocos e na Palestina. Na Síria confere uma imagem política aos Contras. Revelou-se na Turquia. Dispõe de conselheiros de relações públicas turcos, em todo o lado, e do financiamento do Catar, ou seja da Exxon-Mobil e –portanto– dos Rockefeller. Tem os seus próprios canais de televisão, e o seu principal pregador, ao-Qadarawi, é o «conselheiro espiritual» (sic) do canal catari Al-Jazeera. A Irmandade Muçulmana impõe um Islão(Islã-Br) sectário, que oprime as mulheres e assassina os homossexuais. Em troca, sustenta que o inimigo dos árabes não é Israel mas sim o Irão e abre os mercados às multinacionais americanas(estadounidenses- Br).

Durante 2 anos e meio chegou-se a crer que a Irmandade Muçulmana chegaria a governar todo mundo árabe, mas hoje os ocidentais abandonaram-na porque em nenhum lado conseguiram atingir um apoio popular maciço. Nunca tiveram da sua parte mais de 20% da população.

Geopolitika: A partir da sua «torre de vigia» no Médio Oriente, poderia explicar-nos a surpreendente amizade entre o governo da Sérvia e os Emirados Árabes Unidos? O príncipe Mohamed Ben Zayed Al Nahtan veio várias vezes à Sérvia, onde anunciou vários investimentos dos Emirados na agricultura sérvia e no turismo. A companhia aérea Etihad comprou –práticamente a absorveu– a companhia sérvia JAT Airways. Podem esses contactos políticos e económicos entre o Abu Dabi e Belgrado concretizarem-se sem consentimento de Washington? Que razão teria a Casa Branca para estimular a cooperação entre os Emirados e a Sérvia?

Thierry Meyssan: Os Emirados Árabes Unidos estão numa situação muito difícil. Primeiramente é uma federação de 7 Estados bastante diferentes, entre os quais se acha o emirado wahabita de Sharjah. Depois, são demasiado pequenos para poder enfrentar o seu poderoso vizinho – a Arábia Saudita– e o seu cliente –Estados Unidos. Assim trataram de diversificar a sua lista de protetores oferecendo uma base militar à França, mas esse país regressou ao comando integrado da OTAN. Em 2010 abandonaram a ideia de desempenhar um papel diplomático na cena internacional, depois que a CIA assassinou, em Marrocos, o príncipe Ahmed, por estar financiando em segredo a resistência palestina. O levantamento das sanções dos Estados Unidos contra o Irão afetará os portos [dos Emirados], que se tinham convertido em trampolim do tráfico que burlava o embargo [contra o Irão]. Agora estão à procura de novos sócios económicos do seu tamanho. Ao negociar com a Sérvia estão balançando além do mais a influência wahabita do Catar, que criou Al-Jazeera na Bósnia.

Geopolitika: Que pensa você do panorama atual das relações internacionais?A presença militar russa no Mediterrâneo, e suas ações diplomáticas que tornaram impossível a intervenção contra a Síria, o seu estímulo para que a Ucrânia não assine um acordo com a União Europeia, a firme posição da China sobre as ilhas em disputa no Pacífico, é tudo isso mostra do fortalecimento de um mundo multipolar? Que resposta pode esperar-se dos Estados Unidos, e da elite governamental global, ante as derrotas que sofreram depois de certas revoluções coloridas, e árabes, e ante a evidente tendência atual do enfraquecimento do poder ocidental?

Thierry Meyssan: O enfraquecimento dos Estados Unidos é um facto. Esse país tinha previsto realizar uma demonstração de força atacando, simultaneamente, a Líbia e a Síria. E em definitivo não pôde fazê-lo. Hoje em dia os seus exércitos são pouco eficazes e não consegue reorganizá-los. Mas os Estados Unidos ainda continuam a ser, a muita distância, a primeira potência militar do mundo, e isso permite-lhes impôr o dólar, apesar da sua dívida exterior não ter equivalente histórico. Nos últimos anos a China e a Rússia progrediram consideravelmente, e conseguiram, ao mesmo tempo, evitar um confronto direto. Pequim converteu-se na primeira potência económica do mundo, enquanto Moscovo (Moscou-Br) é de novo a segunda potência militar. Esse processo vai continuar já que os dirigentes chineses e russos demonstraram a sua capacidade, enquanto os dirigentes americanos mostraram a sua própria incapacidade para adaptar-se. Sou, pelo contrário, céptico quanto ao desenvolvimento da África do Sul, Brasil e Índia, países que – no momento – se desenvolvem economicamente, mas nos quais não vejo ambições políticas. As elites globais estão divididas. Há os que pensam que o dinheiro não tem pátria, e que depois de Washington virá outra potência, e os que estimam que a sua própria força provem do ameaçador poderio militar do Pentágono.

Geopolitika: Dada a informação que você tem e a credibilidade das suas análises, gostaríamos de conhecer a sua opinião sobre a política do governo da Sérvia, que conduz persistentemente o país para a União Europeia, apesar da ausência total de entusiasmo por parte do seu povo, e que para conseguir esse objetivo, aceitou participar com Bruxelas e Washington na destruição da resistência sérvia diante da secessão albanesa do Kosovo e Metojia.

Thierry Meyssan: O atual governo sérvio não entende a nossa época. Ele reage sempre como se Rússia estivesse nas mãos de Boris Yeltsin e não pudesse ajudá-lo. E, ao fechar, ele mesmo, as portas do Kremlin, não lhe resta outra possibilidade que voltar-se para a União Europeia, e pagar as consequências dessa opção. Agora carrega com o peso da vergonha de ter abandonado a resistência sérvia. A verdade é que não é o único Estado dos Balcãs nessa situação. A Grécia e o Montenegro também teriam que se voltar para Rússia, e não o fazem. Pode-se dizer, sem lugar a dúvidas, que a maior vitória do imperialismo é ter conseguido dividir, e isolar, os povos, ao extremo de fazer-lhes crer que já não podem escolher a sua própria política.

Geopolitika: Na sua anterior entrevista à nossa publicação o senhor disse que os membros do UCK [Exército de Libertação de Kosovo] tinham treinado elementos que combatiam na Síria para a realizar de actos de terrorismo. Mantêm-se o UCK e os kosovares activos na luta contra o presidente Assad, e contra os legítimos órgãos de governo da Síria? Tem informação sobre a presença, entre os islamistas, de muçulmanos provenientes da Bósnia, Kosovo e Metojia e da região de Sérvia onde vive uma maioria muçulmana (cidade de Novi Pazar)?

Thierry Meyssan: Os jihadistas que lutam na Síria proclamam através dos seus sítios na internet que receberam treino(treinamento-Br) do UCK e, inclusive, difundem por essa via fotos das suas relações. Tudo isso foi organizado, evidentemente, pelos serviços secretos turcos –o MIT– cujo atual chefe, Hakan Fidan, actuava como agente de ligação entre o exército turco e o Estado Maior da OTAN, durante a guerra do Kosovo.

Sabemos também que numerosos jihadistas que hoje estão na Síria vêm dos Balcãs. Mas, parece que a Turquia já não está alimentando esse fenómeno (fenômeno-Br). Actualmente, a polícia e a justiça turcas estão realizando uma operação contra o governo de Erdogan. Inclusive têm conseguido sacar à luz do dia as relações pessoais do primeiro-ministro (premiê-Br) com o banqueiro da al-Qaeda, que recebia secretamente em Istambul, apesar deste individuo figurar na lista de pessoas procuradas pela ONU. Por essa via, aTurquia financiava as ações de al-Qaida na Síria. O senhor Erdogan diz ser vítima de um complô de seu ex-sócio, o pregador muçulmano Fethullah Gullen. É provável que na realidade este último se tenha aliado ao exército kemalista contra Erdogan, que –apesar do que afirme– continua sendo membro da Irmandade Muçulmana. Ao princípio, vários Estados membros da OTAN ou a esta vinculados incitaram os muçulmanos a juntar-se à jihade na Síria. Mas, agora, temem que esses elementos regressem aos seus países de origem, já que essas pessoas, que violaram, torturam e cortaram gente aos pedaços, para exibi-los, não podem regressar coletivamente a uma vida civil normal.

Quando a CIA criou o movimento jihadista contra a União Soviética, no Afeganistão, o mundo ainda não estava globalizado. Tinha muito menos viagens, e portanto estavam mais vigiados. Não tinha internet. A CIA podia manipular muçulmanos no Afeganistão, sem temor de vê-los aparecer onde não os queria. Hoje em dia, o que a OTAN iniciou na Síria continuou desenvolvendo-se por si só. Já não há necessidade de organizar vias para que os jovens se unam aos Contras na Síria, porque podem fazê-lo por si mesmos. Tanto repetiram que a Síria era uma ditadura que agora todo mundo crê isso. E é romântico ir-se lutar contra uma ditadura. Numerosos governos estão pedindo atualmente à Síria que os ajude a identificar os seus nacionais de seus entre os jihadistas. Mas, como o faria Síria, e por que teria que prestar essa ajuda aos que trataram de destruí-la? A guerra irá apagando-se, paulatinamente, na Síria, os jihadistas regressarão aos seus países, incluindo toda a Europa, onde prosseguirão a guerra para a qual os treinaram os próprios europeus.

E não haverá solução pacífica para essa situação, porque, se a OTAN chegasse a ganhar na Síria e a derrubar a administração Assad, seria inclusive pior. Este seria um sinal que levaria a que todos os aprendizes jihadistas do Ocidente tratassem de fazer nos seus países o mesmo que deu resultado no Médio Oriente. O Ocidente e os países do Conselho de Cooperação do Golfo pariram monstros, com cujos crimes teremos que viver.


Tradução 


.Al-Qaeda’s Real Origins Exposed

.Al-Qaeda Rebels To Meet US Officials: Sources

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"O aumento expressivo das multas mostra que os motoristas continuam a dirigir com imprudência", diz especialista em trânsito para quem, com toda razão, a Indústria da Multa não existe



Ano começa com aumento de 27% em multas de trânsito


A CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) começou o ano a todo vapor (1) (2). Em janeiro, radares e marronzinhos aplicaram 1,milhão de autuações de trânsito. A quantidade é 27,2% maior do que as 801,1 mil multas registradas no mesmo mês de 2013 (3). Isso significa que, a cada minuto, 22 veículos são multados.

O excesso de velocidade lidera o ranking das autuações, segundo balanço da CET (4). Foram 423 mil multas, ante 295 mil em janeiro de 2013, um aumento de 43,4%. Em seguida aparece o desrespeito ao rodízio municipal, com 176 mil flagrantes. O número é 113% maior do que o registrado no mesmo mês do ano passado.

Para o especialista em trânsito Horácio Figueira, o aumento no número de multas mostra a realidade do trânsito da cidade e preocupa. “Chama a atenção o aumento expressivo das multas por excesso de velocidade. Isso mostra que os motoristas continuam a dirigir com imprudência, mesmo com o aumento no número de radares”.

Segundo ele, a fiscalização também deve ser ampliada para a periferia. (5)

Hoje, São Paulo tem 597 radares. Os equipamentos são responsáveis por 7 em cada 10 multas (6). Para Figueira, o número deveria ser ainda maior (7). “Só assim a CET vai conseguir reduzir o número de acidentes e mortes no trânsito da cidade. É preciso doer no bolso”.

As multas por desrespeito às vias exclusivas para ônibus (corredores e faixas) também tiveram alta expressiva (73,7%) – 70,4 mil multas no mês passado, ante 40,5 mil de janeiro de 2013.

O índice é reflexo da expansão das faixas à direita, que começaram a ser implantadas no ano passado. Desde o início da gestão de Fernando Haddad (PT), foram implantados 316,4 km de faixas exclusivas. (8)

E a quantidade de autuações deve aumentar ainda mais porque a CET começou a instalar mais radares nas vias segregadas. Anteontem, começaram a funcionar sete novos equipamentos. Ao todo, são 91 aparelhos específicos para flagrar motoristas que invadem as vias exclusivas. A fiscalização também é feita por 1.854 marronzinhos e por 690 agentes da SPTrans (9).

As autuações para fretados que circulam dentro da zona de restrição e por falta de cinto de segurança também subiram em janeiro: 65,8% e 18,4%, respectivamente. ( METRO )

NOTAS:

( 1 ) Ou seja, a CET começa o ano cumprindo sua obrigação. Em tempo: como sempre ocorre, as manchetes chamam sempre a atenção para as quantidades e porcentagem de "multas", como se isso não representasse, na prática, a autuações de meliantes motorizados. Sempre estão ao lado dos meliantes esses jornais. No primeiro parágrafo não há dúvidas: escreveram "a todo vapor" para induzir o leitor a imaginar que as multas são indevidas, feitas a olho, quando todos sabem que não são. De todo modo, as multas aplicadas SEMPRE estão AQUÉM do que deveria, ou seja, multa-se menos do que se deve. Em 2010, o Estadão publicou "Arrecadação com multas em São Paulo bate recorde em 2009", onde lemos que o 'Especialista em tráfego e transporte pela Universidade de Berlim, o consultor de trânsito Alexandre Zum considera o valor arrecadado com fiscalização baixo em relação ao número de infrações cometidas no trânsito. "Poderia se arrecadar até mais que isso", diz'. E zéfini.
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( 2 ) Também é o caso de se observar que os infratores é que começaram o ano a todo vapor, mas isso a matéria se recusa a dizer;

( 3 ) Não é demais reforçar que os números são postos em comparação com Janeiro de 2013;

( 4 ) Excesso de velocidade. Desnecessário maiores comentários;

( 5 ) Com certeza;

( 6 ) Há muitos anos que a proporção é mais ou menos esta. Mas tanto mídia quanto o povo preferem criminalizar os marronzinhos. Que, aliás, quando multam, não fazem mais do que cumprir com sua obrigação. Ocorre que ninguém gosta de ser multado, mesmo merecendo - e merece, na esmagadora maioria dos casos - mostrando que cada um é um "mensaleiro" à sua própria maneira, dentro de suas possibilidades e oportunidades oferecidas. Esses mensaleiros do trânsito também foram capazes de um dia inventar que os amarelinhos recebiam comissão por multas;

( 7 ) Com certeza. Tanto o número de radares como o de marronzinhos, que está defasado há anos, conforme fomos informados por esta reportagem da Rádio Jovem Pan, de 2010: "Falta de investimento prejudica trabalho da CET", de onde destaco o trecho: "(...) O presidente da Associação Nacional dos Transportes Públicos, Aílton Brasiliense, enfatizou a necessidade de investimentos. Menos de cinco mil ( 4.200 ) profissionais atuam no trânsito, que já é comparado pelos especialistas ao de Nova Delhi, na Índia. Na Cidade do México, o número de agentes chega a 15 mil e, apenas na ilha de Manhattan, em Nova York, são 7 mil ( ... )". E uma reportagem publicada no Estadão em 2008 já mostrava o tamanho do rombo: "Frota dobra e número de agentes cai 18% - Em 1992, CET tinha nas ruas 2,2 mil marronzinhos; hoje, há 1,8 mil";

( 8 ) Essa é a parte em que a matéria joga pra torcida ou, no caso, para o monstro, já devidamente alimentado pela mídia por centenas de teorias da conspiração contra as faixas do Haddad. Ocorre que, lá em 2010, a coisa de multar quem invadisse faixa de ônibus já tinha começado com força: "Fiscalização multa mais em corredores [sic] de ônibus", AGORA, 14.01.2010. Vejam isto: "A invasão da faixa exclusiva de ônibus foi a infração que mais cresceu no primeiro semestre de 2009 em relação ao mesmo período do ano anterior. O número de motoristas autuados subiu 199%, segundo a CET (...) Quase 95 mil motoristas foram multados por invadir a faixa de ônibus na primeira metade do ano passado. A infração nunca havia aparecido no ranking anual das mais cometidas (...)"
Sim, senhores: 199%. E sabem qual a maior? Até o primeiro semestre de 2012, a cidade tinha apenas 71 km de faixas e Kassab se preparava para implantar, a toque de caixa e às pressas cerca de 120km delas ( não sei se conseguiu cumprir ). No último ano ( 2012 ) foram implantados mais 316km de faixas de ônibus e é muito natural que as multas por invasão aumentem também, considerando o caráter de nossos motoristas. Que são, afinal, nossos cidadãos, quando andam de carro. Ou seja, péssimos cidadãos serão também péssimos motoristas. De qualquer forma, o Estadão deu outra abordagem, mais adequada e HONESTA, a essa questão: "Cai proporção de multas por km de faixa de ônibus". 

( 9 ) Números ridículos, ideais para não multar ninguém, bem ao gosto de nossa população.

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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Hora de dizer a verdade para Clóvis Rossi, Por Breno Altman




Não pode haver hesitação quando está em jogo a democracia; Brasil tem o dever de defender a legalidade e a soberania popular do governo venezuelano de Nicolás Maduro


O jornalista Clóvis Rossi, um dos mais respeitados do país, escreveu ontem, na Folha de S.Paulo, artigo intitulado “Hora de dizer a verdade a Maduro”, criticando a posição atual do governo brasileiro acerca da crise venezuelana. Seu texto considera, a partir dos números das últimas eleições presidenciais, que o vizinho ao norte está “rachado ao meio”. E conclui: apoiar o presidente Nicolás Maduro seria “dar às costas à metade da população venezuelana, erro que nenhum país sério pode cometer.”

Traz vício de origem o apelo à neutralidade e a eventual papel moderador que poderia desempenhar a diplomacia brasileira. Rossi, com a elegância de sempre, mas desconhecimento sobre o assunto, parece estar abordando situação normal de conflito. Como se fosse, por exemplo, uma competição eleitoral ou um rally pacífico de setores oposicionistas.

O venerando repórter atropela o próprio registro que encabeça sua coluna, ao lembrar do golpe de Estado que derrubou Hugo Chávez em 2002, para vender versão edulcorada e neutra dos acontecimentos em curso, insinuando que se trata de um choque legítimo entre blocos políticos.

Nem mesmo o governador de Miranda e ex-candidato presidencial da direita, Henrique Capriles, acredita nessa lorota. Faz questão de manter distância regulamentar da aventura extremista apelidada de la salida pelos white blocs do golpismo venezuelano. Ali está em curso, novamente, operação violenta e articulada para apear do poder um presidente constitucional.

Não pode haver hesitação quando está em jogo a democracia. Defender a legalidade e a soberania popular é a tarefa fundamental dos governos da região, a começar pela mais importante de todas essas nações. A presidente Dilma Rousseff, ao subscrever nota incisiva do Mercosul e declaração inequívoca da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), dá demonstração de grandeza e liderança. Contemporizar com o golpismo, como sugere Rossi, seria atitude pusilânime e apequenada.

Os interesses que se movem nas sombras do vandalismo oposicionista são tão perigosos quanto os objetivos dos grupos ensandecidos que fantasiam tomar Miraflores de assalto. A guerra cibernética e midiática, manipulando informações e imagens, sinaliza que o discurso de Barack Obama, alinhado à intentona da direita, não se esgota no palavrório. A Casa Branca dá sinais que considera a derrocada de Maduro, já e agora, um componente fundamental de sua geopolítica para o petróleo e a América Latina.

O silêncio brasileiro, portanto, não seria apenas desfeita à causa democrática que tanto sangue, suor e lágrimas custou ao continente. Nações que desejam construir caminhos autônomos, em aliança com seus parceiros naturais, devem ter na solidariedade uma política de Estado. Fraquejar nessas horas significaria retirar os sapatos diante de quem aspira retornar à época em que esse canto do mundo aceitava ser o quintal de uma potência imperialista.

Por fim, a tese da “divisão ao meio” é falácia para subtrair legitimidade de um governo soberano. Desde quando uma pequena diferença eleitoral torna iguais quem ganhou e quem perdeu na escolha popular? Está correto um jornalista do calibre de Clóvis Rossi omitir que o chavismo venceu 17 das 18 contendas eleitorais que travou desde 1998? Que elegeu 20 dos 23 governadores nas últimas disputas regionais? E 75% dos prefeitos em consulta às urnas há menos de três meses?

O presidente Nicolás Maduro tem reagido com firmeza e equilíbrio para deter a onda de violência e os planos de sublevação. Cumpre obrigação de preservar a democracia e a paz como manda a lei, mas sua aposta principal é convocar às ruas seus compatriotas, em defesa da Constituição. Estende as mãos para quem não compactua com o golpismo, ao mesmo tempo que promete ser implacável contra os que quiserem usurpar o poder pela força.

Não poderia ser outra a atitude do governo que não ombreá-lo na resistência legalista. As correntes reacionárias podem reclamar o quanto quiserem, e Clóvis Rossi pode lhes oferecer consolo, mas a Venezuela não está isolada como o Chile de Allende ou o Brasil de João Goulart, a bel prazer dos que almejam destruir as instituições democráticas.

Breno Altman é jornalista, diretor editorial do site Opera Mundi e da revista Samuel

LEIA TAMBÉM:

#VENEZUELA: NUMBERS DA DITADURA HORROROSA

" (...) Em 15 anos, as forças chavistas venceram 18 de 19 eleições. Nas últimas eleições municipais, os chavistas ganharam 76% das prefeituras. Também têm 59% dos deputados e 87% dos governos estaduais. ( ... )
Maduro apontou que a constituição é muito clara, e que se algum setor da oposição quer tirá-lo do poder, “tem que esperar até 2016, colher assinaturas para convocar um referendo revogatório e nos vemos nas eleições” – como manda a constituição ( ... )"

TÁ TUDO DOMINADO, É UM HORROR SÓ:
Sistema eleitoral da Venezuela é exemplar, defende observador internacional

E, pra piorar o cenário macabro e satânico, que bem poderia ser retratado pelo Hieronymus Bosch:
" ( ... ) Mesmo a oposição faz coro a Jimmy Carter quando afirma a absoluta segurança do processo eleitoral. Também pudera, eles conjugam o moderno com o antigo. A máquina com a cédula. ( ... )"

AMORDAÇADOS ( ou: "CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO" ):
“A Venezuela repete o modelo que existe na ampla maioria dos países latino-americanos. Ou seja, o que existe na Venezuela é um processo perverso de concentração da mídia nas mãos de grupos privados. Estes que não possuem a menor preocupação com os anseios coletivos, pelo contrário, privilegiam o tempo todas as suas ambições mercantis e gananciosas” ( Dênis de Moraes, 2012 )



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