domingo, 12 de janeiro de 2014

Al-Qaida, eterna reserva da Otan, por Thierry Meyssan



A revelação dos laços unindo o Primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdoğan, à Al-Qaida sacode a política turca. Não somente Ancara apoiava muito activamente o terrorismo na Síria, mas agia, além disso, no quadro de uma estratégia da Otan. Para Thierry Meyssan, o assunto mostra o carácter fictício dos grupos armados que lutam contra o Estado e o povo sírios.

Até à data, as autoridades dos Estados membros da Otan afirmam que a onda jihadista internacional, que apoiaram na sua formação, aquando da guerra no Afeganistão contra os Soviéticos (1979), se teria voltado contra elas aquando da libertação do Koweit (1991). Elas acusam a Al-Qaida de ter atacado as embaixadas dos E.U. no Quénia e na Tanzânia (1998), e de ter fomentado os atentados do 11 de setembro de 2001, mas admitem que após a morte oficial de Oussama Ben Laden (2011), certos elementos jihadistas teriam de novo colaborado com eles na Líbia e na Síria. Contudo, Washington teria posto fim a esta reaproximação táctica em dezembro de 2012.

Ora, esta versão é desmentida pelos factos: a Al-Qaida combateu sempre os mesmos inimigos que a Aliança Atlântica, tal como o revela uma vez mais o escândalo que sacode actualmente a Turquia.

Vem-se a saber que o banqueiro da Al-Qaida, Yasin al-Qadi —que foi designado como tal e procurado pelos Estados Unidos após os atentados contra as suas embaixadas no Quénia e na Tanzânia (1998)— era um amigo pessoal quer do antigo vice-presidente dos E.U. Dick Cheney como do actual Primeiro-ministre turco Recep Tayyip Erdoğan. Vem-se a descobrir que este «terrorista» levava uma vida de “alto estilo” e viajava em avião privado, rindo-se das sanções das Nações Unidas lançadas contra si. Assim foi, que ele visitou, pelo menos, quatro vezes a Erdoğan em 2012, desembarcando no segundo aeroporto de Istambul onde, após as câmaras de vigilância terem sido desligadas, ele era recebido pelo chefe da guarda do Primeiro-ministro, sem passar pelo controlo de desembarque de passageiros.

Segundo os polícias ( policiais-Br ) e magistrados turcos que revelaram estas informações e detiveram os filhos de vários ministros implicados no assunto, a 17 de dezembro de 2013 —antes de serem desligados da investigação e depois demitidos das suas funções pelo Primeiro-ministro — Yasin al-Qadi e Recep Tayyip Erdoğan tinham organizado um vasto sistema de desvio de fundos para financiar a Al-Qaida na Síria.

Exactamente na altura em que este inacreditável jogo duplo saía à luz do dia, a polícia turca arrestava nas proximidades da fronteira síria um camião transportando armas destinadas à Al-Qaida. Entre as três pessoas interpeladas, uma declarou escoltar o carregamento por conta do IHH, associação «humanitária» dos Irmãos muçulmanos turcos, enquanto uma outra afirmava ser um agente secreto turco em missão. No fim, o governador interditou a polícia e a justiça de cumprir a sua missão, confirmando que este transporte era uma operação secreta do MIT (o serviço secreto turco), e ordenando que o camião e a sua carga pudessem retomar a sua rota.

A investigação mostrou, igualmente, que o financiamento turco da Al- Qaida utilizava uma rede iraniana tanto para agir sob cobertura na Síria como para levar a cabo operações terroristas no Irão ( Irã-Br ). A Otan dispôs já de cumplicidades em Teerão durante a operação «Irão-Contras» nos meios próximos do antigo presidente Rafsandaji, como o xeque Rohani, que se tornou o actual presidente.

Estes factos acontecem quando a oposição política síria, no exílio, lança uma nova teoria em vésperas da Conferência de Genebra 2: a Frente al- Nusra e o Emirado islâmico no Iraque e no Levante ( ÉIIL ) não seriam mais que falsas antenas dos serviços secretos sírios, encarregados de aterrorizar a população para a empurrar para os braços do regime. A única oposição armada “legítima” seria pois a do Exército sírio livre ( ESL ), que reconhece a sua supremacia. Não haveria assim, aqui, qualquer problema de representatividade à Conferência de paz, segundo ela.

Nós seriamos, assim, levados a esquecer todo o bem que a mesma oposição, no exílio, disse acerca da Al-Qaida durante três anos, assim como o silêncio dos Estados membros da Otan sobre a generalização do terrorismo na Síria.

Desde logo, se podemos admitir que a maior parte dos dirigentes da Aliança Atlântica ignorariam tudo sobre o apoio da sua organização ao terrorismo internacional, podemos do mesmo modo também admitir que a Otan é a principal responsável mundial pelo terrorismo.

Tradução 
Fonte 

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