sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Por que Raul Castro foi o estadista mais aplaudido na África do Sul



MARC VANDEPITTE

A coisa é pouco conhecida, mas Cuba jogou um papel decisivo para o fim do regime de apartheid. Sobre o continente africano, dos anos setenta aos anos noventa, esse pequeno país que é Cuba foi um importante contraponto à superpotência americana.

“Sem internacionalismo a revolução cubana não teria jamais existido”, declarou Fidel em um de seus numerosos discursos. Durante a guerra fria não hesitou em empreender perigosas missões militares para ajudar a combater o imperialismo americano. A pedido de países irmãos realizaram-se missões militares no Vietnam, Síria, Argélia, Gana, Congo (Bazavile), Zaire, Guiné Equatorial, Zimbábue, Etiópia, Somália, Eritreia, Iêmem do Sul, Tanzânia, Angola, Namíbia e Guiné Bissau. E Cuba igualmente apoiou diversos movimentos de guerrilha na América Latina.

A mais importante missão sem nenhuma dúvida foi a de Angola e é esta que nos conduz a Mandela e ao fim do apartheid.

36 mil cubanos em Angola

A história começa com a independência de Angola em 1975. Em outubro deste ano, um mês antes da proclamação da independência, tropas sul-africanas invadiram o país com a intenção de derrubar do poder o MPLA (Movimento Pela Libertação de Angola de inspiração marxista que conquistou a independência). Um regime de inspiração marxista em Angola poderia ameaçar o controle da Namíbia pela África do Sul.

Sem apoio o MPLA não poderia sem dúvida se sustentar e a África do Sul adquiriria o controle de Angola também.

A URSS adota uma posição muito reservada sobre a situação. O movimento de libertação angolano MPLA se dirige a Cuba para conseguir uma assistência militar. Cuba envia para o local 36.000 homens e consegue conter a progressão da África do Sul. Em março de 1976 o exército do apartheid se retira de Angola.

A causa não é hoje ainda completamente entendida, mas em 1977 estoura uma rebelião no seio do MPLA. Nito Alves, fiel a Moscou, dá um golpe de Estado contra o líder Agostinho Neto. O golpe foi frustrado porque as tropas cubanas continuaram a lutar ao lado dos que se mantiveram leais ao MPLA.

Nos anos 1980 Cuba entra novamente em ação. A África do Sul, ciente do enfraquecimento da URSS, prepara uma ofensiva no sul de Angola. Em companhia da UNITA, rebeldes apoiados pela CIA, atacam novamente em novembro de 1987. A pedido do governo angolano Cuba envia prontamente 50 mil homens. Depois de algumas semanas de pesados combates o exército sul-africano é derrotado em Cuito-Cuanavale.

O exército do apartheid se retira de Angola e em seguida da Namíbia. Essa virada estratégica não é somente uma derrota militar mas um rude golpe moral. Ele contribui decisivamente para a supressão do apartheid. É também uma contribuição importante para a libertação do Zimbábue . Em todo esse conjunto de diversas missões 400 mil cubanos teriam combatido em Angola e mais de 2 mil deixaram ali a vida.

Cuba, o primeiro país visitado

Após sua libertação, a testemunha privilegiada que era Mandela, tinha a seguinte posição sobre a intervenção cubana: “Nós viemos aqui estando bem conscientes da dívida que temos com o povo cubano. Que país poderia ser tão altruísta quanto Cuba em suas relações com a África? Quantos países no mundo beneficiam-se do trabalho, dos serviços de saúde e ensino cubanos? Que país alguma vez pediu em vão a ajuda de Cuba? Quantos países ameaçados pelo imperialismo ou combatendo por sua libertação nacional não puderam contar com a sustentação de Cuba? Na prisão eu ouvi falar pela primeira vez da ajuda gigantesca aportada pelas tropas de voluntários cubanos ao povo angolano, tão gigantesca ajuda que seria fácil ter podido duvidar de sua veracidade! (...)

“Nós na África somos simplesmente as vítimas dos países que querem suprimir nosso território e acabar com a nossa soberania. Jamais foi visto na história da África um outro povo tomar as armas para nos defender!

“A derrota esmagadora imposta ao exército racista em Cuito-Cuanavale foi uma vitória de toda a África! Sem a derrota de Cuito-Cuanavale a proibição que pesava sobre nossas organizações não teria jamais sido suprimida! A derrota do exército racista em Cuito-Cuanavale permitiu que hoje eu estivesse aqui! Cuito-Cuanavale transformou a luta de libertação nacional no continente, no nosso país a luta contra o flagelo do apartheid! A derrota decisiva de Cuito-Cuanavale modificou a correlação de forças na região e reduziu substancialmente a capacidade do regime de Pretória na desestabilização dos países vizinhos.”

Mais soldados, mais médicos

Após o fim da guerra fria Cuba não mais enviou soldados ao estrangeiro, mas professores e sobretudo médicos. Nesse momento 30 mil médicos trabalham em mais de 90 países e 50 mil médicos de 82 países foram formados gratuitamente. ( Na Bélgica para uma população igual a de Cuba conta-se no total 47 mil médicos ). 
Nos últimos cinco anos Cuba recuperou 2 milhões de cegos. Não é por nada que Ignacio Ramonet, antigo redator do Monde Diplomatique, descreve Cuba como uma superpotência médica.

(Artigo publicado em Bruxelas pelo jornal “Solidaire” com o título: “Mandela, Cuba e o fim do apartheid”)




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