terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Parabéns à Cultura ( Prisão e exílio de Milton Santos em 64 ), Por Jasson de Oliveira Andrade


Revendo velhos jornais ( encadernados ) deparei-me com um artigo de Fernando Leite Mendes, publicado no Correio da Manhã ( Rio ), já extinto, de 27/12/1964, sob o título acima. O mesmo se encontrava assinalado por mim. Não por causa da pessoa focalizada, Milton Santos, o qual, na época, desconhecia. Apenas tomei conhecimento dele muitos anos depois, em 2000, através de seus artigos no Mais! ( Folha de S. Paulo ) e de seus ensaios, em CartaCapital. Morria pouco tempo após o meu conhecimento tardio, em 24/6/2001, vitimado por um câncer.

O artigo em questão me impressionou [ sic ]. Gostaria que meus possíveis leitores tomassem conhecimento de alguns trechos, marcantes [ sic ] e, sem dúvida, históricos.

“Viajou ontem (26/12/1964) para a França – escreveu Fernando Leite – o cidadão brasileiro Milton Santos, professor de Geografia Humana na Universidade da Bahia e doutor em Letras ( Geografia ) pela Universidade de Estrasburgo, na França. Não vai a passeio; vai exilar-se”.

“Viaja porque não tem condições de permanecer em seu país depois do que lhe aconteceu. Foi preso em abril ( 64 ). O oficial que o seqüestrou era racista [ sic ] e Milton Santos é negro. Em mais de 50 dias de cárcere, ouviu, magoado, as antigas expressões do tempo da escravatura, ditas e reditas, com um novo e cruel sotaque. (...) O IPM em que o enredaram acusou-o de subversivo”.

“Um dia, o cônsul da França na Bahia desceu do seu pequeno automóvel à porta do Quartel General, onde o professor estava encarcerado. ( ... ) Dirigiu-se ao coronel carcereiro e contou-lhe que o governo do seu país o incumbira de transmitir uma notícia ao perigoso [SIC] detido. A Universidade de Toulouse, a segunda na ordem de antiguidade em França, havia nomeado seu professor, por eleição do plenário de seus catedráticos, aquele negro”.

“O coronel surpreendeu-se. Então aquele jovem professor que ele prendera era conhecido e estimado pela cultura do grande país da Europa, a ponto de mover-se o agente consular até o fundo de sua cela para consagrá-lo com o convite. Para o militar, tratava-se de um negro [ sic ]. Mas para nós não, coronel, disse o cônsul. Trata-se de um doutor da França. (...) “E no momento em que o Brasil não deseja os seus serviços, a França os aceita”.

“Desde ontem (26/12/1964), o Brasil tem menos um negro. Parabéns, coronel. (...) Mas a França ganha mais um professor; Parabéns à cultura – infelizmente não a brasileira”.

Um fato me chamou a atenção. Mesmo estando no início do Golpe de 64, com prisões, punições e cassações, os jornais ainda eram livres, como demonstra a publicação desse artigo no Correio da Manhã. A censura seria imposta depois, com o AI-5 [que este ano completou 45 anos], em dezembro de 1968, causando inclusive o fechamento daquele jornal carioca [ inclusive a prisão da dona. Ler meu artigo “NIOMAR, A DEFENSORA DA LIBERDADE” no meu livro, página 267 ], mesmo tendo sido contra Jango, publicando contra ele dois violentíssimos editoriais: BASTA ( 31/3/1964 ) e FORA ( 01/4/1964 ).

( ARTIGO PUBLICADO NO LIVRO “GOLPE DE 64 EM SÃO JOÃO DA BOA VISTA”, PÁGINA 280 )



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