sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Vício maldito ( ficção )



Ela acorda no meio da noite, assustada. Suada. Respiração ofegante. E tosse. Parece que vai se esgoelar de tossir. 
Encosta-se na cabeceira da cama para ver se a tosse passa. Passou.
Sede. Boca seca. Dirige a mão na direção do criado mudo para ligar o abajur mas detém-se, ao lembrar que esquecera de trocar a lâmpada queimada.
Ainda assim, tateia pelo criado mudo em busca do copo de água. Inutilmente.
Volta a tossir. Pigarreia. A tosse volta a parar. A ansiedade toma conta. 
Precisa do vício, não tem jeito. "Só essa vez...", pensa. Jurou a si mesmo que conseguiria, mas está difícil. Ao menos diminuiu. 
"Um dia de cada vez", pensava, se agarrando nisso para conter o desânimo. Nada de dar um passo maior que a perna. "Consegui diminuir, e isso já é uma vitória..."
Faltaria força de vontade? Bom, todos disseram que haveria dificuldade, que largar o vício assim do dia para a noite era utopia. Não se larga assim, sem mais nem menos. Que angústia. Que desespero.
Ninguém falou que seria fácil.
Mas a ansiedade está lá. Viva. Insana. 
Taquicardia e sudorese. Respiração muito ruim.
"Só essa vez", pensa, "e depois eu tento compensar..."
No escuro, volta a tatear a mão pelo criado mudo. Seus dedos encontram um objeto. São apenas os óculos.
- Merda.
A ansiedade só aumenta.
- Cadê essa porra?
Outro objeto. Dessa vez, é o copo de água.
- Agora que você aparece? Vai se danar!
Segue a busca.
- Cadê? Cadê?
Novo objeto. O isqueiro. 
Ela lembra que tinha deixado perto do isqueiro. Então está quente...
- Ah, agora vai!
Mais um pouquinho. Achou o maço de cigarros.
Pega o maço de cigarros e tira um. Leva à boca. Acende o isqueiro e aproxima a chama do cigarro. A brasa ilumina o quarto. Dá uma baforada profunda e expele a fumaça:
- Ahhhhhhhh!

Aproveita a iluminação fraca proporcionada pelo isqueiro e apanha o celular, que estava bem onde deixara. Seus dedos nervosos digitam um número. 
- Alô!?, diz sonolentamente alguém, do outro lado da linha.
- O-oi!, Sou eu!, diz a mulher. Desculpa incomodar a essa hora da madrugada e...O quê? Não, não consegui! Você tinha razão, tava toda com a razão: como é difícil ficar um único dia sem usar celular peloamordedeus, quanto mais uma semana! Pensei que ia morrer! Você venceu a aposta, parabéns!



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