sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O casal "vantagem em tudo" do reclame é real


Vi algumas vezes as peças comerciais protagonizadas por um casal que... ah, vocês já sabem do que se trata, então não preciso entrar em detalhes. 

Fiquei com uma puta antipatia por esse comercial. Eu não vi ali censura alguma ao fato do casal dar uma de malandro para atingir seu objetivo, a saber, furtar a conexão de Internet de terceiros. A malandragem é protagonizada por um casal digamos, bonito, bem-sucedido e de classe-média ( a constatação ali é óbvia, penso eu ). Pois para essas pessoas é dirigida a propaganda em geral. ( Na vida real, se um casal negro e favelado fizesse o mesmo, dava cana na certa. Um casal branco de classe média não seria admoestado. Acho eu. )

Tenham uma coisa em mente: as propagandas não são dirigidas aos pobres, mas calha de passarem na TV, e é certo de que mais de 80% da população tenha o aparelho em suas casas. Logo, há muito mais pessoas pobres tendo algum "contato" com as maravilhas do consumo porém, a milhões de anos-luz da possibilidade de vir adquirí-las. Mas, alimentados maciçamente pela propaganda, vontade de comprar é que não lhes falta.
Alguém uma vez falou sobre o Brasil ser, na verdade, "um país com 30 milhões de consumidores". Hoje em dia deve ser um pouco mais, mas a maioria consome apenas o básico para a sobrevivência. Pode-se até não passar fome, mas gastança com badulaques, nem pensar. Um caso de doença em família é um deus-nos-acuda. Aumento de patrimônio ou fazer alguma poupança pro futuro, fora de cogitação. 

PAPO CHATO! VAI DIRETO AO ASSUNTO, PANACA!
Mas, enfim, isso não é um tratado de sociologia, e nem tenho gabarito pra isso. E a questão aqui é outra: a canalhice cotidiana cometida pelo cidadão comum. Sabem do que estou falando, não sabem? Do cara que finge dormir no assento reservado nos transportes públicos, ou do sujeito que estaciona seu carro sobre a calçada, esse tipo de coisa. Da vantagem em tudo, do "cada um, cada um", esse verdadeiro espírito comunitário em que estamos vivemos. E, também, de jogar a responsa pros outros, de fazê-los trabalhar para nós, de graça e sem nem um "muito obrigado" [ v. Dicionário de termos arcaicos ]. Um dos exemplos clássicos é abandonar lixos e inservíveis em vias das cidades. Pois sabe-se que, bem ou mal, alguém vai resolver o problema. Sempre tem alguém para fazer as coisas por nós, em nosso lugar. Esse é o jogo. 

ALMOÇO, NÃO, MAS EXISTE PAJEM GRÁTIS
Vou dar um exemplo, vai: às vezes eu dou uma passada numa revistaria localizada dentro de um hiper-mercado. Além desta revistaria, há outros comércios, como lojas de roupas, salão de cabeleireiro, até praça de alimentação. 
A dona Noely, da revistaria, me conta que é ROTINA pais e mães de boa família ABANDONAREM seus filhos na loja para que a jornaleira sirva como PAJEM GRATUITA. No começo ela nem se ligava, mas com o passar do tempo descobriu que tratava-se de uma relação vampiresca: as pessoas fingiam ser "clientes" ( que tem "sempre razão" ), deixavam as crianças ali no estabelecimento sem falar NADA, sorrateiramente, e SUMIAM para fazer compras ou cortar o cabelo, só voltando depois de muito tempo, sem comprar porra nenhuma nem para disfarçar. E pegavam as crianças sem nem ao menos agradecer, ou às vezes sem olhar na cara. NATURALMENTE. Como se ela ESTIVESSE ALI PARA ISSO!
Evidentemente, a escolha da pajem obedecia/obedece a uma lógica: essas mães e pais iam deixar suas crianças nas lojas de roupas ou no relojoeiro? FAZENDO O QUÊ? Uma banca de jornais/revistaria tem muito mais ATRATIVOS para as crianças. Como se fosse um parquinho à disposição. 
E, tão evidente quanto: as crianças não ficavam ali MEDITANDO, claro. Ficavam mexendo em tudo, bagunçando, até mesmo causando danos em mercadorias ( d. Noely já fez mãe pagar um gibi rasgado, mas é difícil tomar decisões desse tipo, pois o comerciante não quer parecer mercenário ou antipático, por medo de perder um possível freguês, ops, cliente ).
Escaldada depois de anos, quando d. Noely percebe que a mãe tem intenções dissimuladas, ela simplesmente fecha a revistaria e vai ao banheiro, expulsando a criança sem mais. Foda-se, tá certa ela. Que responsabilidade tem ela, afinal? Nenhuma! E a mãe não vai arrumar a bagunça que seu petiz causou. Ou seja: a FDP fica simplesmente transferindo a responsabilidade e dando trabalho pros outros! Como escrevi acima, o lance é fazer os outros trabalharem por e para nós!

D.Noely me contou que um dia um pai foi procurar sua filha ali na loja. A menina REALMENTE havia entrado ali e permanecido por uns 20 minutos, enquanto o pai andava para lá e para cá ( do lado de fora ) falando ao celular. Quando ficou de saco cheio, d.Noely usou seu direito de "ir ao banheiro" e enxotou a menina. Depois de MUITO TEMPO após ela ter reaberto é que o pai apareceu. Tipo, a menina ficou 20 minutos, D. Noely foi ao banheiro e demorou uns 10 minutos para reabrir o estabelecimento, e uns 20 minutos depois é que o pai foi procurar a menina. 
A d.Noely me contou isso, sem deixar de mencionar que, na hora, nem se dera conta de qual menina o homem falava. Ela nem lembrava mais da menina, de tanto tempo que havia passado. Se um pedófilo tivesse recolhido a garota, teria passado muito tempo até o pai se dar conta. Em sua cabeça, a "tia" da banca estaria "cuidando" ( gratuitamente, é claro! ) de sua filhota enquanto ele, paizão, cuidava de coisas mais importantes.

Dona Noely me contou outras "aventuras", mas são tantas que nem lembro. 

O FLANELINHA INVOLUNTÁRIO
Essa aconteceu, digo, acontecia comigo quando trabalhei numa - olha só! - banca de jornais na região da Rebouças. Ficava em uma esquina onde era proibido estacionar. Nossa clientela parava o carro, pegava o jornal e ia embora em minutos. Quando alguém estacionava o carro ali na nossa frente em horário comercial, era por falta de vagas na rua. E, como escrevi, ali era proibido, mas eles preferiam arriscar. E nos atrapalhavam, é bom que se diga. O patrão ficava furioso.

Mas, quando estacionavam à tarde, noite, finais de semana e feriados, era apenas por um motivo: pela segurança. Nós eramos praticamente as únicas almas por ali. Digo, estavamos ali regularmente. Podia haver vagas de montão na rua, mas o vagabundo deixava seu veículo EXATAMENTE EM FRENTE A BANCA. Era comum o camarada deixar o carro à tarde, sumir e voltar à noite, quando estavamos na hora de fechar. Sabiam de nossos horários. Uns ainda tinham a cara-de-pau de perguntar a que hora fecharíamos. Outros simplesmente pediam para tomarmos conta ( juro, mano! ) que, na volta, "comprariam um jornal". Geralmente compravam era porra nenhuma. A maioria vinha e ia sem dar "boa noite". Para tomar conta de carro a gente servia, como se fosse nossa obrigação.
Fora aqueles que estacionavam, desciam do veículo rapidamente e sumiam como um raio, como ratazanas fugindo de gatos. Nem olhavam pra trás, mas tinham certeza de que cuidariamos de seu precioso patrimônio. Tem muito ladrão na cidade, né. Gente que descumpre as leis, gente muito má...

A reação adequada
Foi uma época boa, como vêem. Mas, em alguns aspectos, foi mesmo. Ao contrário do que ocorre hoje, quando eu chamava a CET, ela vinha mesmo! E GUINCHAVA, deixando um cavalete no lugar ( eu os chamava de "ratinhos trocadores" ).
Quando aprendi a telefonar pra CET foi só alegria! Eu recebia as vítimas com um sorriso, tipo o solícito atendente de posto de gasolina em reclame ( "Opa! É pra já, chefia!" ). Mal o mandrião virava as costas, pegava o telefone e chamava a Lei & Ordem. No fim de semana era bichado, mas em dias de semana funcionava. Que saudade! Quantos carros guinchei. E a cara dos malfeitores, hahaha! Alguns achavam que não era aquela a esquina onde haviam estacionado. 
E eu, genuinamente entristecido pelo ocorrido: "Eu disse a eles ( a CET ) para não fazerem isso, que era carro de cliente nosso ( hahaha! ) mas não teve jeito!"

Medo na cidade
O local era muito escuro, acho que por ser bastante arborizado, e a iluminação pública era bastante débil. Quando estávamos abertos nossa luz era praticamente a única que havia. Luzes atraem mariposas, aleluias e donos de automóveis que necessitam de um lugar iluminado para deixar o carro. Mas o medo era até justificável, já que o roubo de veículos no pedaço era grande. Naquela rua, inclusive.
Eu que fechava a banca, lá pelas 23:00hs. Tinha que deixar as luzes de fora acesas, por uma óbvia questão de segurança, como para evitar arrombamentos. Mas, não foram poucas as vezes em que fechei e DESLIGUEI TUDO, deixando o lugar um breu só, com o único propósito de facilitar a ação de algum ladrão de carros. Se funcionou, até hoje não sei.

Sim, o "casal vantagem em tudo" da propaganda tem como modelos gente da vida real. O publicitário não inventou a roda. Só não mostrou como devem ser tratados.

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