domingo, 13 de outubro de 2013

Paulo Estânio em: "No meio do caminho havia um cavalete..."

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Os seguintes acontecimentos ocorreram em São Paulo, onde essas coisas ocorrem com uma frequência deveras irritante. Recomenda-se cautela quanto à leitura.

Uma rua qualquer. Nela, uma série de imóveis recém-construídos, umas 5 ou 6 residências lado a lado num terreno que, poucos meses atrás, abrigava apenas uma moradia.

Um corretor estava ali, em seu posto, esperando pelos possíveis compradores. Para chamar ainda mais a atenção, providenciou dois cavaletes onde pregou placas de IMÓVEL À VENDA. CORRETOR NO LOCAL. Como é do usos e costumes do município, tratou de botá-los na calçada, onde atrapalhava os pedestres. Claro, óbvio. Até aí, nada de mais. Já é da cultura dos nativos ocupar as calçadas para benefício particular.

Esqueci de dizer o nome do corretor: PAULO ESTÂNIO, um velho conhecido nosso. Legítimo representante de certo zeitgeist cujos resultados vemos aqui e acolá. 

Paulo estava em seu posto quando um sujeito engravatado, portando umas pastas de documentos e uma prancheta, pergunta:

- Esses cavaletes aí, são do senhor?

Há dias esses cavaletes estão sendo colocados na calçada. Das seis casas a venda, só restou uma. Por isso, e para economizar, Paulo fez uma correção nas placas: onde antes se lia "IMÓVEIS À VENDA", agora está escrito "IMÓVEL À VENDA".

Quando o sujeito se apresentou, Paulo suou frio. Será um fiscal da Prefeitura? Putz, que azar! Todo esse tempo e eles acabam aparecendo justo quando as casas estão quase todas vendidas. Porra, ser multado aos 45 do segundo tempo...? Se ele demorasse mais uma semana não faria essa autuação. Já tem um comprador engatilhado, o negócio está quase concretizado, os cavaletes já iam pro "Cata-Bagulho"... 
Putz, mas que merda de azar! 

O sujeito prossegue:

- Então, esses cavaletes...

Paulo corta o sujeito:

- Vem cá, vamo conversar aqui na casa, que tá o maior solzão aí fora.

- Mas...?

- Não, entra aqui, tem água gelada, e a gente pode conversar melhor sobre esses cavaletes.

- Bom, mas...

- Venha, amigo. Vamos fechar um negócio bom para ambos. Aqui dentro.

- Tá bom, então. Mas é que eu estou com certa pressa e...

- Vai ser rapidinho. É pá e pum! 

- OK!

Dentro do imóvel vazio, Paulo saca do bolso uma certa importância. E põe no bolso da camisa do fiscal. Este, meio sem jeito, gagueja, enrubesce e coisa e tal. Mas diante da atitude resoluta de Paulo, acha melhor não falar nem fazer nada.

- Pronto! - diz Paulo - Não disse que ia ser rápido? Aqui é bicho homem! Tempo é dinheiro! Eu tenho mais o que fazer, e o senhor também!

- Er, sim, com certeza, responde o fiscal.

- Então acho que estamos de acordo!

- Bom, er, bom, acho que eu tenho que ir andando!

- Oquei, eu tenho que ficar aí no plantão, cuidar dos clientes. Mas em breve, se Deus quiser, desta semana não passa! Pode ficar sossegado!

- Err, sei... Bom,  muito bem... Tenha um bom dia, senhor...

- Paulo. Meu nome é Paulo! Pena que acabaram os cartões de visita e...

- Errr, não, tudo bem, não tem importância. Estou indo nessa. Até logo!

- Até! Foi um prazer fazer negócio com o senhor!

- É, acho que sim! Tenha uma boa tarde!

- Igualmente!

( *** )

À noite, Paulo Estânio reclama pelas redes sociais da corrupção que grassa no Brasil. É fiscal cobrando propina, é amarelinho da CET cobrando para não multar motorista apanhado em flagrante em estacionamento proibido, uma esculhambação esse país!
Satisfeito, vê que sua reclamação recebeu 4545 "Curti" no Facebook. Uma mulher ainda comenta, de forma revoltada, que certa vez seu filho foi obrigado a oferecer propina a PMs para resolver uma questão de trânsito. Da forma como escreveu a dona, fica evidente que o pimpolho leu a mente dos meganhas e, antes que abrissem a boca, ele se adiantou e ofereceu a eles um agrado para que o problema não se estendesse demasiado . Mas aí é outra história.

( *** )

Uns três dias depois, Paulo se encontrava em seu posto ( aquela casa tava zicada, não tava desenrolando nem com reza brava... ) como tinha sido a regra nos últimos três ou quatro meses. Um sujeito o aborda:
- O senhor é o corretor?

"Agora vai...", pensa Paulo, que responde:

- Sim, sou eu.

- Essas placas...

- É, chamam a atenção mesmo - diz Paulo, satisfeito com a visibilidade de suas propagandas. O senhor quer dar uma olhada na casa? Só sobrou essa, já tem gente na fila providenciando os documentos para consulta, mas eu posso lhe mostrar sem compromisso...

- Não vim ver a casa, responde o sujeito, mostrando uma credencial. Sou fiscal da Subprefeitura. Recebemos reclamação de munícipes. Vamos autuar o senhor e levar essas placas embora por estarem atrapalhando os pedestres! E não tem o CADAN, não tem licença...

- Não, mas...

Nem termina de falar, aparece um caminhão da Prefeitura lotado de coisas, como freezers tomados de bancas de jornais que vendem refrigerante - isto está fora das leis das bancas, poucos sabem disso - e outros objetos. Um homem desce do caminhão, pega os dois cavaletes e os joga sem dó nem piedade na caçamba do veículo. Um dos cavaletes quebra. Enquanto isso, o fiscal vai preenchendo os autos de infração, aquela papelada de praxe. 

Paulo fica de queixo caído. E diz ao fiscal:

- Mas como pode? Não tem uma semana veio outro fiscal aqui, a gente acertou os ponteiros e...

- Que "outro fiscal"? Eu sou o único fiscal de toda a Subprefeitura.

- Mas...

Antes de poder se explicar, Paulo recebe os autos de Infração e de Apreensão e a dolorosa.

- Tenha um bom dia!, diz o fiscal, que vira as costas e vai embora.

Paulo olha os papéis, incrédulo. 

( *** )

O QUE ACONTECEU

O sujeito - chamado Estêvão - para quem Paulo Estânio pagou a propina não era fiscal de coisa nenhuma. Ele passava ali todos os dias e queria pedir os cavaletes quando não servissem mais. Quando percebeu que só restara um imóvel à venda, achou que era a hora. Mas Paulo, tomado de culpa, botou o carro na frente dos bois. 
Depois de ter recebido - involuntariamente - a propina de Paulo, Estêvão decidiu telefonar para a Prefeitura e solicitar uma fiscalização. Reclamou que particulares estavam botando cavaletes na calçada, e isso estaria atrapalhando a passagem dos pedestres.

Ah, sim! Com a grana da "propina", Estêvão foi numa dessas lojas de madeiras e comprou três cavaletes, bem melhores e mais resistentes do que aqueles que ia pedir pro corretor.

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