segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Para além de um jaleco branco, Por Maurício Pestana



Certa vez, o grande Antonio Carlos Jobim, falando sobre a morte, declarou: “Quero morrer é aqui mesmo. É mais confortável morrer em português. Como é que você vai dizer para o médico, gringo, em inglês: tô com uma dor no peito que corresponde na cacunda?”. Logo que começou o debate sobre a chegada dos médicos cubanos no Brasil, a frase de Tom me veio à mente. Me dei conta de que, em toda minha vida, nunca fui atendido por um médico negro, e olha que já vou para mais de quatro décadas de vida.

Provavelmente, grande parte dos leitores deste artigo também nunca esteve diante de um médico negro. Se vieram ao mundo em uma maternidade pública ou privada brasileira e se o último suspiro for dado também em um hospital, a chance de ser atendido por um irmão da mesma cor é pequena. Os “caras pretas” de jaleco branco cubanos suscitaram outras questões que vão muito além da luta de uma classe supervalorizada, como a dos médicos, no país dos professores “sem classe alguma”, em alguns lugares nem para dar aula.

Assim que chegaram, os companheiros da Ilha declararam-se tranquilos, pois estavam acostumados a trabalhar em países pobres como o Haiti. Pouco depois, devem ter mudado de ideia ao descobrir que a ignorância, o preconceito e o racismo são tão fortes quanto os fenômenos da natureza, ou seja, encontraram um país devastado do ponto de vista moral na questão racial, que nem se surpreendeu quando uma jornalista, desavisada das últimas conquistas das domésticas, declarou que as médicas cubanas tinham “cara de empregadas domésticas”.

Há muito tempo falamos sobre a falta de governadores, prefeitos, deputados e grandes empresários negros em nosso país, onde mais da metade da população é negra. A situação é um escândalo para quem se diz democrático. É bom lembrar que já vieram para cá médicos da Espanha, Argentina, Portugal, entre outros, e o tratamento foi mais brando, ou melhor, mais “branco”. Em decorrência disso, uma discussão sobre a falta de espaços sociais para nós, negros, dentro dessa sociedade racista, faz-se necessária.

Quando ocupamos esses lugares, parece que algo está fora da ordem natural das coisas. O professor Milton Santos, baiano, negro e um dos maiores geógrafos do mundo no século XX, costuma contar um caso que demonstra bem essa questão de espaço. Estava ele em um avião, e foi falar alguma coisa com o comissário de bordo. O comissário respondeu em inglês. Milton Santos disse: “Não falo em inglês”. O comissário respondeu: “Ainda não sei falar francês”. Isto é, um negro no avião, para o tal comissário de bordo, devia ser estrangeiro, talvez um senegalês milionário, mas nunca brasileiro.

A questão de territorialidade racista, algo já superado em alguns países desenvolvidos, tende a se tornar um problema cada vez maior no Brasil na medida em que começarmos a superar algumas barreiras e transitarmos em espaços historicamente brancos.

A grande questão é: sem passar por uma revolução cultural e educacional como em Cuba, ou mesmo sem experimentar avanços econômicos e educacionais como os negros dos Estados Unidos, por mais que comecemos a ter nossos médicos, reitores, e até físicos nucleares negros, ainda ouviremos muito a frase: “Por favor, pode me servir um café enquanto espero o doutor me atender?”. Ou teremos um destino como o de Jobim, que morreu em Nova Iorque, nas mãos de quem não entendia nada sobre a sua origem. ( AFROPRESS )


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