terça-feira, 15 de outubro de 2013

Os problemas de cada um ( conto )



José morava na rua. Ponto. Era um mendigo, havia anos. Décadas talvez. Como chegou lá, não vem ao caso. Talvez noutra oportunidade eu conte. 
Quando a coisa apertava, José ia pro abrigo de sem-teto da Prefeitura. Ele achava que as pessoas já foram melhores com os moradores de rua. Que, no passado, as pessoas até tentavam ajudar, ofereciam café ou refeições, ou conversavam com estes rebotalhos da sociedade. 

Hoje em dia, acha José, as coisas estão selvagens. Vários de seus companheiros de infortúnio foram agredidos ou até mortos. Coisa de dez ou quinze anos para cá. Antes não era assim, pelo que lembrava.
Já não basta morar na rua ou na praça. Tem que dormir de olho aberto. Os cães que acompanham estes andrajentos são sua maior segurança. 

Plínio mora num bairro bacana de Sampa, mesmo bairro por onde José costuma perambular. É, de certa forma, "vizinho" de José. Seus caminhos já se encontraram diversas vezes.
Plínio é o típico playboy folgado, do jeito que os senhores conhecem. Não preciso entrar em detalhes. Marombado, desmiolado e bem mau-caráter. Mimado desde sempre. Ganhou tudo dos pais. Entrou na "facú" por imposição do velho, que estava cansado e meio arrependido de ter dado tudo de mão beijada pro filho. Também deu um jeito de descolar, junto a seus contatos, uma colocação profissional pro filho. Com a grana, o rapaz banca a "facú", a SUV, a academia, as Hollister e as Abercrombie.

A primeira das vezes em que os caminhos de Plínio e José se cruzaram deu o que seria a tônica das demais. Voltando da balada com os amigos sanguessugas e as minas interesseiras, Plínio parou ao lado de José, que estava dormindo num canto escuro da rua. Plínio desceu da SUV, foi até José e começou a chutá-lo:

- Toma, mendigo do caralho!

- URGHH! AI!!! UUUFFF!

Plínio agiu rápido. Chutou o que pôde e voltou pro carro, zarpando dali sem mais. José não conseguiu ver nada. Nem deu tempo de Caramelo, seu cão amigo e acompanhante, latir, pois também estava em sono profundo. Vendo o tanto que José gemia, Caramelo deu-lhe umas lambidas. 

Tempos depois, Plínio voltava da balada, com seus amigos e amigas de ocasião. Viu José dormindo noutro canto qualquer e reconheceu aquele mendigo em quem já batera antes. O cobertor era inconfundível, e a carroça de papelão de José, idem.
Plínio comunicou à galera que iriam parar num posto de combustível para comprar gasolina:
- Hoje vamos ter churrasquinho hahaha!
Para sorte de José, a galera convenceu Plínio a não prosseguir com o plano. Mas, para não passar batido, Plínio parou o SUV a poucos metros de José e foi lá espancá-lo novamente. Não preciso descrever a cena.

Noutra noite, Plínio novamente encontrou um dormente José, num banco de praça. Como de praxe, Plínio foi lá atacar José. Só que, desta vez, Caramelo não estava dormindo e avançou em Plínio. O cachorro recebeu um golpe dirigido a José:
- CAAAAIMMMM!
Isso acordou imediatamente José e afugentou Plínio. Felizmente, Caramelo não se machucou seriamente. Foi mais o susto, mesmo. Acertou uma das patas, sem muita gravidade. 
Desta vez, José acordou a tempo de ver seu agressor e o carrro em que estava.

No carro, um dos membros da galera do Plínio lhe perguntou:
- Meu, por quê você não deixa o cara em paz?
- Ah, velho - respondeu Plínio - sei lá, cara, é divertido!
- Pôxa, meu, mas ele já tá numa pior e você fica trazendo mais horror pra vida dele...
- Meu, os problema dele é problema dele!!!
- Putz, meu, sei lá...
- Mas você é uma bichona mesmo, heim! Vai, mano, passa o uísque com Red Bull aí e pára de choro!
- Mas mano...
- Já falei: OS PROBLEMA DELE É PROBLEMA DELE! Não meu!

Tempos depois, José dormia perto dum caixa eletrônico de banco. 
Plínio parou seu SUV para sacar uma grana para ir pra balada. Ele nem notou que José estava por perto. Dormindo e completemente indefeso.

Plínio catou a grana e, ao sair, foi abordado por dois sujeitos:
- Vai, playboy! A casa caiu!
Os dois sujeitos renderam Plínio. Sequestro-relâmpago.
Caramelo assistia a tudo. A confusão também despertou José, que logo entendeu o que estava rolando. Prendeu a respiração e ficou bem quietinho, acompanhando os acontecimentos que de desenrolavam diante de seus olhos. 
Os dois marginais conduziram Plínio ao carro. Nesse momentos os olhos de José, do lado de fora do carro, e de Plínio, dentro, se encontraram. Plínio, que não reconheceu José, ficou um pouco esperançoso ao perceber que os bandidos não notaram a existência de uma testemunha. Só que José reconheceu Plínio.

- E agora, Caramelo?
- Au!
- Também acho! Tem que chamar a polícia.
Terminou de dizer isso viu uma viatura da polícia passando. Antes de fazer qualquer sinal pros policiais, José sentiu uma coisa estranha. Parecia estar ficando meio bêbado, meio zonzo, um troço difícil de explicar.
Nada disso. De repente, José sentiu mesmo, de forma muito clara, uma espécie de... paz. 
De conforto. De ausência de dor. Estranho!

- Caramelo, tô me sentindo esquisito.

- Au!

- Estranho. Acho que vou morrer, Caramelo! Fodeu!

- Vai, não!, respondeu Caramelo.

- O QUÊ!!???

Olhou aterrorizado na direção de Caramelo. O cachorro falou!!!! 
- Caramelo??!

- Não vai acontecer nada de ruim a você, eu garanto!, disse o cão.

E começou a se metamorfosear. Suas feições caninas passaram a apresentar traços humanos. Uma barba começou a crescer em seu rosto. Ele aumentou de tamanho. Postou-se de pé, ereto. Um manto branco vestia seu corpo. Um coroa de espinhos lhe adornava a cabeça.

José estava tendo uma epifania. Mas justo agora??

- Senhor, o que está havendo?

- Em verdade vos digo, meu bom José. Dai a César o que é de César...

- C-c-como?

- Dai a César o que é de César, meu bom José... Ouvi minhas palavras...

Completamente atordoado, José fecha os olhos. Os esfrega com força, um monte de vezes:

- Ai, ai, ai, o que está havendo?

Quando os abre, está tudo normal. Caramelo estava diante dele, deitado, e lambendo uma das patas.

- Caramelo do Céu, o que foi isso?

- Au!

José vê que a viatura está a cinco metros dele. No momento em que ia acenar pros guardas, escuta uma voz:

- Dai a César o que é de César....

Algo "estala" no cérebro de José. Ele entendeu a mensagem.

- Siiimmmmm... Agora entendo... "Dai a César o que é de César..."

E completa:

- ... e ao playboy o que é do playboy...

A pata que Caramelo lambia era aquela que Plínio acertara naquele atentado, tempos atrás. Coitado do Caramelo.

José olha condoído pro cachorro e diz:

- Quer saber, Caramelo? O PROBLEMA DELE É PROBLEMA DELE...

- Au, au, concordou o cão.

E foram dormir. A viatura se afastou e virou a esquina. 

Dias depois, o corpo de Plínio foi encontrado, não lembro se em Carapicuíba ou Osasco. 

A imprensa ficou revoltada. Um rapaz tão bonito e forte, que trabalhava e fazia faculdade e que teve seus sonhos abortados por marginais que fazem a Justiça de gato e sapato nesse país. 

Marchas em memória do rapaz foram organizadas em bairros de classe-média. A mídia cobrava o Secretário de Segurança todos os dias. As redes sociais exigiam "justiça". Abaixo-assinados foram feitos e fartamente divulgados pela imprensa.
"Até quando?", todos perguntavam.

Sem se importar com os problemas alheios, José e Caramelo seguiram suas vidas. 

FIM



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