quinta-feira, 24 de outubro de 2013

"Multas crescem acima da frota em Sampa" diz jornal. E, mesmo assim, multa-se pouco.


Antes de você prosseguir com a leitura, quero que saiba que eu fiz uma espécie de "edição" na matéria do jornal de onde extraí estas informações. Deixe-me explicar: na capa do jornal DIÁRIO DE SÃO PAULO de hoje, 24.10, a chamada é: "Multas correm mais do que carros nas ruas". Um subtexto informa que "A arrecadação cresce acima da frota de veículos", no período entre 2009 e 2012. Como sempre, enfatizam as supostas multas aplicadas e a suposta arrecadação, sempre em tom de criminalização de quem autua - a CET. 

Não se trata de semântica: eles usam os termos "multa" e "arrecadação", e deixam de lado a palavra "autuação". Porém, é disso que se trata e não adianta espernear: os meliantes são [ às vezes ] autuados por cometerem infrações o tempo todo, mas a mídia prefere jogar para a torcida, enfatizando "multas e arrecadação". A torcida passou a adotar um discurso de vitimização. Alguns chegam ao cúmulo da canalhice e misturam "indústria da multa" com "fúria arrecadatória de impostos" e tudo fica por isso mesmo, por conveniência. 

A matéria inicia-se na página P2, com o título "MULTAS CRESCEM ACIMA DA FROTA". Gráficos, números, o escambau. Como escrevi acima, tudo para a torcida. Aumentando o número de veículos, obviamente aumenta o número de autuações, já que não parece razoável se cogitar que os proprietários dos 691 mil novos carros emplacados em 3 anos na Capital tenham um tipo de comportamento cidadão diferente dos demais moradores da cidade. São romanos e fazem como os romanos. Quanto à relação aumento da frota < aumento das autuações, a matéria não apresenta maiores explicações. A frota aumentou 10% e as autuações 66%, em 3 anos. Se o leitor desejar concluir que os novos motoristas/carros cometem mais barbaridades no trânsito que os motoristas/carros antigos, ele tem essa liberdade. Se desejar concluir que esses novos motoristas/carros são mais multados indevidamente que os antigos apenas por sadismo da CET, também. Trata-se de desejo, já que a matéria não aprofunda em nada, apenas joga números e gráficos. Ora, como se as autuações tivessem que obedecer a uma lógica 1 = 1, 2 = 2 e ponto final. 

Pois bem. Ainda por cima escreve-se de tal maneira confusa que fica parecendo que o atual prefeito da Capital está no cargo desde 2009, primeiro ano que compõe o período de 3 anos, e que é tudo "culpa" dele. Chega-se a jogar dados sobre as [ novas ] faixas exclusivas de ônibus, onde as autuações teriam subido 500%. No corpo do texto, não no final dele ou em box especial com projeções sobre o futuro. De propósito, na medida para as pobres "vítimas" da gula arrecadatória descomunal ficarem se lamuriando. 

Uma curiosidade: não sei se é por preguiça, costume ou má-fé mesmo, mas vejam que o gráfico à página P2 tem como título "CANETADA VELOZ", aludindo aos escassos "marronzinhos" da CET.  Só que estes heróicos profissionais quase sequer são citados na matéria. E já é de domínio público que de 60 a 80% das multas aplicadas na Capital são feitas eletronicamente, por radares. As multas por fiscais de carne-e-osso são minoria.  Eu tenho uma reportagem que mostra isso, mas não consigo encontrar. Que pena. ( * )

Pois bem, o que eu chamo de "edição" é simplesmente o seguinte: passei pro primeiro plano aquilo que as pessoas, de modo geral, passam longe. Ou seja, a opinião de especialistas para quem os motoristas são insuficientemente fiscalizados. Enquanto o jornal põe em primeirissimo plano as "multas", eu ponho o "os motoristas fazem o que querem e não sofrem as penalidades". Por isso, a opinião de Horácio Figueira, discretamente colocada à página 3 do referido jornal eu trago a seguir, enquanto a reportagem "principal"... bem, se você quiser lê-la, vai ter que clicar no link, pois não me dignei a transcrevê-la aqui neste limpíssimo blog de família. 

A FISCALIZAÇÃO DEVE SER ALEATÓRIA
Sou a favor da fiscalização aleatória, aquela que não tem ponto fixo de monitoramento. Precisamos de caixas vazias de radar, onde os aparelhos sejam colocados diariamente, após um sorteio. Os agentes de trânsito precisam diversificar os pontos e parar de monitorar o ano todo os mesmos motoristas que passam todos os dias pela mesma via. A redução da velocidade é outro ponto que defendo e nãovejo problema em começar pela região central, onde há um grande fluxo de pessoas. É uma forma de prevenção. O que não pode é parar por aí. A redução tem de chegar a todas as vias da cidade, principalmente nos bairros, onde as chances de ser atropelado são maiores, justamente por não haver fiscalização. A CET conta com o valor das multas porque nós condutores cometemos milhares de infrações [ grifo deste blog ] . A educação no trânsito é importante, mas é limitada. O que vai reduzir o número de acidentes é um conjunto de medidas que, principalmente, tire do motorista a sensação de impunidade existente hoje [ idem ].
( Horácio Figueira, vice-presidente da Associação Brasileira de Pedestres )

Na página P3 da reportagem, fala-se sobre a salutar e bem-vinda redução da velocidade em algumas vias da cidade. [ "Locais violentos não são priorizados pela CETCLIQUE AQUI ]
Eu, pessoalmente, prefiro novamente indicar a leitura do post  "A segurança da baixa velocidade", publicado em 2008 no saudoso Blog do Chicão. 

Por fim: quem acompanha esse blog já leu posts em que mostro a falta de vontade da CET em multar os costumazes meliantes, mesmo quando o cidadão de bem a chama e dá tudinho mastigado à ela: informações, locais, horários etc e, portanto, não se pode falar de "Indústria da Multa" coisíssima nenhuma. Pena que só eu escrevo essas coisas.

A INDÚSTRIA DA MULTA NÃO EXISTE


( * ) Acabo de encontrar uma das matérias a que me referi acima: "36% mais multas foram aplicadas em apenas um ano", publicada no ESTADÃO em 02 de Fevereiro de 2012. Destaco o seguinte. Os grifos são meus. Percebam como "canetada veloz" é uma expressão extremamamente infeliz ( OBS: e hoje, 25 de Outubro, o jornal voltou à carga com o Editorial "Multa S/A", acusando sem provas os marronzinhos de terem recebido da Prefeitura instrução de multar à vontade ) : 

"( ... ) De cada 10 multas aplicadas na cidade, 7 foram por radar. Como consequência, exceder o limite de velocidade e desobedecer o rodízio municipal de veículos continuaram a ser os principais motivos que levaram o paulistano a ser multado em 2011 
( ... ) O crescimento do número de multas na capital paulista supera, em muito, o aumento do número de veículos registrados na cidade. Nos últimos três anos, a frota cresceu de 6,36 milhões para 7,18 milhões de veículos ( 12% a mais ). No mesmo período, o número de multas mais do que dobrou: saltou de 4,6 milhões para 9,5 milhões - ou 106% de aumento. Pelo segundo ano seguido, a cidade teve mais multas aplicadas do que o número de carros registrados ( ... ) Atualmente, a cidade tem 576 radares fixos em funcionamento. Marronzinhos da CET responderam, no ano passado, por 18,8% das multas ( 1,79 milhão ) e a Polícia Militar, por 8,3% (ou 785 mil multas)."



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