quarta-feira, 23 de outubro de 2013

"I know / é o pior time do mundo / but I like it!"




Eles são adeptos do pior clube do mundo ( e gostam )

A claque grita “Vamos lá perder” e sempre que a equipa ganha insulta os jogadores. Esta época, após cinco triunfos já pedem a demissão do treinador

Por Ana Catarina André
SABADO.PT ( site de Portugal )

A 1 de Agosto de 2012, só faltavam cinco jogos para o Íbis, clube de Pernambuco, no Brasil, voltar a bater o recorde de maior número de partidas sem ganhar, que tinha estabelecido entre 1980 e 1984 – foram 1.427 dias e 54 jogos sem vitórias. Contra o Jaguar, os adeptos só admitiam dois resultados: derrota ou empate. Mas tudo mudou quando Nininho marcou o 3-2 da vitória. “O estádio gelou”, lembra à SÁBADO Nilsinho Filho, líder da claque do clube. Irritados, os adeptos decidiram persegui-lo. “Ele quebrou o jejum. Ficámos revoltados e fomos protestar à porta de sua casa. Gritámos ‘Nininho, o mercenário’ e atirámos-lhe moedas.” 

Essa vitória não impediu o Íbis, fundado em 1938, de manter o título de pior clube do mundo, registado no livro Guinness dos Recordes – em 728 jogos oficiais tem 529 derrotas, 107 empates e 93 triunfos, 2.106 golos sofridos e apenas 488 marcados. 

Esta época, as coisas estão diferentes: o Íbis venceu cinco das 14 partidas que disputou e quer subir à 1ª. Divisão estadual de Pernambuco, o que deixa os adeptos furiosos. “Estamos tristes com as vitórias, o Íbis está em crise. É mau se a equipa subir, mas isso vai ter um lado bom. É que depois as goleadas vão ser maiores”, adianta Nilsinho.

No estádio, a claque luta contra o sucesso, gritando slogans como “Vamos lá perder Íbis” ou “Não queremos jogador novo”. E até criaram faixas com mensagens de incentivo aos adversários. “Pusemos setas que apontam a direcção do golo contra o Íbis”, refere Nilsinho que, por ser “muito mau jogador”, fundou a claque em 2011. 

A melhoria da equipa explica-se pelo aparecimento de um financiador, a Funeso, uma fundação do ensino superior da cidade de Olinda. Com o patrocínio, o Íbis contratou jogadores, comprou equipamentos e mudou de treinador. Ozir Júnior, presidente do clube, escolheu o técnico Paulo Júnior, famoso na região por colocar as equipas a ganhar. “Os adeptos queriam que me demitisse porque o Íbis está vencendo”, disse à SÁBADO o treinador. 

Na origem do título de pior equipa do mundo, gravado no emblema do clube, esteve uma cabra, conta Israel Leal, responsável pelo marketing. “Foi por causa de um animal que estava a pastar perto do campo que deixámos de ter financiador”, diz, recordando a história passada em 1979. “A filha do dono da fábrica que apoiava o Íbis foi assistir a um dos jogos e decidiu brincar com a cabra. O bicho ficou assustado e perseguiu-a. Ela entrou no campo a correr apavorada, caiu e ficou seminua no chão com o vestido rasgado. Os jogadores riram-se muito e ela contou ao pai, que não gostou disso e deixou de apoiar o Íbis.”

Sem dinheiro para jogadores, começaram os maus resultados: 48 derrotas e seis empates entre Julho de 1980 e Junho de 1984. Nessa altura, o plantel só tinha amadores que conciliavam o futebol com profissões de áreas como advocacia, engenharia ou comércio. 

Entre os mais mais populares estava Mauro Shampoo, um cabeleireiro do Recife que acabou por se tornar um ícone do Íbis. “Era o camisola 10 como o Pelé, mas só perdia. Só fiz um golo na carreira e, mesmo assim, dizem que foi autogolo”, conta o brasileiro, que esteve 10 anos no plantel, entre 1980 e 1990. “Era só derrotas, por 8, por 9, por 10 golos.” 

Hoje com 56 anos, Shampoo ainda joga nos veteranos do Íbis. Aliás, é uma das principais figuras da estratégia de marketing da equipa que deu origem à marca “Ibismania: Nada pode ser pior”, lançada em 2011. 

Em 75 anos de existência, o Íbis só alcançou três títulos: dois campeonatos de juvenis (em 1948 e 1995) e o título de vice-campeão estadual conseguido pelos seniores em 1999. Das escassas vitórias, Israel Leal recorda uma de 1970. “Estávamos a jogar contra o Sport Recife. Faltavam seis pares de chuteiras para os nossos jogadores e o adversário cedeu-nos o material. Ironicamente, o golo da vitória (1-0) foi feito por um dos atletas que tinha chuteiras emprestadas.”


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