terça-feira, 29 de outubro de 2013

Gentrificação: como a especulação imobiliária altera a cidade


Com a urbanização do planeta, o processo de gentrificação — a expulsão de moradores antigos após a especulação imobiliária em um bairro — tornou-se um dos principais problemas da atualidade

por Rafael Tonon - REVISTA GALILEU

“A gentrificação é o mal urbano da nossa era. É a questão mais premente hoje quando falamos em habitação e urbanismo”, diz o urbanista Alan Ehrenhalt, autor de The Great Inversion and the Future of the American City (A grande inversão e o futuro da cidade americana), lançado no início do ano. Ehrenhalt estuda como as cidades vivem esse fenômeno urbano cada vez mais forte. Em inglês arcaico, "gentry" significa "de origem nobre". Isso já dá uma ideia do que gentrificação expressa. Ela acontece quando um bairro ou uma região tem sua dinâmica alterada pela chegada de novos comércios ou empreendimentos imobiliários que trazem consigo a valorização do local e afetam a população que vive ali, que precisa de mais dinheiro para continuar morando onde sempre morou, o que nem sempre é possível. 

O resultado é a migração dessas pessoas para outras áreas e o fechamento dos comércios menores que resistiam por anos. Não há grande cidade que não tenha passado por um processo gentrificador em alguma região. Apesar de não ser fenômeno novo ( bairros como a Vila Madalena, em São Paulo, ou o Soho, em Londres, são bons exemplos ), ele se tornou mais urgente com aceleração da economia global. 

Muitas vezes o processo é confundido com uma revitalização urbana, principalmente quando acontece de forma velada, gradativa. “A gentrificação sempre fez parte do processo da expansão das grandes cidades. Ela ocorre pelo interesse do setor privado, com a contribuição dos governos por meio de legislações de uso e ocupação do solo e o plano diretor dos municípios”, explica Luiz Kohara, do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo ( USP ). Assim, empreendimentos ressaltam melhorias de acesso e segurança e shopping centers prometem gerar mais empregos na região. Tudo em nome de um bem para a população. “Mas quase sempre com medidas de curto prazo e sem preocupação com os efeitos coletivos, sistêmicos, de cada obra”, diz. 

Há, nesses casos, mais protagonismo da iniciativa privada que do poder público, e o que prevalece não é o interesse da população. “No Brasil, o modelo de desenvolvimento urbano pressupõe uma gentrificação muito mais brutal”, afirma Leonardo Cisneiros, um dos líderes do grupo Direitos Urbanos, do Recife, que se propõe a discutir os problemas da cidade. “São megaprojetos de luxo, completas negações da cidade existente e tradicional, que adotam o modelo de condomínios fechados, totalmente excludentes.” 

Desde 2012, o grupo vem lutando para impedir a implantação do Projeto Novo Recife, que prevê, entre outras medidas, a construção de 15 torres de até 42 andares na área central da cidade, em um terreno do governo federal, que tem localização estratégica na articulação das áreas da cidade e que forma uma das mais belas paisagens ali. “Temos realizado diversas ações contra esse projeto, desde ocupações festivas na área até protestos na Prefeitura e ações judiciais”, conta. 

Em 2011, o grupo organizou protestos na página do Facebook da vereadora autora do projeto, iniciou um grupo virtual de oposição até que fez com que ele saísse da pauta da votação e fosse arquivado. “Depois, saímos das redes, o grupo ganhou força e acabou atraindo a discussão de vários problemas da cidade, entre eles o pedido de tombamento de um edifício e a tentativa de reverter a proposta de um Polo Jurídico na área central da cidade”, diz. 

HIPSTER 
Cunhada pela primeira vez há quase 50 anos pela socióloga britânica Ruth Glass, ao analisar as transformações imobiliárias em determinados distritos londrinos, a expressão foi recuperada por um artigo do geógrafo inglês Neil Smith no começo dos anos 90 que a defendia como um fenômeno social presente nas cidades contemporâneas. 

A polêmica voltou à pauta quando urbanistas e a mídia analisaram um fenômeno recente no bairro de Williamsburg, em Nova York, um dos maiores casos de gentrificação recentes no mundo. Antes um bairro periférico que reunia uma classe de trabalhadores, Williamsburg, a partir de 2010, virou endereço de artistas e jovens que queriam morar melhor por menos. Afastado, o bairro residencial ainda mantinha muitas casas, comércios familiares, uma vida mais tranquila. Em um instante tornou-se hipster: pubs abriram, galerias de arte ( 61 delas, exatamente ) se instalaram, cafés e boates tomaram conta. Parecia um lugar dos sonhos. Exceto para os professores porto-riquenhos, os comerciantes poloneses ou os donos de pequenas tratorias italianas, que viram seu bairro melhorar, é verdade, mas não sem cobrar um preço por isso. Os novos moradores trouxeram com eles o interesse de grandes empresas em construir ali grandes condomínios, filiais de suas lojas de luxo de Manhattan, unidades de negócios de suas agências. E os preços do bairro passaram por uma brusca valorização. 

Makis Antzoulatos, recém-egresso a Williamsburg, resolveu reunir amigos e novos moradores para criar um movimento que pudesse conter essa valorização desenfreada. Batizado de Gentrifiers Against Gentrification ( Gentrificadores contra a Gentrificação, uma boa autocrítica ), o grupo se imbuiu de organizar reuniões com os antigos moradores e entender suas necessidades. Passou a ajudar a comunidade a pressionar a polícia por mais rondas noturnas e se envolveu na greve dos operários locais buscando referências em leis trabalhistas. “Queremos todos os serviços, mas não que todos que já moravam aqui tenham que pagar caro por isso. Infelizmente, é um pacote”, afirma Antzoulatos. 

BULEVAR 
Em casos em que há omissão do poder público em desenvolver um plano de urbanismo de longo prazo, o conflito pelo território encontra formas de se estabelecer. Em algumas vezes, de forma pacífica. A Rua dos Pinheiros, em São Paulo, é um destes casos. Desde que uma estação de Metrô passou a ser construída na área, entre 2005 e 2006, muitos comerciantes abandonaram o local. Eles perderam clientes para frequentar seus estabelecimentos por conta da interdição de acesso à rua e porque as obras de melhoria ajudaram a valorizar a região, influenciando na migração desses comerciantes. “O risco de valorização está presente em qualquer projeto de melhoramento das condições de vida de um local. Ninguém vai defender a falta de investimento numa área para evitar sua valorização”, defende Jason Patch, professor de Sociologia Urbana na Universidade Roger Williams, em Rhode Island, nos EUA. 

Um novo capítulo começou quando, há quatro anos, restaurantes e empreendimentos de gastronomia começaram a abrir na região, e muitos dos comércios antigos acabaram por fechar suas portas. “O chaveiro, o sapateiro e outros pequenos comércios que eu frequentava aqui já não existem mais. Houve uma homogeneização comercial da rua, que perdeu essa diversidade que tinha há alguns anos”, afirma Joana Amador, moradora desde 2004 — o imóvel onde mora teve uma valorização de 500% nesses quase 10 anos. 

Logo abaixo do seu prédio, funciona uma autoelétrica, que hoje está com uma placa de “aluga-se” , e um bistrô. Se a princípio a vinda de restaurantes trouxe movimentação e segurança para a rua, principalmente para seu quarteirão, que era bem escuro, uma das consequências negativas foi o fluxo desorganizado na via. 

“Não há lugar para estacionar quando um amigo vem nos visitar. E houve uma certa apropriação da calçada, tanto com restaurantes colocando mesas de forma a obstruir a passagem até os vallets, que entram e saem das garagens sem se preocupar com a segurança”, explica. “A rua tem um potencial enorme, com calçadas largas, comércio para as pessoas andarem a pé, mas a Prefeitura não está se organizando para isso”, completa. 

A Associação de Moradores e Empresários de Pinheiros ( Amapi ) quer fazer da rua um bulevar, com calçadas padronizadas, baias para estacionamento, bancos e árvores plantadas em 1,7 km de via. A expectativa é que o projeto saia do papel até 2014, quando a Estação Fradique Coutinho do Metrô for inaugurada. As melhorias devem trazer ainda mais gentrificação para a área, é verdade. Mas pode melhorar o convívio de comerciantes e moradores.

O desafio continua: como recuperar uma área, atrair moradores e evitar a expulsão da população que já habita o local? “É uma equação difícil: garantir o acesso justo aos cidadãos mais carentes e dinamizar a economia”, afirma Leonardo Cisneiros, do grupo Direitos Urbanos. Uma política mais complicada que a da boa vizinhança. 

Nem sempre é possível frear a gentrificação. Na China, país que conta com uma superpopulação de 1, 3 bilhão de habitantes, as transformações do espaço urbano são constantes: escavadeiras arrasam aldeias que datam de antigas dinastias, torres brotam das planícies, novas escolas e hospitais urbanos são construídos às custas da destruição de antigos templos e teatros a céu aberto no campo. Até 2025, a China pretende transferir cerca de 250 milhões de moradores de áreas rurais para cidades recém-construídas. 

Entre desapropriações e brigas judiciais, alguns chineses resistem e não abandonam suas casas. Assim surgem as casas-prego, neologismo que designa residências que permanecem solitárias encravadas em uma paisagem urbana totalmente modificada. O processo gentrificador ocorre, e elas permanecem ali, ilhadas em meio a estradas ou terrenos desapropriados, o mais significativo ( e talvez mais triste ) símbolo de uma falta de planejamento urbano. 


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