quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A força da opinião pública ( ficção )


Jesualdo trabalhava há uns bons pares de anos naquela banca de jornais em São Paulo. O estabelecimento se localizava na Zona Oeste de São Paulo num bairro de classe-média pretensamente ilustrada, e possuía uma boa clientela. E, por extensão, um bom faturamento.

Certa vez apareceu lá um sujeito, doravante denominado CRAPPC, ou "Consumidor Respeitável Apenas Pela Posição de Consumidor" até que eu mude de idéia:
- Tem a XXXX ( nome da publicação ) desta semana?
- Tem. Aqui., respondeu Jesualdo

O CRAPPC olhou a capa, deu uma folheada na revista e já foi comentando, sem que tenha sido solicitado:
- E esse escândalo, heim?

Safo e macaco velho que era, Jesualdo, funcionário da banca, nem se fez de rogado. Fingiu que não escutou. Apenas respondeu:
- São dez reais e noventa.

O CRAPPC encarou Jesualdo, tirou a grana do bolso, pagou, pegou a revista e foi embora. 

No sábado seguinte, a cena meio que se repete. O "escândalo" na capa da revista, o comentário "amistoso" ( e não solicitado ), a encarada, etc.

No sábado posterior, o mesmo filme. Só que, em vez de aceitar a "ignorada" de Jesualdo, o CRAPPC resolveu demonstrar sua insatisfação. Foi lá dedurar pro chefe de Jesualdo, quando este último saiu pro horário do café:
- Bom dia...
- Bom dia!
- O senhor é o proprietário do estabelecimento? 
- Sim, sou. Em que posso ajudá-lo?
- Esse seu funcionário...
- O Jesualdo? Que que tem?
- Ele não atende o cliente bem.
- Como assim? O que ele fez? Maltratou o senhor?
- Bem... Não. Quer dizer, a gente fala com ele e ele não responde.
- Mas como assim?

Então o cliente e cidadão de bem, que foi lá fazer a caveira do funcionário sub-remunerado, queixou-se de ter sido "ignorado". Justo ele, um cliente de prestígio, uma referência no bairro, um pilar de nossa sociedade, uma bússola moral da Nação...

- Mmmm. Então o senhor fez um comentário sobre a matéria da revista e o Jesualdo não respondeu? Isso é muito sério...
- Não é? Pense bem. As empresas fazendo das tripas coração para crescer no mercado. Você tem que cativar o cliente. Tratá-lo muito bem. Tem que dar atenção irrestrita. Conversar e ser todo ouvidos. PRINCIPALMENTE ser todo ouvidos...

( Em resumo: bajular essa gente )

O patrão entendeu o recado:
- Pode deixar, senhor...
- ... DOUTOR Rebouças!
- Sim, certo, doutor Rebouças! Eu vou falar com ele! Da próxima vez não haverá próxima vez! Cliente a gente tem que tratar como rei.
- Isso mesmo! É isso que eu quero ouvir. Tenha um bom dia!

Jesualdo volta do café e o patrão dá-lhe a reprimenda. Os clientes [ sic ] estão reclamando do comportamento de Jesualdo [ sic, sic ]. Tem que dar atenção irrestrita. Conversar e ser todo ouvidos.
Jesualdo questiona:
- Foi aquele velho chato, que veio me encher com aquela capa da revista? 
- Sim - respondeu o patrão -, quer dizer, não! Foram umas pessoas aí...
- Mmmm, sei. Olha, "essas pessoas aí" vão me desculpar, mas eu não quero saber de conversa. Tô nessa profissão há anos e eu sei muito bem que discutir com freguês não dá certo. Você fala "x", ele fala "y", cada um defende seu lado, e fica maior troço chato. Não dá certo. E você sabe que eu nem gosto muito de papo. Só serve pra atrasar o serviço.
- Ó, Jesualdo, tem que conversar e dar atenção pro freguês, digo, pro cliente.
- Mas eu já não faço isso, não dou atenção? Minha conduta é exemplar. Até a Dona Virgulina, casca-de-ferida total, já me elogiou.
- É, que seja. Mas estão reclamando e eu quero ver você melhorar seu comportamento. Os tempos estão difíceis e...
- Tá, já sei, já sei.
- Não vem com rebeldia! Ele é um senhor muito distinto. Se ele falar mal da gente por aí, vai queimar o filme da banca. Esses caras têm um poder de convencimento muito forte.

No outro sábado, doutor Rebouças aparece logo cedo e pega a sua XXXX. Olha a capa, que fala do novo escândalo e comenta na maior cara-de-pau pro Jesualdo:
- Essa turma não tem jeito, heim? Tão aí, ó, só roubando.
Dessa vez, Jesualdo responde.
- Tem razão!
- Não é verdade?
- Tem toda razão!
- Só cadeia pra eles, heim?
- Nunca vi nem ouvi tanta razão vinda de uma só pessoa.

Sim. Jesualdo estava concordando caricatamente com tudo o que Rebouças, digo, doutor Rebouças dizia. Se este elogiasse Hitler o jornaleiro assentiria sem pestanejar. 
E doutor Rebouças não demorou para "pescar" isto. E, como bom dedo-duro, voltou a se queixar ao patrão de Jesualdo. Aquilo não podia continuar assim. Doutor Rebouças adorava um palanque. Adorava ser o centro das atenções. Adorava debater e, assim, pavonear-se de seus conhecimentos. De preferência com alguém que ele, dr. Rebouças, julgasse aquém de suas capacidades intelectuais. Não entrava no jogo para perder. 

E o patrão de Jesualdo foi lá falar com o funcionário. Pôxa, a freguesia, digo, a clientela está bastante aborrecida com este comportamento rebelde do Jesualdo. 
- Vê lá, heim? - advertiu o patrão do Jesualdo.
- Tá bom, tá bom!

Veio outro sábado. E doutor Rebouças veio todo serelepe. Escutou a propaganda de sua revista predileta no rádio. A edição desta semana estava bombástica. Agora o governo dos ladrões cai, sem apelação.
- Você não acha?, pergunta a Jesualdo.

Com um olhar piedoso, Jesualdo fita o cliente. Suspira. Faz um "Tsk!". Olha pro chão, depois pra gaveta do caixa. Depois pro cliente e, em seguida, pro pote de doce de banana. Suspira novamente. Respira fundo e...
- Não, não acho.
- C-como é?, assustou-se o freguês. Como ousa?

E Jesualdo passou a desfiar um rosário de argumentos que demoliam cada vírgula da argumentação de doutor Rebouças. A cada "Ah" que doutor Rebouças emitia sofregamente, recebia uma saraivada de argumentos contrários, sólidos e demolidores. Irresistíveis e irrefutáveis. Jesualdo parecia, tipo, o Mike Tyson no auge. Mal dava tempo do doutor Rebouças se recuperar de um golpe, recebia dois ou três mais potentes na sequência.
"Surra" é uma palavra polida pro que ocorreu. Uma chacina. Que não teria ocorrido, se doutor Rebouças tivesse deixado Jesualdo quieto em seu lugar.

Como não poderia ser de outra forma, doutor Rebouças tornou a se queixar com o patrão de Jesualdo, reclamando que seu funcionário gostava de ficar discutindo com os clientes, e isso não era bom pros negócios.

- Pode deixar que eu vou falar com ele!
- Tem que falar, e logo. Senão o senhor vai acabar perdendo toda sua freguesia.
- É...

Doutor Rebouças continuou comprando naquela banca, só que fora do horário de Jesualdo. Este, por sua vez, pouquíssimo tempo depois dos fatos narrados acima, pegou suas economias, comprou uma banca na rua de cima e, com o passar do tempo, roubou toda a freguesia do antigo patrão. Só o doutor Rebouças continuou fiel ao ex-patrão de Jesualdo.

Os negócios de Jesualdo vão muito bem, e a clientela já sabe:
- Aqui eu só converso amenidades. Se quer, quer, se não quer, tem a banca de baixo.

E o ex-patrão de Jesualdo tem que ficar aguentando a conversa cacete do doutor Rebouças. Um sujeito que ninguém no bairro gosta, aliás.


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