quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Venceslau e o esquema ( ficção )



Venceslau era engenheiro ou coisa do tipo. Ele trabalhava há cerca de 40 anos na mesma empresa, uma gigante da construção. Ou da engenharia, não sei ao certo.
Zeloso e responsável, xodó dos superiores, Venceslau construiu para si a reputação de sujeito honesto e justo. Mas aí não estamos mais falando de carreira profissional.
Nas conversas que travava, tanto na vida profissional como na pessoal, Venceslau se mostrava alguém muito preocupado com as desventuras pelas quais o país passava - e passa até hoje. Praguejava contra os corruptos, amaldiçoava a roubalheira, se enervava com os desmandos que, todos sabem, imperam nesta nação tropical, Venceslau passava a imagem de alguém intolerante com a podridão, com essa molecagem que tem por aí.

Tudo quanto era corrente, email, abaixo-assinado, petição e o escambau, que tivessem por objetivo declarado combater a roubalheira horrososa que campeia nas instituições - sobretudo na política - Venceslau assinava e repassava. Ele se considerava um cidadão bastante consciente, "ao contrário" - dizia ele - "dessa gente que, na hora de votar, troca a decência e a dignidade por essas bolsas esmolas e mensalões".
O discurso de Venceslau impressionava muita gente:
- Se você se candidatasse, meu voto já era seu!
- Ora, o que é isso...?
- Sério. Você diz as verdades. O país precisa de mais gente igual você!
- Puxa, nem sei o que dizer...
- O pessoal até já te chama de "Elliot Ness" hahaha...
- Ora, puxa... - responde, enrubescendo, Venceslau.

Certo dia, Venceslau foi à banca de jornais - seu palanque predileto, onde ele, com o discurso já decorado, fingia estar lendo capas de jornais para, assim, abordar os desavisados que também se postavam para ler as manchetes - e deu de cara com mais um escândalo:
"ROUBALHEIRA NOS TRENS. GOVERNO FICA NUMA SINUCA DE BICO", dizia a manchete.

"Aí, tá vendo só? Esses políticos que ficam recebendo propinas e..."

Seu pensamento foi interrompido na linha seguinte. Ao contrário do que se tornara a praxe, todos os jornais estavam mostrando o nome dos corruptores. Destacou-se a informação de que certa empresa de engenharia - ou construção, ainda não decidi - foi o agente corruptor da trama toda.
Isso deu um nó na cabeça de Venceslau. Na calçada, as pessoas comentavam a notícia. Todos mencionavam a participação ativa da companhia no esquema todo.
Eu não preciso dizer - pois o distinto público já sacou - que a companhia que corrompeu os políticos nesse caso é, exatamente, a empresa onde trabalha, há mais de 40 anos, o nosso querido Venceslau.

Isso deixou Venceslau bastante chocado. Em todos esses anos ele jamais tinha se dado conta de que a existência dos corruptos exige a existência de corruptores. E os corruptores, dessa vez, são os patrões de Venceslau. Venceslau se sentiu sujo. Tanto dinheiro rolando nessas obras, a sonegação, os favorecimentos, o jogo de cartas marcadas, o desvio de verbas públicas...
Que podridão! Bem debaixo do nariz de Venceslau, o incorruptível. Ele não tinha notado que a empresa à qual dedicou todo seu esforço e vigor vivia regiamente às custas de dinheiro público desviado. Montanhas e montanhas de grana suja.. E agora, como continuar trabalhando nesse lugar, diante do novo quadro? Uma questão espinhosa, que Venceslau trataria de resolver imediatamente. Não dava para compactuar com aquilo!

No dia seguinte, um resoluto Venceslau bateu à porta do chefe do setor:
- Entra, Venceslau! A hora não é boa, mas você eu atendo!
- Bom, seu Campos, eu vou falar sem rodeios!
- Desembucha!
- Eu fiquei sabendo desse caso .Aliás, tá todo mundo sabendo! A imprensa tá batendo na gente pesado!
- É, eu sei!
- Eu trabalho aqui desde o tempo do seu Mário. Já passamos poucas e boas. O que ele deve estar pensando disso tudo?

Seu Campos olha pro quadro de Seu Mário, o fundador e dono da companhia, falecido há uns 25 anos, do coração. Seus filhos passaram a comandar a companhia após o passamento do velho, adotando as novas filosofias administrativo-gerenciais, as mais modernas que surgiram no mundo empresarial. O chefe desvia o olhar do quadro, com vergonha de encarar os olhos de Seu Mário. E responde a Venceslau:
- Nem sei o que dizer. Essa situação é muito constrangedora.
- E eu, prossegue Venceslau, que estou há tantos anos na empresa, sempre agindo com responsabilidade, cumprindo minhas obrigações, numa relação de lealdade com a firma. Aí descubro que a empresa - que nós! - é sustentada por caminhões e caminhões de dinheiro público desviado, de recursos roubados, na base do troca-troca e do conchavo!

O chefe ouve quietinho. Respira fundo e suspira. Olha de volta para o bom e velho Venceslau. Um funcionário-padrão, orgulho da casa. Um coração de ouro. O colaborador que toda empresa gostaria de ter em seus quadros. E responde:
- Entendo completamente seu ponto de vista, Venceslau! Todos conhecem sua reputação. Por isso, mais do que com qualquer outro funcionário, e empresa tem uma dívida com você, uma dívida de gratidão. Por isso, se você quiser ser demitido, pegar todas as suas indenizações integralmente, e quiser ajuda para conseguir uma recolocação no mercado, ou agilizar sua aposentadoria, a hora é agora... Pode fazer sua proposta que a empresa vai bancar. Você quer a demissão?
- Que demissão nada, Seu Campos! Agora que a firma tá bem de grana e os cofres enchendo como nunca, eu quero é conversar sobre um aumento substancial! Eu lá vou abanonar um time que tá ganhando?


.

Nenhum comentário :

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails

Golpe