domingo, 4 de agosto de 2013

A "Lei do mais forte" na pré-história ( conto )



Essa história rolou nalgum lugar e época que vou fingir que é a pré-história. Poderão participar - ou não - dinossauros, o que será uma heresia, do ponto de vista correto dos especialistas. O vulgo popular se acostumou a achar que a pré-história foi aquilo que viamos nas tiras do Brucutu ou no desenho dos Flintstones.

Grunto vinha se arrastando, mal conseguindo carregar junto sua clava, há milhas, por aquela terra desolada, onde o Autor cismou de colocá-lo. Vinha se arrastando sob aquele Sol abrasivo, sedento e tendo que se proteger de criaturas vorazes. Não havia comida e nem água. Nem uma mísera sombra sequer. Se existisse Deus naquela época, Grunto tentaria pedir-lhe alguma ajuda.
Fez, a sua maneira, uma prece. Ou uma imprecação:
- Grumorrr horaarrrhghgh!

Bem, não havia Deus, mas havia um Autor magnânimo.

Do nada, Grunto topou com uma espécie de oásis. Estava salvo, pelo menos por enquanto. Grunto exultou:
- Grumorrrorhgggrh!! Groanmandhhgh ghhrrllrh!
Grunto reagrupou forças e acelerou na direção do oásis.
Chegando lá, viu uma espécie de mina d'água e correu em sua direção. Aproxiumou-se e jogou-se ao chão, quase deslizando, e estendendo os braços na direção da água. 
Mas...
Quase trombou com algo. O que seria?
- Opa!
- Opa! Opa!
( A partir daqui, as falas serão traduzidas para facilitar o entendimento )

Grunto, e outro homem das cavernas - ou pré-histórico, sei lá eu - chegaram à fonte de água ao mesmo tempo. Os dois, sedentos e em pandarecos. Os dois nas mesmas condições horríveis. Nasceria ali uma empatia imediata entre os homens em situação tão desesperadora.

Ambos se assustaram um com a presença do outro, mas não era hora disso. Os dois ajoelharam-se e passaram a beber da água gelada e pura. Silenciosamente. Mas um olho na frigideira outro no gato, como se diz.
Beberam, arrotaram, e despejaram seu peso no solo. Descansaram sob a sombra. O cansaço os tornava inofensivos, essa é que é a verdade.

Horas depois, já noite, despertaram. Bromunus ( o nome do outro sujeito ) abriu os olhos, para ver que Grunto estava de pé diante dele, estudando-o. Grunto apresentava uma fiosionomia melhor, mais descansada. Bromunus também já se sentia bem melhor. Sem se levantar, Bromunus olhou para Grunto e disse, simpaticamente:
- Bem, meu velho, acho que nos salvamos de boa, heim?
Grunto nem piscou. Na verdade, estava encarando Bromunus. Este prosseguiu:
- Eu sou Bromunus, e venho viajando desde lá das terras do Norte, das terras do grande vulcão. E você?
- Sou Grunto, resmungou Grunto, monossilábico. E me dirijo pras terras do Norte.
- Sabe, Grunto... Nas minhas viagens não achei lugar melhor que este aqui. Não tem nada lá no Norte, por isso minha gente saiu de lá, cada um numa direção. Espero que não tenham passado o mesmo que eu.
- Hm, sei. - respondeu Grunto cuja  fisionomia não estava  nada amistosa - Então não tem nada lá?
- Nadica. Não perca seu tempo. Aliás, nossos sábios previram que toda a região desaparecerá em brave, devido a uma erupção devastadora do grande vulcão. Por isso minha gente deixou o local. 
- Hmmm, isso é mau, pensou Grunto.
- Bom, Grunto, eu não sei quanto a você, mas decidi que vou ficar por aqui. Notei que a terra pode ser cultivada. Já existem árvores como frutas, como aquela ali. E esse excelente estoque de água. 
- Roar, quanto a mim..., respondeu Grunto, cujos olhos passaram a brilhar um brilho estranho, eu vou ficar aqui também...
- Puxa, mas isso é muito bom!, exultou Bromunus. Juntos, levantaremos a moradia, cultivaremos o solo, caçaremos e nos protegeremos mutuamente das ameaças dessa maldita terra pré-histórica!
 Lembram que escrevi acima que "nasceria ali uma empatia imediata entre os homens em situação tão desesperadora"? Então: EU MENTI!

- Sim, huahuahua! Faremos isso...
- Então...
- Na verdade, "amigo", VOCÊ FARÁ!
- Er, como assim? E você fará o quê?
- HEHEHE! Eu mandarei e você obedecerá!
- Oras, mas como?
- Simples, "amigo". Eu sou maior, mais forte, e tenho esta clava aqui. Enquanto você é mirrado, fracote e tem só esse pedacinho de pau que só serve para eu palitar meus dentes.
- Não! Você não pode! Temos que nos ajudar! Você não pode me escravizar!
- Não tem nada me proibindo de fazer isso hahaha!
- Estou avisando! Você não vai querer fazer isso!
- HUA HUA HUA! Está "me avisando", seu inseto insolente? Pois bem! Você não apenas vai me servir e trabalhar para mim, como acabo de decidir que também servirá de diversão e relaxamento na minha rotina diária! A começar de agora!
Terminou de dizer isso com a mão nos bagos, e avançou na direção de Bromunus, que tentou uma última vez:
- Tem certeza? É meu último aviso!
- HAR HAR HAR! Baixa a tanga aí que eu vou mostrar o aviso!
- FIUÍÍÍÍÍÍÍÍ
Era Bromunus assobiando.
- FÍÍÍÍÍUUÍÍÍÍÍÍ!
- Ui, olha o biquinho dele, zombou Grunto. Vem fazer biquinho aqui, ó. E...
Nem terminou de falar. Sentiu um golpe que o jogou uns três metros de distância.
- Mm...mmas o q-q-quêê...? Uh!
Um gigantesco e colossal homem - parecido com o Java, amigo de Martin Mystère -, mais pré-histórico que Grunto e Bromunus, estava diante de Grunto. O monstrão já se preparava para dar outro ataque contra Grunto, mas foi detido por Bromunus:
- NÃO, BELZAR! CHEGA!
Ainda tonto com a pancada, Grunto pergunta a Bromunus:
- Belzar? Quem? Onde?
- É, meu velho "amigo", eu esqueci de dizer que tinha um acompanhante e protetor comigo.
- E-ele?
- Sim. Sabe como eu o conheci? Eu vinha caminhando e ouvi um urro lamentoso. Era Belzar - eu o batizei assim - que tinha espetado o pé num espinho e não conseguia tirá-lo. Eu o ajudei. Belzar não fala nossa língua direito, mas sabe se comunicar muito bem por meio de gestos e alguns urros. Sua tribo foi devastada por uma manada de tricerátops ensandecidos e, desde então, ele vaga por aí. Após eu tê-lo ajudado, ele decidiu me acompanhar em minha jornada. Ele é um grande contador de piadas, inclusive. 
- M-m-mas...
- Vínhamos juntos. Ao chegarmos ao alto daquele morro avistamos o oásis e decidimos que eu desceria e ele ficaria por perto, de campana, só se apresentando no momento que fosse certo. Aí você decidiu me atacar...
Grunto percebeu que estava encrencado. Tentou uma manobra diversionista:
- "Atacar"? Oras, velho amigo...eu estava só brincando... HáHáHá? Não viu? Brincadeirinha...
Mas Bromunus não estava sorrindo. Nem Belzar.

Bem. Hoje o oásis é um importante entreposto comercial e ponto de descanso para viajantes, chefiado por Bromunus. Grunto trabalha ali de forma quase escrava mas, apesar de ter tentado fazer o mesmo com Bromunus, é tratado de forma até bastante digna. Além do trabalho diário, Grunto também serve de diversão e relaxamento para Belzar, um sujeito realmente forte.


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