domingo, 21 de julho de 2013

First World News em: As coisas não têm ido muito bem no Império



Tent-cities: a favelização no coração do capitalismo

Quem pensa que favela, cortiço, barraco de lona e papelão é uma realidade específica dos países da periferia do capitalismo como o Brasil pode começar a rever seus conceitos. Esta chegou ao Estados Unidos, tem o nome de tent-city (cidade-acampamento), as cores vibrantes do nylon das barracas e os mesmos problemas de sua equivalente no Brasil. A favelização americana é o resultado cada vez mais visível da precarização das condições de vida e trabalho nos Estados Unidos e seu surgimento se deu em várias partes do país, especialmente a partir de 2005. São cidades-acampamento que funcionam como abrigo para moradores de rua e trabalhadores desempregados especialmente em regiões metropolitanas, mas também em áreas rurais e florestais das grandes cidades.

Interessante notar que essa não é a primeira vez em que os norte-americanos enfrentam a favelização. As tent-cities possuem como referência histórica as “Hoovervilles” (nome dado em referência ao então Presidente Herbert Hoover), acampamentos criados espontaneamente e por iniciativa da administração pública nos difíceis anos 1930. Uma das cidades-acampamento surgidas na época, “Weedpatch Camp”, situada na Califórnia, aparece retratada pelo romancista John Steinbeck na famosa obra As vinhas da ira, de 1939, que narra a história de uma família de agricultores arrendatários que é expulsa do campo durante a Grande Depressão e, sem ter onde morar, acaba por se juntar a este acampamento.

Estima-se que existam hoje por volta de 30 cidades-acampamentos em todo o país, reunindo centenas de pessoas, mas esse número não é estável, já que muitas são fechadas pela polícia enquanto outras surgem todos os anos. Em um documentário realizado em 2012 para retratar a história de “Camp Take Notice”, cidade-acampamento situada em uma área de auto-estrada de Ann Harbor (no estado de Michigan), o jornalista e professor da Universidade de Michigan, Anthony Collings, se deparou com a situação da maioria dos acampados: abandono pelo poder público, efêmera e demagógica visibilidade de seus problemas pelas empresas midiáticas e luta cotidiana contra a degradação humana.

O acampamento Take Notice (em português, “Olhe para nós”) surgiu em 2008 composto por entre 20 e 70 pessoas, a depender da estação do ano, majoritariamente desempregados da classe trabalhadora ou classe média empobrecida após a crise e alguns veteranos do exército norte-americano. Em seu documentário, “Take Notice: um acampamento para desabrigados”, Collings buscou retratar a trajetória de homens e mulheres que procuravam a cidade-acampamento como uma forma de sair das ruas, procurar emprego ou ainda conseguir voltar a pagar aluguel para morar.

De acordo com estudo realizado em 2008 para a Conferência de Prefeitos do Estados Unidos, as três maiores causas da existência de desabrigados no país são a falta de moradia à preços acessíveis, a pobreza e o desemprego. Dados do Departamento de Habitação estimaram, em 2010, a existência de quase 700 mil pessoas desabrigadas no país, valor 20% maior do que em 2007. Nesta estimativa, é significativa a presença de homens negros e jovens e, no caso de famílias desabrigadas, de jovens negras mães solteiras. Além disso, se for considerada a parcela da população que depende diretamente dos subsídios do governo, o cenário de pobreza no centro do capitalismo se torna bem mais complexo. De acordo com o Departamento de Agricultura, em 2012, 46 milhões de pessoas usufruíram de algum tipo de subsídio alimentar mensal (os chamados foodstamps), crescimento espantoso se comparado aos 17 milhões contabilizados em 2001 e aos dois milhões em 1969. Os dados apontam, ainda, que entre os 41 milhões de cidadãos americanos que alugam sua moradia, mais de 10% participam de algum programa de assistência à moradia, somados à mais de 2 milhões de família que usam vouchers oferecidos pelo governo para custear moradia e aos 4,4 milhões de americanos favorecidos por algum tipo de auxílio desse tipo em áreas metropolitanas.

O acampamento de Ann Harbor foi fechado pela polícia em junho de 2012, com a remoção de todos os seu moradores e o cercamento da área à beira da estrada. De acordo com Collings, “alguns dos maiores problema enfrentados pelos moradores de Take Notice eram o alcoolismo e a rejeição da comunidade ao redor do acampamento”. Tampouco os dois principais partidos políticos dos Estados Unidos, Republicano e Democrata, manifestaram qualquer tipo de apoio aos acampados que, após a remoção, retornaram para as ruas e abrigos temporários. Além disso, sinaliza Collings, apesar de surgir como clara consequência da crise econômica e do desemprego que assola o país, os acampamentos “ainda são vistos pela opinião pública como agrupamentos de ‘desocupados’ e criminosos”.

Assim como nas favelas e ruas brasileiras, o papel do trabalho filantrópico de igrejas e Organizações Não Governamentais aparece como forma imediata de intermediar certos auxílios públicos, a inserção nos abrigos locais e todas as formas de ajuda comunitária. Porém, este trabalho é incapaz de orientar a conquista de moradia digna e trabalho, realidade que não parece incomum aos brasileiros. Da mesma forma como no Brasil, a solidariedade é uma marca da vida nas tent-cities, nascida da luta contra à repressão policial e da experiência do coletivismo.

De cidade-arsenal à cidade fantasma
Em 1941, durante a II Guerra Mundial, quando o sucesso dos Estados Unidos no conflito não era um fato, circulava nas altas rodas dos dirigentes políticos e grandes capitalistas norte-americanos a expressão: “Nós temos Detroit”. Com isso, faziam referência à vantagem que o país poderia adquirir no conflito dado o enorme complexo industrial e a força de trabalho ali concentrada, bem como a possibilidade de converter rapidamente a produção metalúrgica, especialmente automobilística, em produção de armamentos e tanques de guerra. A força da capital do estado de Michigan era a força da indústria, e esta era o centro da potencia em que se convertiam os Estados Unidos. A recuperação econômica da crise que estourara em 1929 coincidia com o tempo de guerra, e Detroit era considerada a esperança produtiva e tecnológica dos Estados Unidos, em um ciclo de crescimento que perduraria até meados dos anos 1970 e a crise do petróleo.

Em 2013, Detroit não é senão a sombra do seu passado. Aliás, quase uma espécie de assombração nacional. A profunda e progressiva desindustrialização pela qual os Estados Unidos passou a partir dos anos 1980 e seu caráter crônico depois da crise financeira de 2007, atacou a cidade-automóvel em cheio. Dados do Bureau of Labor Statistcs mostram que na região de Detroit, a taxa de desemprego, atualizada em maio de 2013, é de 9,3% da força de trabalho, bem superior ao índice nacional. Além da destruição do parque industrial, a profunda crise fiscal local e a recente crise imobiliária levaram à migração da força de trabalho para outros estados, desertificando partes inteiras da cidade.

Entre 2005 e 2009 os fotógrafos franceses Yves Marchand e Romain Meffre percorreram Detroit semanalmente, fotografando prédios, hotéis, delegacias de polícias, igrejas, bibliotecas e teatros completamente vazios e destruídos. As imagens impressionantes de uma grande cidade fantasma deram origem ao livro “Detroit em ruínas”. Este, nas palavras dos fotógrafos, revela fotos de “uma cidade abandonada para morrer”. Em nada se parece com a cidade na qual, em 1913, Henry Ford montou sua primeira planta para produção do modelo Ford T e para a qual contratou 90 mil operários. Hoje em dia, a mesma companhia contrata pouco mais da metade deste número e é a principal empregadora da região.

O povo do abismo
Há cem anos atrás, em 1913, o romancista e jornalista norte americano Jack London publicou pela primeira vez o livro reportagem “O povo do Abismo” sobre os dias em que viveu ao lado de moradores de rua e frequentadores de abrigos em Londres, capital da maior potência econômica da época. Neste, anunciou o que percebera como uma realidade perfeitamente harmoniosa ao centro do capitalismo: “eu encontrei uma condição crônica de miséria que nunca é resolvida, mesmo nos períodos de grande prosperidade”.

Passados mais de cem anos, é notável perceber que a vida miserável continuou parte constitutiva do centro e da periferia do mundo capitalista, bem como sua ampliação nestes tempos de crise. No período mais recente, em especial depois da crise econômica internacional iniciada em 2007, é perceptível o crescimento no coração dos Estados Unidos, país mais rico e poderoso do planeta desde a II Guerra Mundial, do mesmo “povo do abismo” com o qual London conviveu nas praças inglesas do início do século passado.

De acordo com o último Censo (2011), 14,3% da população norte americana vive abaixo da linha da pobreza (pessoas que vivem com menos de um dólar por dia), o que equivale a 40,9 milhões de pessoas. Outro fator importante é a diferenciação geográfica e racial da vida pobre nesse país. Os dados oficiais mostram que a população negra, equivalente à 12,3% dos habitantes país, é maioria relativa entre os mais pobres, 36%. A população branca, ao contrário, equivalente à 74,2% do total de norte-americanos é apenas 41% da população mais pobre.

Esses dados sinalizam, guardadas as devidas proporções, que é possível estabelecer marcos de comparação razoáveis entre a economia norte-americana e o desenvolvimento desigual das economias periféricas do mundo. Além da pobreza, a economia norte-americana enfrenta hoje o fantasma do desemprego e do subemprego, que pressiona paulatinamente a qualidade de vida e estabilidade da população. Segundo o Bureau of Labour Statistics, com uma população de 308 milhões de habitantes, entre os quais apenas 241 milhões compõem a força de trabalho, os Estados Unidos enfrentou um crescimento paulatino da taxa de desemprego nos últimos anos. Esta chegou a atingir 10% em 2009, bem superior aos números da década anterior, quando oscilou entre 4 e 6%.

Apesar de uma pequena recuperação no último ano, os índices de desemprego não caíram abaixo dos 7,3% desde o início da crise. Mesmo entre os economistas reunidos no Fórum Econômico Mundial em Davos está clara a divisão de opiniões nos últimos anos a respeito de uma possível retomada da situação de emprego anterior e da liderança internacional para saída da crise. Ao que tudo indica, a favelização do Império e a ampliação de seu abismo social veio para ficar.


E MAIS:

O espelho incômodo
Por três décadas, o jornalista Oale Maharidge e o fotógrafo Michael S. Williamson viajaram pelos Estados Unidos em busca de um retrato da classe trabalhadora. Encontraram uma América faminta e desesperançada
CARTA CAPITAL (*) , mas extraído do Blog ATENDIMITI

DALE MAHARIDGE está assombrado com a facilidade de encontrar motivos para desespero na América atual. “E só ir à rua e prestar atenção” escreve em Someplace Like America: Tales From the New Great Depression, livro-reportagem sobre o empobrecimento da classe trabalhadora nos últimos 30 anos. Para Maharidge, os Estados Unidos não entraram numa recessão em 2008. O país estaria mergulhado em uma crise socioeconômica constante desde o início dos anos 1980, quando o presidente Ronald Reagan proclamou uma frase emblemática: “O governo não é a solução para o nosso problema, o governo é o problema”.

Acompanhado pelo fotógrafo Michael S. Williamson, Maharidge viajou mais de 800 mil quilômetros nas últimas três décadas. Ao longo do trajeto, dormiu ao lado de andarilhos em trens de carga, entrou em casas arruinadas onde agonizaram viciados em drogas, conversou com moradores de tent cities, habitações precárias à beira de rios. Ele percebeu em diferentes histórias uma luta comum pela preservação da dignidade em meio à extinção de empregos e ao encolhimento dos salários.

O compositor Bruce Springsteen escreveu a introdução da edição em brochura de Someplace Like America (University of California Press). Youngstown e The New Timer, duas músicas do CD The Ghost of Tom Joad (1995), foram compostas por Springsteen depois de ler Journey to Nowhere: The Saga of The New Underclass (1985), o primeiro dos seis livros da parceria entre Maharidge e Williamson, ambos ganhadores do Pulitzer. Para Springsteen, o trabalho da dupla revela “o custo em sangue, patrimônio e espírito que a desindustrialização dos Estados Unidos impôs a seus cidadãos mais leais e esquecidos”.

Logo no início de suas viagens pelos EUA, Maharidge e Williamson lançaram And Their Children after Them: The Legacy ofLet Us Now Praise Famous Men: James Agee, Walker Evans, and the Rise and Fall of Cotton in the South (1989). Esse livro-reportagem investigou o destino de três famílias de meeiros no Alabama, cujo desamparo o repórter James Agee (1909- 1955) e o fotógrafo Walker Evans (1903- 1975) registraram, 50 anos antes, durante a Grande Depressão, em Elogiemos os Homens Ilustres. A tragédia dos trabalhadores americanos é mais reveladora do que os resultados de institutos de pesquisa ou os relatórios de economistas de bancos. “Devíamos parar de nos fiar nas palavras de supostos especialistas e escutar as vozes de pessoas comuns, essas, sim, as verdadeiras experts: A seguir, trechos da entrevista de Maharidge a CartaCapital.

CartaCapital: O jornalista George Packer, em resenha publicada pela revista The New Yorker, apontou para a raridade do tipo de reportagem apresentado em Someplace Like America, “Há algo de teimosamente heroico nesse compromisso com um tipo de Jornalismo menos glamouroso, com um tema ingrato” Por que a mídia evita abordar os problemas dos trabalhadores e dos pobres?
Dale Maharidge: É devastador pensar no que ocorre na América. As coisas estão piores hoje se comparadas à Grande Depressão dos anos 1930. Naquela época, as pessoas nutriam a esperança de que as fábricas reabririam. Atualmente, as indústrias não são somente fechadas, são demolidas. O mato invade o terreno baldio que se forma. A retomada dessas terras pela natureza indica que não é possível sentir esperança. Muitos jornalistas estão interessados nos plutocratas, que têm mais glamour. Livros focados nesse segmento vão ser vendidos para a elite. Quanto aos pobres, as massas não parecem dispostas a receber livros sobre os trabalhadores. Um espelho é algo difícil de mirar. Mas esse é um trabalho que precisa ser feito. Eu e Williamson preferimos avançar por caminhos ignorados pela maioria dos jornalistas. Nosso livro pode oferecer esperança. As histórias dessas pessoas que lutam para sobreviver têm um lado edificante, embora não tenhamos percebido há 30 anos nem tenha sido esse nosso objetivo inicial.

CC: É inevitável comparar Someplace Like America a Elogiemos os Homens Ilustres (1941) Em And Their Children after Them, o senhor e Williamson foram atrás dos descendentes das famílias com as quais Agee e Evans conviveram Além das singularidades de cada período histórico, quais as diferenças entre seu livro e Elogiemos?
DM: Amaneira de fazer o nosso trabalho é diferente. Evans não passou tanto tempo no Alabama quanto Agee, que ficou próximo das famílias. Williamson esteve do meu lado o tempo todo. Em termos históricos, a pobreza hoje tem uma face diferente. A imagem de uma criança na frente de uma casa de subúrbio não desperta a mesma comoção que uma criança na frente de um barraco. Ainda assim, ao longo dos últimos 30 anos, com frequência encontramos geladeiras vazias e crianças com fome em casas de subúrbio. A fome na América se espalhou. Tal como na época de Elogiemos os Homens Ilustres, as pessoas estão paralisadas. Há semelhanças. Muitos do 1,4 milhão de americanos que trabalham para o Walmart recebem 9 ou 10 dólares por hora. Na maioria das cidades, seus salários mal pagam o aluguel. Trabalham em dois ou três empregos. Ainda assim chegam ao fim do mês sem comida. É escravidão assalariada.

CC: Para escrever Someplace Like America, o senhor reencontrou as pessoas que conheceu 30 anos antes Por que foi importante falar de novo com esses entrevistados?
DM: Com frequência, nós, jornalistas, surgimos de repente e entrevistamos as pessoas para criar um sumário de suas vidas. E seguimos em frente. Quando retorna a uma história já publicada, o repórter cria não só um resumo, mas um retrato em mutação das pessoas. Ao concebermos esse tipo de representação, podemos ver as mudanças pelas quais os EUA passaram nos últimos 30 anos. É uma forma mais satisfatória de contar uma história.

CC: Enquanto reporta, o senhor não tem receio de expor as limitações do seu trabalho e impressões Por que insere essas informações no texto?
DM: Leitores de obras como Someplace Like America exigem um contexto. Não é suficiente apresentar os fatos. Na era da internet, fomos inundados por fatos. Daí a necessidade de uma explicação apresentada por um narrador confiável. Minha maior inspiração é a ficção de John Steinbeck, em especial As Vinhas da Ira (1939), em que ele oferece um significado e um encadeamento às circunstâncias.

CC: O senhor se sentiu desamparado durante as viagens?
DM: Muitas vezes. O pior período foi quando andamos nos trens de carga nos anos 1980. Passávamos por casas e víamos através das janelas famílias sentadas à mesa para o jantar. Sentíamos como se estivéssemos testemunhando de outro lugar a ilusão do sonho americano. Até hoje tenho esse sentimento de deslocamento. Quando visitei as áreas do Meio-Oeste dos EUA me senti como um jornalista estrangeiro. Este não é mais o país onde nasci.

( * ) AQUI, AQUI e AQUI


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