sábado, 22 de junho de 2013

Sem eira nem beira, cinco mil famílias desalojadas pelo Rodoanel ligeiramente superfaturado contam suas histórias



SE ESSA RUA FOSSE MINHA...


A história dos Santos e de outras 5 mil famílias desalojadas pelo Rodoanel

Por Marivaldo Carvalho

CARTA CAPITAL | Edição 752


Na travessa 2 do Parque Taipas, na zona na zona norte de São Paulo, as casas têm na parede externa um selo do Departamento de Estradas e Rodagem. Não demorará muito e todas virão abaixo para dar lugar a um túnel do Rodoanel, uma das obras mais complexas e contestadas a cargo do governo estadual.

Paulo Vieira dos Santos, o Paulão, não se conforma, Há 27 anos ele ocupa o número 18 da Travessa 2. Aposentado, natural de Alagoas, divide a pequena casa com a mulher, Ivete Nogueira Vieira dos Santos, costureira, nascida na capital paulista, a filha, Bárbara, e a neta, Kauany, de 3 anos. Ao lado, no 18A, moram o filho, Paulo Jr., a nora, Suellen, e o neto, Pedro Henrique, além de Belinha e Safira, duas cachorras. Todos com futuro incerto.

Os Santos enfrentam drama semelhante ao de outras 5 mil famílias obrigadas a deixar o passado para trás e procurar um novo endereço em decorrência das obras. O trecho norte do Rodoanel começou a ser construído em março último e, caso passe incólume pelos habituais atrasos das obras públicas no Brasil, estará pronto daqui a 33 meses. Os 44 quilômetros foram orçados em 5,6 bilhões de reais. Do total, 2 bilhões, afirma o governo, serão usados para indenizar quem for desalojado. O complexo viário atravessa uma parte da Serra da Cantareira, uma das últimas áreas verdes na região metropolitana.

A mulher de Paulão, afetada pelo lúpus, doença auto imune sem cura, recebeu por telefone a notícia da desapropriação. Estava em tratamento de rotina no hospital quando o filho ligou para comunicá-la da decisão da Dersa. “Foi um baque. Comecei a chorar. É uma coisa que não passa pela sua cabeça. Lutamos tanto para construir aqui. Agora que a gente conseguiu nossa casa própria, o governo bate na porta e fala: ‘Vocês vão ter de sair’. Eu disse: ‘Como sair? Onde está o respeito”‘?

No terreno próprio, o casal primeiro construiu um barraco de um cômodo. Quase três décadas atrás, a Travessa 2 mal existia. Apenas quatro casebres emergiam acabrunhados no meio do mato. Não havia asfalto, água encanada, iluminação pública ou rede de esgoto. “Me lembro como se fosse hoje, pisei aqui pela primeira vez no dia 31de dezembro de 1988.” Ano de realização. Além da casa nova, o Corinthians, time do coração, havia conquistado o Campeonato Paulista com um gol de Viola, nascido Paulo como o nosso desiludido personagem.

Para Paulão, é revoltante ver-se obrigado a abandonar a casa onde criou sua família, viveu alegrias indescritíveis, tristezas idem e à qual dedicou o próprio suor e parte considerável de seus rendimentos. “Meus filhos jogavam bola nessa rua, a minha filha pulava amarelinha, brincavam, cresceram aqui. E agora? O que eles não entendem é o valor que isso tem para a gente. Temos uma história aqui.”

A comunidade, diz o aposentado, é sua segunda família. “Se alguém estiver precisando de gás, de um vizinho para te levar de madrugada ao hospital, seja o que for, todo mundo ta junto.”

O governo estadual ainda não informou quando os moradores serão despejados. “Vieram aqui, selaram a casa, mediram e tem um mês que não aparece ninguém, sumiram”, afirma a mulher de Paulão. A “rádio peão”, diz ela, informa que em outras ruas do bairro em que os moradores receberam o laudo da Dersa, última etapa do processo, o poder público deu 15 dias para a desocupação. “Como num tempo desse alguém consegue arrumar outra casa? Como vamos à imobiliária se nem sabemos quanto vamos receber? Olha, isso é um desaforo”, queixa-se a costureira.

O auxiliar de laboratório Alessandro Donizete Silva, 32 anos, morador de um sobrado na mesma rua desde os 5, recebeu a notícia de sua mulher, Regiane, também por telefone. “No mínimo, foi uma situação desagradável. Mas vou fazer o quê? Tem de aceitar, né? Paciência!”

O casal tem dois filhos: Maurício, de 16 anos, e Murilo, de 9. Silva ainda não correu atrás de um novo lar. “Não estou procurando casa porque não seio que vai acontecer. Se vão me dar um apartamento ou algum valor. Não adianta ir atrás agora. Vou esperar porque não adianta você ir atrás de uma casa no valor xis se não chega nem na metade o que vou receber pela minha. Aí é complicado, né meu? Tô aguardando.”

Silva divide o terreno com outros 11 moradores espalhados por três casas. São todos da mesma família e igualmente vivem a expectativa da desapropriação.

“Já perdi noites de sono, já chorei, minha pressão subiu. Não entrei em depressão sei lá por quê. Quem disse que eu quero sair daqui? Para onde vou? Não paro de pensar. Acabaram com agente. Estão separando nossa família”, afirma, indignada, Ivete Santos, sem conseguir imaginar um futuro longe dos filhos.


LEITURA COMPLEMENTAR: 

“Rodoanel financiava a campanha do Serra”, diz ex-diretor do DNIT

"Michael Zeitlin - secretário de Transportes de São Paulo de 1997 até julho de 2002 – Foi acusado de inúmeras irregularidades, incluindo nas licitações do Rodoanel que foram condenadas pelo TCU e TCE. Zeitlin é sócio fundador da Ductor, empresa que foi contratada para fiscalizar o andamento das obras do Rodoanel licitadas por ele. Prevista para custar R$ 339 milhões, a obra consumiu mais de R$ 1 bilhão aos cofres públicos. A execução do trecho Oeste, por exemplo, foi orçada em R$ 339 milhões. A obra foi aditada em R$ 237 milhões, ou seja, quase 70% a mais e muito acima dos 25% permitidos por lei. O TCU proibiu o governo federal de passar recursos para o Rodoanel em virtude das ilegalidades. Professor aposentado da FGV."

Rodoanel – Atraso, superfaturamento e mais R$ 500 milhões


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