sexta-feira, 14 de junho de 2013

Promessas de campanha



O vereador se encontra em visita a um determinado bairro da cidade. Acompanhado do habitual séquito, da mídia, até do jornal de bairro, que arruma assim um assunto da semana. Apertos de mão, carinhos em crianças, pose para fotos, cafezinho na padaria, a comunhão com o povo.
Certa altura, uma voz chama:
- Vereador! Vereador! Aqui!
O vereador procura o autor do chamado. E encontra. Um homem acena, como se fosse uma criança se oferecendo para responder a uma pergunta feita pela professora.
- Ah, sim! Pois não?
- Sabe o que é, vereador, diz o homem. É que eu votei no senhor.
- Puxa, muito obrigado, responde o edil.
- Não só isso: eu e toda minha família votamos no senhor!
- Oras, fico muito agradecido por essa confiança!
- Mas não ficou só nisso: fiz diretamente campanha para o senhor. Entreguei santinhos, falei com vizinhos, amigos, fui convencendo todo mundo.
Muito impressionado, até meio encabulado, o vereador agradece, do fundo do coração:
- E é por causa da dedicação de pessoas abnegadas como o senhor é que chegamos lá, para podermos servir ao povo. Gente como o senhor que entendeu e levou adiante nossa mensagem e nossas propostas e...
- Então..., interrompe o eleitor. É aí que eu quis chegar. Suas propostas...
- Ah, sim! Estamos fazendo o possível para fazer chegar ao Prefeito nossas reivindicações, nossas propostas, fazermos votações de nossos projetos, junto com os companheiros da bancada e...
- Tá, entendi! Mas, o que aconteceu com AQUELAS propostas que o senhor apresentou no Horário Eleitoral?
- Como assim?
- Foram aquelas idéias e propostas que me encantaram e que me fizeram entrar de corpo e alma na campanha por sua eleição!! Estou muito chateado, essa é que é a verdade!
- Mas de quais propostas o senhor está falando?
- Por exemplo: lembra daquela proposta de mandarem de volta para seus Estados todos aqueles que não nasceram aqui na Cidade? Aquela gente lá...
- Ah, sim! Mas o senhor deve ter sido informado de que desisti. Uma burrice da minha parte aquela idéia. Todos são livres para morarem onde quiserem. Esse país é de todos!
- Tudo bem. Mas... e aquela outra ideía, a de construir campos de concentração para mendigos e moradores de rua?
- Ah, essa... Bom, eu me dei conta, acho até que foi um aviso de Deus ou dos anjos que me fez desistir a tempo. Tive exata noção da crueldade e da ilegalidade de tal proposta. Não consigo imaginar o que poderia ocorrer se tal proposta tivesse sido apresentada e aprovada.
- E ele vem falar de "Deus", minha nossa... Mas vem cá: e aquele lance de acabar com as calçadas da cidade, banir os pedestres e obrigar todos a usarem automóvel desde o momento que sairem de casa?
- Puxa, nem lembrava dessa! Que besteira! E pensar que defendi umas bobagens dessas?
- "Bobagens"?! "Besteiras"??! Saiba o senhor que tais propostas o levaram a ser o terceiro vereador mais votado nas eleições passadas e um dos dez mais votados na história da cidade!!!!
- Ahnn, tudo bem, amigo, senhor! Mas minha consciência falou mais alto. Eu realmente acreditava nisso e me empenhei para vencer e levar estas idéias adiante. Mas mudei de idéia. Revi meus conceitos. Não me arrependo! Não podia seguir adiante com aquela maluquice toda! Deus me ajudou nisso!
As câmeras da TV acompanhavam a conversa. O ânimo do eleitor se exalta. Ele solta uns impropérios. Fala dos impostos que paga. Repórteres fazem anotações. Microfones em polvorosa! Curiosos e passantes se interessam por aquela confusão toda.
Por fim, olhando para uma câmera de TV, o eleitor desabafa pesadamente sua revolta com a situação:
- É por isso que ninguém acredita nesses políticos! Mudam de opinião como eu troco de cueca. Prometem as coisas, enganam o povo e nunca cumprem nada do que prometem! Da próxima vez eu vou votar nulo! Ninguém presta! Acorda, Brasil!


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