domingo, 19 de maio de 2013

"Nova York e Londres são as maiores lavanderias de capitais do mundo. Bancos se salvaram da crise econômica reciclando bilhões de dólares do narcotráfico", revela autor italiano especialista em máfias



QUEM LEVA A MELHOR NESTE ENREDO
Em seu novo livro, Roberto Saviano desnuda o fracasso da "guerra às drogas" e mostra como os bancos se beneficiam dos narcodólares em tempos de crise

CARTA CAPITAL - Edição 748

Uma apreensão recorde de cocaína no Porto de Hamburgo surpreendeu as autoridades alemãs em outubro de 2003. A bordo do cargueiro, vindo de Manaus, havia 255 quilos de cocaína. O espanto, na verdade, deu-se por conta da quantidade e da pureza da droga, uma vez que um informante havia dado todas as pistas para a polícia européia sobre o carregamento ilícito: uma encomenda feita pela 'Ndrangheta, a máfia calabresa, a traficantes colombianos. Era sabido que o Brasil era apenas uma escala. A cocaína percorreu centenas de quilômetros pela Floresta Amazônica com a escolta de paramilitares da Autodefesas Unidas da Colômbia, grupo de extrema-direita empenhado em combater os guerrilheiros das Farcs. E exímios narcotraficantes.

O infiltrado era o italiano Bruno Fuduli, dono de uma marmoraria que se viu obrigado a prestar serviços para a 'Ndrangheta após assumir dívidas com a mafiosa família Mancuso. Homem de escrúpulos, prontificou-se a delatar as atividades criminosas da máfia calabresa à polícia. Tornou-se um agente duplo. Quando o carregamento foi apreendido em Hamburgo, ele estava na Colômbia a mando da máfia. Diante da recusa da 'Ndrangheta de pagar pela cocaína confiscada pelas autoridades européias, Fuduli passou quase três meses em um cativeiro das AUC, mantido apenas com água. Após ser abandonado pelos sequestradores, doente e 10 quilos mais magro, conseguiu contatar a polícia italiana e regressar ao seu país.
Tempos mais tarde, Fuduli rebelou-se contra a Justiça italiana. Acabou preso durante uma marcha antimáfia que percorria as ruas de Vibo Valentia, na região da Calábria, em maio de 2007. Intimidou os manifestantes aos berros: "Onde estão os meus 5 mil quilos de cocaína?"
Passou, enão, a se queixar abertamente à mídia. Em uma de suas entrevistas, revelou detalhes sobre a extensão do tráfico comandado pela 'Ndrangheta, com ramificações em dezenas de países. "Mandei para a cadeia 140 criminosos. Facilitei a apreensão de 5 toneladas de cocaína. Dei à polícia todas as pistas do tráfico entre a Colômbia e a Calábria. Agora os mando ( as autoridades italianas ) tomar no c..."

Essa e outras histórias estarrecedoras são esmuiçadas no novo livro de Roberto Saviano, Zero, Zero, Zero, ainda sem tradução ao português e lançado na Europa pela Editora Feltrinelli. O escritor italiano ganhou notoriedade após se infiltrar na Camorra, a máfia napolitana, para coletar informações para seu livro de estréia, Gamorra. Um best seller com mais de 10 milhões de cópias vendidas pelo mundo, traduzido para 50 idiomas e que inspirou o filme homônimo, vencedor do Grand Prix de Cannes em 2008. Hoje com 33 anos, Saviano dedicou a recente obra aos sete carabineri que completaram mais de 38 mil horas de escolta policial para protegê-lo. Zero, Zero, Zero, título que remete à farinha de trigo mais pura produzida na Itália , a "zero", e uma evidente alusão ao pó da cocaína, é resultado de uma pesquisa de sete anos, que revela os meandros do tráfico internacional de drogas.
Os narcóticos não garantem apenas o enriquecimento dos criminosos envolvidos diretamente no negócio. Após as recentes crises financeiras internacionais, vários bancos superaram seus problemas de liquidez com os recursos do tráfico, denuncia Saviano. Ao menos 352 bilhões de narcodólares foram absorvidos pelo sistema econômico legal em 2008, valor superior a um terço das perdas bancárias naquele ano, segundo o FMI. Um complexo sistema de lavagem de dinheiro, por meio da compra de ações, uma cadeia infindável de empréstimos interbancários e a emissão de títulos eletrônicos que percorriam vários países. Em pesquisa recente, dois economistas da Universidade de Bogotá, Alejandro Gaviria e Daniel Mejia revelam que 97,4% do dinheiro movimentado pelo narcotráfico colombiano é reciclado em bancos americanos e europeus. "Nova York e Londres são as maiores lavanderias do mundo, muito acima dos chamados paraísos fiscais", diz Saviano.
Para reforçar seu argumento, cita as declarações de Jennifer Shasky Calvery, responsável pela seção de lavagem de dinheiro do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, durante audiência no Congresso em fevereiro de 2012: "Os bancos americanos são usados para acolher grandes quantidades de capitais ilícitos, escondidos entre milhões de dólares transferidos diariamente de um banco a outro". Também se ancora nas denúncias feitas pelo inglês Martin Woods, especialista em crimes financeiros. Suas investigações comprovaram que o Wachovia Bank, entre 2004 e 2007, manejou fundos ilícitos nos EUA que somam 378,4 bilhões de dólares. A própria instituição financeira teve de admitir, em 2010, que operava com 22 casas de câmbio mexicanas ligadas aos cartéis da droga. Woods também acusou o Royal Bank of Scotland, um dos dez maiores bancos do mundo e o segundo do Reino Unido antes da crise de 2008, de evitar a sua bancarrota com a reciclagem de vultosas somas de narcodólares.
Um dos principais mentores do esquema de lavagem de dinheiro hoje usado pelo narcotráfico é o ucraniano Semion Mogilevic, apontado pelo FBI como "um dos mais perigosos mafiosos do mundo". Oriundo de uma família judaica, ele controla um banco israelense com filiais em Moscou e Chipre destinado a lavar dinheiro para a máfia russa. Mogilevic especializou-se na exploração de mulheres do Leste Europeu e as usava para distribuir drogas no varejo.

Tanto os russos quanto a máfia calabresa preferem negociar diretamente com os colombianos, em vez dos ambiciosos cartéis mexicanos. Logo no começo de seu livro de 446 páginas, Saviano relata como o Cartel de Medellín, chefiado por Pablo Escobar, perdeu o controle do mercado americano, apesar de dominar a produção de coca. Nos anos 1980, os colombianos pagavam para contrabandistas mexicanos cruzarem a fronteira dos Estados Unidos com cocaína por meio de "mulas", caminhões e túneis subterrâneos. Até se depararem com um policial federal do México tão corrupto que não demorou a assumir o contrabando fronteiriço.
Em vez de dinheiro, Miguel Angel Félix Gallardo, conhecido como El Padrino, passou a exigir o pagamento em droga. Aos poucos, estruturaria uma imensa rede de narcotráfico ao longo dos 3 mil quilômetros de fronteira com os EUA. Foi ele quem, em 1989, promoveu uma reunião com os narcomexicanos para uma divisão territorial do tráfico em plazas, cada uma com o seu chefe local. Essas plazas dariam início aos principais cartéis mexicanos, como o de Sinaloa, que garante pleno emprego da população local em suas imensas plantações de maconha e papoula.

Um comentário :

Anônimo disse...

a irregularidade mantém o mundo em actividade,por isso diz-se em fisica: carga positiva atrai carga negativa.o mundo gera a carga positiva e nós somos a carga negativa.Roberto Saviano aprenda a lidar com isso.
stewart adms

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails

Golpe