sexta-feira, 17 de maio de 2013

"Araceli, Meu Amor" volta às livrarias: livro expôs podres de mandarins do Espírito Santo envolvidos com tráfico de drogas, tortura e assassinato foi banido pela ditadura



ASSASSINATO E CENSURA 
Entrevista - Vetado pela ditadura, o livro do repórter José Louzeiro sobre um crime bárbaro é relançado

A Cecília Luedemann 
| Carta Capital - Edição 748 |

Em 18 de maio de 1973, Araceli Cabrera Crespo, de 8 anos, foi estuprada e assassinada a dentadas por jovens ricos de Vitória, em uma festa regada a bebidas alcoólicas, cocaína e sadismo. Passados 40 anos, José Louzeiro, autor do romance reportagem Araceli, Meu Amor, censurado pela ditadura em 1976 e relançado neste ano, relembra a história de um crime bárbaro e ainda impune.

Carta Capital: Como o senhor chegou à história de Araceli?
José Louzeiro: Quando me envolvi no caso Araceli, trabalhava no Última Hora, aqui do Rio de Janeiro, e tinha um grande amigo, o repórter Jorge Elias, que me falou de um crime grave em Vitória. Graças à minha mulher na época, Ednalva Tavares, pesquisadora e fotógrafa, resolvemos arriscar a vida para chegar aos criminosos. Passei dois anos na coleta de material, devo ter ido umas 50 vezes escondido a Vitória. Chegamos em 1974, acompanhei a CPI, em 1975, e o livro ficou pronto em 1976. Clério Falcão, então deputado do MDB, organizou a CPI e arriscou a vida para denunciar os matadores de Araceli.

CC: Dante Michelini, pais de um dos assassinos, tinha poder para alterar as investigações?
JL: Quem colocava e tirava o chefe de polícia era Michelini. Era o dono da cidade e o Constanteen Helal, pai do outro assassino, Paulinho, era dono de todo o campo. O Espírito Santo pertencia às duas famílias. Dona Lola, mãe de Araceli, era contrabandista de drogas. Ela mandou a filha levar um envelope ao "tio" Helal ( Jorge Helal ), Paulinho Helal e Dantinho Michelini. A menina não sabia que o envelope estava cheio de cocaína. Quando ela chegou, os caras abriram o envelope, a agarraram e começou a orgia. Ela foi morta, inicialmente, a dentadas. Os caras estavam muito loucos. Pegaram a menina, arrebentaram. Quando viram que estava morta, esperaram anoitecer e o corpo foi enrolado em um plástico. Tarde da noite, foram a uma casa noturna de um parente, na avenida principal, e meteram o corpo no freezer. Gabriel, pai de Araceli, eletricista naval que vivia em viagem, quando voltou e não encontrou a filha, ficou desesperado, começou a procurar, foi em todos os lugares. Por fim, seguiu para o Instituto Médico Legal. Ele conversava com um funcionário quando Radar, o cachorro da Araceli que o acompanhava, começou a arranhar uma gaveta. Ele pediu para o funcionário abrir a gaveta. Era ela, o resto dela... Toda esfacelada, tudo preto, rosto queimado de gelo, e um pedaço tirado, um horror. Quando Gabriel chegou em casa, Lola havia se mandado. Ela era amante de Jorge Helal.

CC: Seu livro relata uma forte relação entre as elites, a polícia, os fornecedores de drogas, a Justiça, os militares...
JL: Na droga só pobre vai preso, rico não vai. E tem mais um canalha que eu não quero deixar de mencionar, chamado Armando Falcão, ministro da Justiça do governo Geisel, que mandou censurar meu livro Araceli, Meu Amor no dia que saiu, em 1976.

CC: Os filhos da elite aprenderam a torturar na convivência com os grupos de repressão e extermínio da ditadura militar?
JL: Ah, claro... O pai do Dantinho, Dante Michelini, era envolvido com a polícia, era dono da polícia. Essa era a verdade. O sadismo da tortura.

CC: O caso Araceli continua impune por envolver nomes comprometidos com o esquema de repressão da ditadura?
JL: Toda a elite policial estava envolvida e sabia das drogas, e tinha parceiros na droga, também. Se eu não tivesse feito esse livro sobre a Araceli, e republicado, ninguém teria se lembrado dela. Os ricos de Vitória adorariam. Para que lembrar de Araceli?

CC: Em Vitória, os cidadãos comuns tinham esse ódio contra os assassinos da menina?
JL: O rico não, o rico era indiferente. Mas o povão sim. quando cheguei ao hotel, em Vitória, depois de ter distribuído Araceli, Meu Amor, em 1976, clandestinamente, um cara disse: "Saia daqui, porque eles vão te esfaquear todo".

CC: Em sua opinião, o caso poderia ser reaberto?
JL: Gostaria que fosse. Eu seria boa testemunha. E até mandar descobrir por onde anda o pai da Araceli. A única coisa que ele sabe é a história do cachorro da menina, Radar, arranhando as gavetas do IML, em Vitória. Eu gostaria também de realizar, como última obra, um longa-metragem sobre o crime.

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O CASO ARACELI

Araceli Cabrera Sanches Crespo nasceu em Vitória, no dia 2 de julho de 1964 e morreu na mesma cidade, em 18 de maio de 1973. Foi uma crança brasileira assassinada de maneira brutal no dia 18 de maio de 1973. O corpo só foi encontrado seis dias depois, totalmente desfigurado e com marcas de abuso sexual.

Vinte e sete anos depois, a data de sua morte se transformou no Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, pelo Congresso Nacional.

Araceli era a segunda filha de Gabriel Crespo e da boliviana radicada no Brasil, Lola Sanchez. O casal vivia numa casa simples, na rua São Paulo, atualmente Rua Araceli Cabrera Crespo, no bairro de Fátima, no município capixaba de Serra, perto de Vitória, capital do Estado.

O pai sentiu falta de Araceli, quando a menina não voltou para casa após o horário das aulas. Ela estudava no Colégio São Pedro, em Vitória. Isso foi no dia 18 de maio de 1973. Achando que a filha havia sido sequestrada, começou a distribuir fotografias dela a todos os jornais.
O corpo da menina Araceli apareceu 6 dias depois, na parte dos fundos do Hospital Infantil de Vitória.

Existem várias hipóteses sobre o que teria acontecido de fato. Uma delas era de que a menina tinha ido, por ordem da mãe, entregar um envelope a Jorge Michelini, tio de Dante, um dos suspeitos do crime. Quando chegou lá, os acusados teriam dado drogas à criança, estuprado-a e assassinado-a em um apartamento do Edifício Apolo, no centro de Vitória.

Mas, segundo a promotoria do caso ( e o depoimento de Marislei Fernandes Muniz ), no dia 18 de maio de 1973, Araceli aguardava o ônibus depois das aulas, e Paulo Helal, que estava em seu Mustang branco, pediu para Marislei dizer à menina que "o tio Paulinho estava chamando-a para levá-la em casa".

Ficou provado que a menina foi mantida em cárcere privado pelo período de 48 horas , no porão e terraço do Bar Franciscano, pertencente à família Michelini. Tudo era do conhecimento de Dante Michelini, pai de um dos condenados, o Dantinho.

Os rapazes, drogados, teriam lacerado, com os dentes, os seios, uma porção da barriga e a vagina da menina. Araceli chegou a ser levada agonizante para o Hospital Infantil  ( sic ), mas não resisitiu aos ferimentos. Os acusados ainda ficaram com o corpo, e o mantiveram refreigerado. Também, jogaram um ácido corrosivo a fim de dificultar a identificação do cadáver da menina. Os restos mortais da garota foram atirados em um terreno perto do Hospital Infantil.

Os suspeitos do crime eram pessoas que tinham ligação com duas famílias ricas do Espírito Santo. Os nomes dos envolvidos no caso eram os de Paulo Constanteen Helal, vulgo Paulinho, e Dante Michelini Júnior, vulgo Dantinho. 
Dante era filho do latifundiário Dante Michelini, influente na época do Regime Militar [ grifos deste blog ], ao passo que Paulinho era filho de Constanteen Helal, de família também poderosa. Eles eram famosos na cidade por serem usuários de drogas que abusavam sexualmente de meninas menores de idade. O bando teria sido responsável ainda pela morte de um guarda de trânsito, que havia lhes parado. Os dois foram citados nos artigos 235 e 249 do Código Penal.
Também foi dada como suspeita, no "Caso Araceli", a mãe da menina, Lola Sanchez, que teria usado a filha como "mula" ( pessoa que entrega drogas ) a Jorge Michelini. Lola seria um contato na rota Brasil-Bolívia do tráfico de cocaína. Ela sumiu de Vitória em 1981, morando atualmente na Bolívia. O pai de Araceli, Gabriel Crespo, morreu em 2004. [ Nota do blog: essa informação parece disparatada, uma vez que, no texto acima, José Louzeiro - autor de Araceli, Meu Amor - diz querer "descobrir por onde anda o pai de Araceli" ; se Gabriel estivesse morto seria improvável que Louzeiro desconhecesse o fato ]
Ainda que Paulo e Dante sejam os principais suspeitos e que haja várias testemunhas contra eles, os dois nunca foram condenados pela morte da Araceli, na época com a idade de 8 anos.

Segundo o relato de José Louzeiro,, autor do livro "Araceli, Meu Amor", o caso gerou 14 mortes, desde possíveis testemunhas a pessoas interessadas em desvendar o crime. Ele mesmo, quando estava investigando o crime em Vitória a fim de escrever seu livro-reportagem, teria sido alto de [ tentativa de? - N.do B. ] "queima de arquivo". Ele conta que um funcionário de hotel pertencente à família Helal teria lhe avisado de que estaria correndo risco de morte. A partir desse fato, Louzeiro começou a preencher ficha em um hotel e se hospedar em outro.

Araceli só foi sepultada 3 anos depois, no Cemitério Municipal de Serra-Sede, no túmulo de número 1213, na cidade de Serra.

O sargento José Homero Dias estava prestes a finalizar as investigações, mas foi morto com tiros nas costas. Assim, o caso foi deixado de lado por algum tempo. Clério Falcão, na época vereador [ N. do B: Na entrevista acima, José Louzeiro se refere a Clério como "deputado pelo MDB" ] que fora eleito com a promessa de levar o caso Araceli até o fim, conseguiu constituir uma CPI na Assembléia Capixaba. A CPI chegou à conclusão que houvera omissão da polícia local, interessada em manter distante das investigações os reais assassinos, figuras de prestígio e dotadas de poder.

Testemunha chave do caso, Marislei Fernandes Muniz, antiga amante de Paulo Helal, declarou que Araceli fora abusada sexualmente e dopada com uma grande dose de LSD, à qual não resistiu. O corpo da menina ficou no Instituto Médico Legal de Vitória até o mês de outubro de 1975 e depois foi enviado para autópsia no Rio de Janeiro, sendo sepultada só em 1976, em Vitória [ N do B: cliquem no link anterior; a própria frase onde se encontra o link fala em "na cidade de Serra" ].  O perito carioca Carlos Eboli afirmou que a causa mortis fora intoxicação exógena por barbitúricos, seguida de asfixia mecânica por compressão.

A partir de então, as famílias Helal e Michelini contrataram os doze melhores advogados de Vitória a fim de acabar com as provas do crime. No ano de 1980, Dante e Paulinho foram condenados pelo juiz Hilon Sily a 18 e 5 anos de reclusão, respectivamente. Mas a sentença acabou sendo anulada. Em um novo julgamento, que aconteceu em 1991, eles foram absolvidos. A partir daí, segundo o escritor José Louzeiro, "eles se tornaram pais de família católicos, senhores acima de qualquer suspeita".

"ARACELI, MEU AMOR" - UM DOS MAIORES MISTÉRIOS DA POLÍCIA BRASILEIRA, O CASO ARACELI CONTINUA SEM CONDENAR NINGUÉM PELA MORTE DA MENINA DE 8 ANOS EM 1973. NESTE LIVRO, JOSÉ LOUZEIRO TENTOU DEIXAR REGISTRADOS TODOS OS FATOS DA VERDEIRA COMÉDIA DE ERROS QUE FORAM AS INVESTIGAÇÕES. MUITOS JÁ TENTARAM LEVAR À JUSTIÇA OS VERDADEIROS CRIMINOSOS, MAS FORAM IMPEDIDOS. O PRÓPRIO AUTOR RELATA QUE QUANDO PESQUISAVA PARA SEU LIVRO FOI AMEAÇADO DE MORTE. POR TUDO ISSO, ARACELI, MEU AMOR, É UM LIVRO HOJE CONSIDERADO RARIDADE.

Fonte de consulta: MORTES E CASOS MISTERIOSOS DA HISTÓRIA, Edição 1, Editora Minuano, pág 38 a 40





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