sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Criando personagens ( 1 )

Quando não estou pensando em nada, minha cabeça se encarrega de fazer algo por - e para - si mesma. Sabe aquelas pessoas que ficam rabiscando papéis, sem forma e nem objetivo, só pra matar o tempo? Então, comigo acontece outra coisa: chegam-me à mente personagens, pessoas que não existem e que terão vida fugaz. Ou seja, não duram nada. Às vezes eu rabisco a inspiração no papel e vou a delineando, entusiasmadamente, por meio de palavras-chave e, depois, perco o papel. Às vezes é só um nome, noutras é uma ação à espera de um sujeito. Por exemplo, vejam o caso do menino RUBINHO:
 
RUBINHO
Rubens nasceu, e foi ser um menino normal. Recebeu o apelido carinhoso de "Rubinho". Aos 6 anos, começou a imitar motores de carro:
- Brrummmm! Vraaammmm!
O pai, fanático por carros como todo brasileiro - quem diz isso são os postos Ipiranga - já se anima todo:
- Aí, tá vendo só? Vai gostar de carro que nem eu.
O pai já fazia os planos: ensinaria o moleque a dirigir quando ele completasse 14 anos e lhe daria um carro de presente quando fizesse 18.
No Natal, os tios deram pro Rubinho uma réplica do Batmóvel, com Batman ao volante e o Robin no banco de passageiros. Era da Guliver, se não estou desmemoriado.
O moleque ficou todo feliz e foi brincar com o presente. Depois voltou e apontou pro Robin:
- Esse, quem qui é?
- Esse daí? Esse é o Robin.
- Eu sou ele, então.
Os parentes se entreolharam, cabreiros. Depois anuíram que o menino se identificou com o ajudante do herói por causa do nome parecido com o seu ( Rubens = Robin ).
- É. Deve ser por isso.
Sempre que faziam compras no supermercado, os pais botavam o menino dentro do carrinho de compras. E lá ia ele, imitando motor:
- Vrrraaaaaaammmm...
Outro dia, a família foi passear no parque de diversões:
- Vamos levar ele no carrinho bate-bate?
- Isso. Aí, ele já vai aprendendo algumas coisas.
Mas, estranhamente, quando foi apresentado ao volante, Rubinho começou a abrir o berreiro.
_ Que que foi, Rubinho?
- Não quelo! BUAAAA!
Seria medo de quê?, perguntaram-se os pais. Vai ver, medo de dar trombada. Pode ser.
Tinham ido de ônibus, e voltavam de taxi. E Rubinho só de olho no taxista.
- Aí, tá vendo? - cochichou o pai para a mãe.
- É, Tá só estudando como faz para dirigir, respondeu ela.
- Meu garoootooo! - disse o pai.
Tempos depois esse arroubo de aprovação paternal sofreu um abalo. Levaram Rubinho para cortar o cabelo. O cabeleireiro sugeriu para botarem o Rubinho naquele assento que é um tipo de carrinho de corrida, com volante e tudo, e o Rubinho se recusou.
- Que estranho!
- É...
( *** )
Passou o tempo, e o pai quis cumrpir o que tencionara anos antes. Rubinho já estava com 14 anos. Era hora de aprender a dirigir.
Mas Rubinho sempre dava um jeito de fugir do pai:
- Hoje não dá, eu tenho prova amanhã.
- E amanhã?
- Tem prova também.
- E depois?
- Também.
Qualquer pai ficaria orgulhoso de ter um filho tão estudioso. Mas o pai de Rubinho ficou mesmo é com a pulga atrás da orelha.
- Já descobri!!!
- O que?, perguntou a mulher.
- Ele tem fobia de volante! Já li sobre isso num folheto de auto-escola!
- Deixa ele! Ele quer estudar! Tem que comemorar, isso sim!
- Mas...
- "Mas", o quê???
- Lembra da empolgação dele com o Batmóvel, com ele dentro do carrinho de compras?
- Lembro.
- E até daquele ônibus de lata vermelho que seu pai deu pra ele no aniversário?
- Lembro sim. Acho que eu nunca vi ele tão feliz.
- Então, minha filha...
- "Então" uma vírgula! Deixa ele estudar e seguir o curso natural das coisas.
- Pensando bem, você tem razão.
- Tenho mesmo, né?
- É. Quando começar a andar atrás das franguinhas ele vai perceber a necessidade de saber dirigir...
- Ora, seu...! Ririri!!
( *** )
Passou o tempo, e nada do Rubinho tirar carteira de motorista, para profunda decepção do pai.
No entando, quando iam pra algum lugar, Rubinho não parecia ter ojeriza de automóveis ( era um temor do pai, o Rubinho virar um desses "bichinhas" inimigos de automóveis e do progresso ). Ia tranquilo, falante, no banco do passageiro, ou no banco de trás, se a situação exigisse.
Um dia pai e filho tiveram, por um motivo que eu não lembro agora, que ir a algum lugar, de ônibus. E o pai percebeu que o filho ficava muito à vontade nesse tipo de transporte. Na volta, de taxi, teve a mesmo impressão. O filho ia olhando pela janela, bastante tranquilo, não importa se estivesse o maior congestionamento ou o trajeto fosse feio.
Já em casa, notou que o filho, vidrado em vídeo-games, não tinha sequer um único jogo que tivesse automóveis. Nem unzinho, tipo Rally-X.
E, depois de pensar muito durante a insônia que lhe acometera naquela noite, descobriu o porquê: Rubinho não gostava de dirigir. Gostava era de ser o passageiro. Que nem o Robin.
 
 

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