segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

"Após décadas viajando pelo Oriente Médio, fiquei convencida de que a região precisa se livrar da interferência ocidental", diz historiadora brasileira



entrevista
ISLÃ EM PERSPECTIVA


Primeiros séculos da era cristã, Europa em ruínas. Enquanto o velho continente agonizava em crises profundas, o Império Islâmico vislumbrava um esplendor civilizatório sem preceden-tes. Não apenas pela conquista de vastos territórios – que se estendiam da península ibérica à Índia –, mas também por reunir os mais sofisticados conhecimentos disponíveis então. Foram os árabes os grandes herdeiros da sabedoria grega. Também foram eles os compiladores e tradutores das principais obras persas, mesopotâmias, egípcias e hindus. Para os estudiosos, o islã é muito mais do que sugere a fugacidade noticiosa de nossos dias. "Temos em geral uma visão distorcida do islamismo, originada em uma simplificação que deturpa completamente o que é essa civilização e essa cultura."
São palavras da historiadora e cientista política Beatriz Bissio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em outubro, ela lançou o livro O mundo falava árabe [ Civilização Brasileira ] durante o
36º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), em Águas de Lindoia (SP) ( ver ‘Diálogos e reflexões’, nesta edição ). É uma elegante narrativa sobre a história do islã a partir de dois auto-res clássicos do século 14: Ibn Khaldun (1332-1406), destacado historiador que, para alguns, inaugurou o pensamento sociológico islâmico, e Ibn Battuta (1304-1368), viajante que percorreu longas distâncias do norte da África à Ásia e registrou em detalhe o que viu em suas andanças. Da comparação entre esses dois registros – do historiador e do viajante – Bissio oferece ao leitor um olhar tão refinado quanto profundo acerca do florescer da civilização islâmica.
HENRIQUE KUGLER |
CIÊNCIA HOJE | RJ

BEATRIZ BISSIO

No Brasil, poucos são os escritos sobre o islã. Qual foi sua motivação para lançar O mundo falava árabe?
Escrevi o livro porque quis aprofundar meus conhecimentos sobre o assunto. Sou também jornalista, e por duas décadas viajei para cobrir a realidade do Oriente Médio e do norte da África. Vivenciei as guerras do Líbano e do Iraque, a questão Israel-Palestina, entre outros temas, na Argélia, Líbia e Egito. Fui uma das fundadoras da revista Cadernos do Terceiro Mundo, em Buenos Aires, em 1974, e sediada no Brasil a partir de 1980. Viajava regularmente ao Oriente Médio e à África, e o islã era sempre um dado da realidade sobre a qual escrevia. Admirava profundamente a cultura, mas, por nunca tê-la estudado em profundidade, sentia que a minha visão ficava muito restrita aos fatos do cotidiano, nem sempre compreensíveis sem a perspectiva da história. Iniciei um estudo mais sistemático, e disso resultou minha tese de doutorado, defendida na Universidade Federal Fluminense [UFF], posteriormente adaptada em livro.

Por que escolheu Ibn Khaldun e Ibn Battuta como personagens centrais de seu estudo? Quem são esses autores?
Quis estudar a civilização islâmica a partir do olhar de seus próprios autores, e a obra de Ibn Khaldun, historiador que nasceu em Túnis ( atual Tunísia ) no século 14, não pode ser ignorada. Ele foi provavelmente o autor islâmico mais representativo de seu tempo. Minha orientadora [ Vânia Leite Fróes, da UFF ] foi quem sugeriu estabelecer uma espécie de contraponto entre os escritos de Ibn Khaldun e os relatos de seu contemporâneo Ibn Battuta, um viajante que ao longo de quase
40 anos percorreu longas distâncias pelos vastos domínios do Império Islâmico.

Por que Khaldun é considerado tão importante?
Suas reflexões, traduzidas em vários trabalhos, são extremamente complexas e sofisticadas. Sua obra-prima, os Prolegômenos (Muqaddimah), é considerada o momento fundacional do pensamento sociológico islâmico. Não é uma obra tradicional de história, como as que eram comuns até então, limitadas a narrar cronologias de dinastias. Ibn Khaldun inaugura um estudo que visa o entendimento das causas dos fenômenos históricos e, mais do que isso, os estudos sobre a sociedade humana.
Moderno para a época, não?Extremamente moderno. É uma descoberta para o Ocidente que um pensador islâmico, no século 14, tenha trabalhado questões que vieram a ser estudadas, no mundo ocidental, somente dois séculos depois. Ao teorizar sobre estado, autoridade e poder, Ibn Khaldun antecipa [Thomas] Hobbes [1588-1679] e [Jean-Jacques] Rousseau [1712-1778]. Fez também descrições detalhadas da relação entre o ser humano e os demais seres vivos. Uma riqueza é a obra de Ibn Khaldun.

E quanto a Ibn Battuta?
Viajou durante quase 40 anos, por um território equivalente ao que hoje seriam 46 países. O mundo islâmico era alicerçado pela língua árabe; o viajante poderia sair do Marrocos, percorrer toda a Ásia central e chegar à China falando árabe! Era a língua franca da época ( daí o título de meu livro ). Ibn Battuta era juiz em Tanger ( atual Marrocos ) e iniciava sua viagem de peregrinação à Meca, obrigação de todo bom muçulmano. Mas, ao se desprender de seu país e de seu entorno, descobre que tem uma paixão pela aventura, pelo conhecimento, por desvendar os mistérios do mundo – e vai sempre acrescentando novos desafios à sua jornada. Acaba fazendo três vezes a peregrinação. Quando retorna à sua terra, depois de décadas, já havia uma espécie de lenda em torno dele, o viajante que nunca aparece. Pensavam que tinha morrido. A corte o recebeu muito bem, e o califa estava interessadíssimo em conhecer o mundo pelos relatos daquele viajante que percorrera, por tanto tempo, os domínios daquele que fora o maior império na época medieval. Ávido por incorporar a sabedoria da valiosa fonte de informações que era Ibn Battuta, encomendou um relato escrito dessas viagens. Assim nasceu a Rihla [ em tradução livre, ‘jornada’], uma obra fascinante. Na época já havia uma tradição de literatura de viagens – que se tornou um gênero literário nas letras árabes. Isso se deu principalmente em função da obrigatoriedade da peregrinação à Meca. Onde pernoitar? Que cuidados tomar? Que alimentos serão encontrados pelo caminho? Como planejar o retorno? Naquele tempo, criou-se uma tradição literária em torno dessas questões. No caso de Ibn Battuta, porém, o relato ganhou dimensões muito mais expressivas, pois sua viagem foi a jornada de toda uma vida. Mas ele percebeu que não teria condições de produzir um texto com a beleza estilística que esse tipo de depoimento exigia. Então ditou suas memórias a um poeta, que deu forma definitiva ao livro. O resultado é muito interessante: um verdadeiro relato etnográfico. Descreve a estrutura social dos locais por onde passou, as vestes, a culinária, os hábitos, as relações de poder, as interações entre homens e mulheres, as formas de se pensar e viver a religião... Trata-se de um documento histórico e antropológico da maior importância.

Sua análise desses relatos se insere no campo da história, da antropologia ou da sociologia?
Não é formalmente uma obra histórica, nem sociológica, nem antropológica. É transdisciplinar. O objetivo é, ao cruzar as reflexões de Khaldun e Battuta, conhecer melhor o Islã. É interessante mencionar que Khaldun vivenciou o poder ‘por dentro’. Foi ministro, escriba, embaixador, diplomata. Também esteve na prisão, caiu em desgraça, viveu no exílio. E algumas perguntas o inquietavam: qual é o ciclo do poder? Como e por que nascem e se desenvolvem os impérios? Sua família, muçulmana originária da península ibérica, teve de migrar para o norte da África quando os reinos cristãos avançaram sobre terras muçulmanas. Esses reinos haviam ficado reduzidos ao norte da península ibérica, mas conseguiram finalmente se reestruturar e avançar rumo ao sul – a região ficara por sete séculos e meio sob domínio islâmico. Ibn Khaldun quis entender como aquele islã ibérico, tão sofisticado e tão ‘superior’ à civilização dos reinos cristãos da época, foi derrotado e expulso da região ( o último reino muçulmano na península ibérica, Granada, foi conquistado pelos reis de Castela, Isabel e Fernando, em primeiro de janeiro de 1492 ).

E quanto aos ‘ciclos do poder’, Ibn Khaldun chegou a alguma resposta?
Sim. Ele entende que a conquista de poder é obra de uma geração com grande ‘espírito de corpo’ (assabiyah – neologismo que ele criou para se referir a algo como ‘coesão interna’ de um grupo). Esse espírito estava presente quando os árabes, logo após a morte de Maomé, em 632, iniciaram a conquista do enorme território que se estendia do Atlântico à Índia. Para Ibn Khaldun, a geração responsável pelas conquistas é dotada de notável ‘espírito de corpo’. A segunda geração, que já nasce no poder, é muito influenciada pela experiência dos pais; sabe quanto custou a conquista; e constrói alicerces para permanecer no poder. Mas a terceira geração nasce em berço esplêndido; por relatos dos pais e avós, ela tem, sim, alguma referência sobre como foi dolorosa e sangrenta a conquista; mas já está distante desse esforço; é mais seduzida pela vida da corte, pelas benesses do poder; perde aos poucos a perspectiva de manutenção de unidade interna. A quarta geração, por sua vez, não tem mais a coesão das primeiras; já está seduzida pelas benesses do poder, entregue, vulnerável. Isso levou Khaldun a inferir que, em geral, o poder segue um ciclo de 120 anos. Mas não é um ciclo fechado, pois ele dizia que “a história não se repete”. Afinal, ao longo de cada ciclo há acumulação de conhecimento. Portanto é uma progressão; ele imaginou um ciclo em espiral. Enquanto isso, Ibn Battuta nos dá uma visão etnográfica daquele mundo que Ibn Khaldun estudou tão sistematicamente. Esses relatos nos apresentam um momento da história em que o Islã, que tinha sido um grande império, um grande poder, a grande referência civilizatória do mundo conhecido ( excetuando-se a China ), passa a perder sua unidade política. Depois de ter atingido seu ápice civilizatório – tendo reunido, preservado e moldado com seus próprios valores o legado da Pérsia, da Grécia, da Índia e de outros povos longínquos – questionava-se sobre seu futuro. Aliás, deve-se destacar que o Império Islâmico foi o grande herdeiro do conhecimento dos gregos. Em geral não nos lembramos disso.

Foi pelos árabes que o conhecimento greco-romano chegou à Europa. O império islâmico, portanto, exerceu papel importante para o Renascimento?
Com certeza. Muitos autores já não têm dúvidas de que os principais herdeiros do legado grego foram os árabes. E pelos árabes esse conhecimento chegou ao Ocidente, principalmente no período em que a península ibérica foi conquistada pelos reinos cristãos – que encontraram grandes bibliotecas e iniciaram um novo ciclo de traduções. O primeiro havia sido nos primórdios do império islâmico, com traduções do sânscrito, do persa, do copta e do grego para o árabe; o segundo, agora, do árabe para o latim e para as línguas vernáculas. Em Bagdá, no século 9, os califas haviam fundado uma instituição que chamaram de Casa da Sabedoria (Bait al-hikma), espécie de universidade que também funcionava como grande centro de traduções ( ainda existe, mas foi praticamente destruída na invasão de Bush ao Iraque ). Em um empreendimento que demorou mais de 200 anos, mais de 300 tradutores rentados pelo estado como ‘funcionários públicos’, trabalhando simultaneamente na maior empreitada dessa magnitude da história humana, traduziram para a língua árabe manuscritos vindos de todas as regiões do império. Os califas perceberam que, com tantas conquistas, eles tinham passado a ser os guardiões de um enorme legado civilizatório – das tradições da Índia, Grécia, Bizâncio, Pérsia e tantas outras. Daí a decisão de criar esse grande centro de estudos, que foi a Casa da Sabedoria. Assim foram traduzidas obras gregas, hindus e persas, por exemplo, nos campos da astronomia, matemática, geografia, literatura, filosofia...

Na Europa do século 9, ainda não existiam universidades, que passaram a ser sistematizadas a partir do século 11. O Islã estava mais adiantado nesse aspecto institucional?
Pois é. A mais antiga universidade europeia, se não me engano, é a de Bolonha, que data do final do século 11. No caso do mundo islâmico, no início do século 8 a extensão do império criava enormes desafios de administração e comunicação – eram incentivados estudos em todos os terrenos do saber.
No Império Islâmico, havia conflito entre a busca do conhecimento e a tradição religiosa?No Islã, diz-se que conhecer é preciso. Há um velho ditado segundo o qual “o conhecimento deve ser procurado, mesmo que ele esteja na China”. Exige-se que o bom muçulmano contribua para a construção de uma sociedade justa – e para isso deve-se conhecer a sociedade humana. Não há sociedade justa sem estudo e sem conhecimento; portanto estudar era parte da formação do muçulmano. É interessante destacar que, dentro do enorme território que o Islã dominava, havia relacionamento harmonioso entre muçulmanos, cristãos e judeus. Boas relações entre essas religiões perduraram até o século 20. Não quero fazer um retrato cor-de-rosa, como se nunca tivesse havido problemas. Mas, se pensarmos em uma cronologia, o tempo histórico de convívio harmonioso entre essas três religiões monoteístas foi muito maior do que o tempo de confrontos. Essa harmonia, aliás, está ancorada no Corão: as religiões monoteístas, com seus costumes e práticas, devem ser respeitadas. Mas a interferência ocidental do século 19 utilizou minorias religiosas cristãs para destruir o tecido social construído ao longo dos séculos. Potências ocidentais ( notadamente os britânicos e os franceses ) tinham um projeto político de dominação para a região do Oriente Médio, como ficou comprovado com as decisões adotadas após o fim da Primeira Guerra Mundial. Como consequência da Conferência de Paris – que definiu os termos da paz –, os britânicos passaram a dominar, direta ou indiretamente, a Palestina, além da atual Jordânia, o Iraque e a maior parte da península arábica ( e permaneceram no Egito, que já estava sob domínio inglês desde o final do século 19 ). Os franceses, por sua vez, ocuparam a Síria e o Líbano. Também mantiveram e ampliaram sua presença na parte mais ocidental do norte da África ( a Argélia tinha sido conquistada nas primeiras décadas do século 19 ). Lembrar esses episódios é um exercício muito importante para entendermos o momento atual.

Quais são suas impressões acerca da imagem que os meios de comunicação costumam transmitir quando o assunto é o islã?
É uma visão totalmente deturpada e reducionista, originada ou por desconhecimento ou por interesses que procuram denegrir essa civilização. Ou pelas duas coisas. Após décadas viajando pelo Oriente Médio e pelo norte da África, fiquei absolutamente convencida de que, para construir um futuro diferente, a região precisa se livrar da interferência ocidental. Os povos podem cometer erros, antes de encontrar seus caminhos; mas que sejam seus próprios erros. O petróleo é o problema fundamental. A questão energética nos permite entender por que o Oriente Médio não consegue viver em paz.
O seu livro se destina a acadêmicos ou ao grande público? Sou jornalista, portanto a marca de minha escrita é a do jornalismo. Por outro lado, o livro resulta de minha tese de doutorado, e por isso apresenta relativa profundidade. Quanto à linguagem, se fosse necessário escrever hermeticamente para fazer uma tese, bem, definitivamente eu estaria fora (risos). Jamais saberia escrever “difícil”. Ficaria muito feliz se o livro atingisse um público amplo, interessado em um entendimento mais correto da civilização islâmica.


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