sábado, 10 de novembro de 2012

É muito crime, e todo mundo é alvo. ( ficção )

Eram cerca de 18:45hs, e Lupercínio descansava do extenuante dia de trabalho, bebericando uma cervejinha no balcão da padaria, enquanto assistia à TV colocada, para distrair os fregueses em seu momento de lazer.
De repente, para estragar tudo, gritos:
- VAI,VAI!! TODOMUNDO QUIETINHO!
Os gritos se materializaram na presença, diante de Lupercínio, do maldoso Magrão, assaltante, ladrão e dedo bastante mole. Ele aponta o cano pro Lupe, enquanto os comparsas fazem a limpa:
- VAI VAGABUNDO ( Sim, percebi a ironia... )! DÁ A CHAVE DO CARRO AÍ!!
Pausa: uma das coisas a se temer, ao sofrer um assalto, é o fato de que a maior parte desses ladrões e malfeitores é composta de gente tão - ou até mais - materialista e interesseira quanto as pessoas comuns, que trabalham feito condenadas para comprar celulares que não saberão usar, coisas da OKLEY, motocicletas, videogames... A diferença é que a grandessíssima maioria prefere se fuder no trabalho feito escravo pra "atingir seus objetivos", enquanto gente da laia do Magrão prefere "fazer as correira"...
Ou seja, o entendimento do Magrão sobre o que é a vida não é muito diferente do entendimento do resto das pessoas com quem trombamos por aí.
De modo que, imagine a surpresa quando o malfeitor Magrão escutou o seguinte, da boca de Lupercínio:
- Mas, mas... EU NÃO TENHO CARRO! Nunca dirigi, sequer tenho carta. Aliás, detesto carros!
Evidentemente, isso irritou Magrão. Como é possível que alguém deteste carros? Esse coroa ( Lupercínio ) deve ter uns 45 anos, e não sabe dirigir? Nunca se interessou?
E...
PLÁÁÁ!!!
Deu com o cano na testa do Lupe.
- ENTÃO, VAGABUNDO, A CHAVE DA MOTO! VAI MORRÊ SE NUM DER!
- Mas - respondeu Lupe - eu também não tenho... Não sei guiar moto, nunca me interessei... Ai, caramba...!
Outra coronhada:
PLÁÁÁÁ!!
- AIIII!!!!
Muito irritado, Magrão tenta outra vez:
- O CELULAR?
- Não tenho...snif...Não gosto disso.
- CARTÃO DO BANCO E SENHA??
- Não tenho. Só tenho poupança e tenho que retirar pessoalmente.
- QUEQUE VOCÊ TEM ENTÃO, PORRA???!
Lupercínio mostra uma sacola de coisas que comprou num sebo: discos de vinil, livros... coisas velhas que Magrão encarou com um misto de nojo e desprezo.
- TÁ DE BRINCADEIRA, PILANTRA?
- Não, não...
Lupercínio conta, então, que passou uma vida de pouco conforto, mas não miserável. Às vezes, alguma privação, ter que ganhar coisas da vizinhança, cesta básica com leite do Canadá entregue pela paróquia do bairro.
Com a vida, e as leituras ( gostava de Voltaire e Lin Yu-Tang ) nas bibliocas públicas, decidiu que não gastaria sua vida atrás de coisas que lhe causariam mais aborrecimentos que satisfação. Perseguindo ilusões. Tais coisas, quando finalmente conquistadas, logo seu encanto se extingue, obrigando o incauto a nova perseguição numa espiral sem fim de frustração e desânimo. Não queria nada e tinha receio das pessoas que queriam as coisas. Essa era a filosofia de Lupercínio.
Lupe nunca casou. Não queria que mulher alguma o acompanhasse naquela jornada estóica. Nem fazia questão disso. 
Trabalhava, pagava suas contas e, o que sobrava, botava numa caderneta de poupança, como forma de garantir alguma segurança na velhice. Comprava coisas em sebos, roupas em bazares da igreja, templos espíritas. Pegava móveis velhos - quando em bom estado - que as pessoas depositam pro lixeiro levar embora. Não se considerava mesquinho, apenas não gostava de desperdício, de atitudes perdulárias. Fazia exercícios em casa  ( "Para endurecer o corpo e o caráter", dizia" ), dormia num colchão no chão, desde que os cupins destruíram sua cama. Às vezes, dormia até no chão.
Assim, de tostão em tostão, ia vivendo. Quando sobravam alguns trocados, encostava no balcão do bar - ou da padaria, como era o caso em questão -  e pedia uma cerveja preta, que sorvia calmamente. Ao contrário daquelas vítimas eternamente reincidentes, não havia - e jamais haveria - nada que Lupe tivesse que interessaria ao Magrão. 
Logo, foi uma triste, infeliz coincidência o encontro entre Magrão e Lupercínio. Este, pressionado por Magrão, tentou argumentar:
- Pega e leva este play do Frank Sinatra. Dá pra sua mãe, que ela vai gostar.
Lupe esperava que Magrão, por ter - possivelmente - uma origem tão humilde quanto a dele, entenderia os pontos de vista da vítima. 
Os pareceiros de Magrão chegam junto:
- Aí Magrão, vambora que já demoramo demais. Deixa quieto aí e vambora!!!
O turba dá no pinote.
Cem metros adiante, Magrão pára e diz pro pessoal:
- Vão indo que eu já volto!!
E retornou à padaria.

( *** )

O apresentador do programa policial anuncia:
"Líder da quadrilha que assaltou e matou em padarias na Capital é preso!!!! É com você, Gentílio Soares!!"
O reporter responde à deixa:
"É isso aí, Correia! Tamos aqui com o Magrão, acusado de ser o principal líder da 'Gangue das Padarias', que tocou o terror aqui na Zona Sul!!"
Magrão aparece na tela, algemado e com marcas de espancamento. Ao fundo, um painel com o símbolo e o nome da Polícia Civil.
O âncora do programa policial solicita ao repórter:
"Põe o cara aí na escuta! Quero saber porque ele roubava e matava. quero ver qual apito o cara toca..."
E acrescentou:
"Pergunta prá esse vagabundo aí, vai... Pergunta do caso da Padaria Cristal!!"
O reporter obedece à solicitação do âncora:
"Então, ô, Magrão... o Correia quer saber do caso da Padaria Cristal..."
Magrão interrompe, cabeça baixa, supercílio inchado:
- Tem nada a dizer aí, dotôr! Fiz nada não...
O reporter insiste:
- Mas as testemunhas, e até mesmo seus cúmplices, dizem que vocês estavam fugindo, aí você parou, disse que tinha 'umas paradas a resolver' e voltou lá...
Depois de tantos crimes cometidos, era natural que Magrão não lembrasse de todos. Mas a descrição feita pelo reporter fez com que revivesse o caso em questão.
- Vai, Magrão - insiste Gentílio - diz aí pra gente, pro Brasil, pros telespectadores.Por quê você voltou lá e matou o rapaz, que não tinha nada pra te dar?
- Eu não o matei - responde Magrão, encarando a câmera. Eu o libertei daquela existência miserável e sem sentido.

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