terça-feira, 25 de setembro de 2012

Nobel de Química de 1986, YUAN TSEH LEE detona: "Em um país dito 'desenvolvido', as ruas pertencem aos carros?"



Eu não conhecia o personagem. Nobel de Química de 1986, Yuan Tseh Lee me foi apresentado pela revista CIÊNCIA HOJE, edição 295, dessa forma: "(...) Mas engana-se quem espera de Yuan Tseh Lee apenas conversas herméticas, abstratras ou técnicas. Na verdadde, esse taiwanês de humor jovial tem, nos últimos tempos, deixado de lado a frieza dos números e a impessoalidade dos laboratórios(...)"
Isso, pra mim, foi o suficiante. Apesar de tentar ler textos além da compreensão que tenho, insuficiente graças à educação formal também insuficiente, prefiro realmente esses tipos estudados que não recorrem às tais terminologias herméticas. Se me deparo, por exemplo, num texto, com a expressão "deontologia", já pulo de uma vez. Não é uma simples questão de dicionário. Lembro que não tinha a menor noção de certas coisas, hoje muito discutidas, até conhecer o excepcional Aloysio Biondi, que me abriu muitos horizontes sem recorrer aos esconderijos do conhecimento restritivo, ou seja: ele informava mesmo. Até um ignorante que dominasse os rudimentos da língua se sentiam inteligentes ao lê-lo. Hoje em dia, não aceito nada menos que algo parecido.
Bem, voltando a Lee, o texto da Ciência Hoje não tem disponível on-line. Assim, serei obrigado a digitar e editar os trechos que interessam. É pena, pois a entrevista inteira vale realmente a pena. Mas, sacomé. O título do post é sobre carros, e são os trechos relacionados que apresentarei aos senhores. Aproveitem. [ OBS: No entanto, as opiniões de Lee ( reforçando: ele é um cientista, não um "ecochato" ) sobre o chamado "desenvolvimento", e que dizem diretamente ao "estilo de vida" ( ou seja, o consumismo velho de guerra ) de CADA INDIVÍDUO, levantadas na entrevista são igualmente - se não mais - importantes, e tentarei reproduzí-las aqui oportunamente ]:

"(...) É um contrassenso continuarmos desperdiçando tanta energia na produção de bens de consumo individual (...) A cada seis meses é lançado um novo computador, um novo carro, um novo telefone, um novo tudo. Agora são os chamados tablets a nova 'necessidade' de consumo. Será que precisamos de tudo isso? Não. ( ... )"

"( ... ) Muitas pessoas acreditam nisso [ se a tecnologia salvaria o mundo de uma possível crise socioambiental generalizada ]. Eu não. Na Ásia existem pequenos vilarejos em que as pessoas podem ir caminhando para onde quer que precisem. Em Los Angeles, se você não tiver um carro está encrencado. "Como posso ir à aula sem automóvel?", certa vez me perguntou um estudante de lá. Pois é, precisa-se de um carro, de fato ( para cada veículo, serão 100kg de poluentes emitidos semanalmente ). Mas para os afazeres diários, o mais sensato é que se tenha um sistema eficiente de transporte público ( ... ) Isso não requer uma revolução tecnológica, mas sim uma mudança social ( ... ). "

"( ... ) Quando eu era jovem, em Taiwan, vivia de bicicleta para lá e para cá. Durante meu curso universitário, havia pouquíssimos carros na cidade. A rua pertencia às pessoas [ Nota deste blog: Em São Paulo, até as calçadas pertencem aos carros, mas as pessoas reclamam, por puro mau-caratismo, duma suposta e inexistente "Indústria da Multa"... ]. Quando me mudei para os Estados Unidos, em 1962, quase morri no primeiro dia - por pouco não fui atropelado. Eu caminhava na rua, e um veículo em alta velocidade passou bem perto de mim e buzinou, e alguém berrou algo como "ei, vá para a calçada"!". Então, meu irmão mais velho me disse: "Yuan, aqui as ruas pertencem aos carros, nós devemos andar na calçada". Fiquei muito desapontado. Em um país dito 'desenvolvido' as ruas pertenciam aos carros? Me recusei a acreditar que aquilo era desenvolvimento ( ... )." 

http://issuu.com/kugler/docs/henrique_kugler_-_interview_with_yuan_tseh_lee

Nenhum comentário :

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails

Golpe