quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A hora do lobo, Por Mumia Abu-Jamal

Um atirador solitário invade um espaço muito visitado por gente de cor. Segue uma matança. E horas depois, aprendemos que o matador dos Sikhs [adeptos de religião monoteísta, fundada há mais de 500 anos no Punjab, região de fronteira que compreende o Paquistão e a Índia] é um veterano, não só do Exército dos Estados Unidos, mas ainda de grupos racistas de extrema direita.
Uns dias depois do massacre, escutamos que Wade Michael Page se matou para não sofrer detenção o encarceramento.
Mas ficamos sabendo de mais detalhes. Este assassino orgulhosamente ostentava a bandeira nazista em sua base militar. Ao que parece, seus chefes estavam de acordo com os sentimentos que essa bandeira expressa, ou simplesmente faziam vista grossa.
Há mais.
Os primeiros boletins informaram que o nazi norte-americano tinha servido na divisão de “Operações Psicológicas” do Exército dos Estados Unidos.
Psi-ops?
Quem tenha um conhecimento embora seja modesto das agências de inteligência estadunidenses, sabe que “psi-ops” é uma forma breve de se referir aos truques sujos da espionagem que pretendem criar a ilusão de caos e instabilidade em países designados como alvos das agências do governo norte-americano.
É famoso (ou melhor dito, infame) seu uso na Guatemala nos anos ‘50 quando a CIA utilizou falsas transmissões radiofônicas para dar a impressão de que os militares tinham virado contra o presidente de esquerda Jacobo Arbenz, e assim derrubar o governo.
Táticas desse tipo também se utilizaram na Itália da pós-guerra, quando pareceu que o Partido Comunista ia prevalecer nas eleições. A CIA utilizou a Máfia e muito dinheiro para produzir o resultado desejado ––um governo direitista.
Isso significa que a matança no templo foi um psi-op? Não. Mas vale a pena considerá-lo, porque poderosas forças econômicas pretendem criar caos social nos Estados Unidos para consolidar ainda mais o poder direitista, impulsionando o uso da droga mais poderosa de todas: o medo.
O fato de que o nome desse homem não se encontrava em nenhuma lista e que ninguém o considerava suspeito, diz mais sobre o Exército do que diz sobre ele. Ao mesmo tempo em que prendem e revistam a quase um milhão de crianças e homens negros e latinos em Nova Iorque, Filadélfia e Chicago sob a presunção de que representam um perigo, um neo-nazi compra armas legalmente e causa estragos ao expressar o inferno que leva dentro.
O medo produz matança.
*jornalista, militante antirracista. Preso há 31 anos, é o mais antigo preso político dos EUA e do mundo

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