sábado, 11 de agosto de 2012

A "Indústria da Multa Não Existe" em: "Como o senhor conseguiu essas informações?"

PLANETA: TERRA
CIDADE: SÃO PAULO
Uma localidade de 3º. Mundo, rica e pobre ao mesmo tempo, pois as desigualdades sociais são gritantes. Arranha-céus orgulhosos em lugares bacanudos e modernos convivem com palafitas em bairros longínquos, compondo uma cidade, geograficamente falando. Salários de milhares de dólares e "torneiras pingando" trocados provenientes de bicos ou baixos salários, noves fora, temos uma enganosa média de 1º.Mundo.
O PROBLEMA EM FOCO
Um dos grandes problemas desta metrópole é a poluição. E grande parte desta poluição provém da escolha da população pelos automóveis. Seja qual for o motivo ou a desculpa, se boa ou má, estamos diante de um fato.
Dependendo do ponto de vista, isso não configura defeito ou problema coisa nenhuma. Seria, para alguns, sinal de desenvolvimento. Que seja.
De qualquer maneira, são milhões de automóveis circulando diariamente, num vaivem maluco e ensurdecedor. Alguns acostumaram com isso. Muitos, eu diria. A maioria, sejamos sinceros. São dois os problemas, na verdade: um, o excesso de veículos; e dois, o caráter de nossos motoristas. Se os carros fossem guiados por milhões de Gandhis ou Chaplins, seria outra coisa. Mas o personagem que representa melhor nossa gente motorizada é Átila, o Huno. Hannibal Lecter também fica legal.
O CONTROLE DO PROBLEMA
Isso é força de expressão, já que não há controle. Mas, de qualquer forma, para tentar minimizar tais dificuldades, a cidade dispõe da Companhia de Engenharia de Tráfego, a CET. Deixo pros senhores descobrirem quais são as atribuições da mencionada CET; uma delas, a mais famosa, é botar na rua seus milhares de fiscais com a missão de multar os motoristas. Simples assim.
Essa é a visão delirante da maioria da população paulistana. Basta dizer que os tais "milhares" de "marronzinhos" ( como são popularemente conhecidos os fiscais ) são uma gota de água no mar. Há três vezes menos fiscais de trânsito que o necessário. São insuficientes, e ponto final. A população ignora tal fato, talvez porque lhe convenha, e muito. A mídia ajuda bastante a difundir e alimentar essa visão delirante, fazendo com que os "marronzinhos" pareçam versões violentas e mais corruptas do Xerife de Nothingham, sempre a perseguir e acuar nossos santificados e honestos motoristas.
NOSSO POVO
O cinismo impera. É mais fácil você ganhar na MegaSena que ser multado.
A insuficiência de fiscais criou uma permissividade absurda, e os delitos de trânsito são a regra. Mas nossos cínicos motoristas ( melhor dizendo, nossos cínicos cidadãos ) fazem como aquele jogador de futebol que caçam o atacante, fazem pênaltis clamorosos, e ficam naquele ar indignado de "EEEEU?!!? EU FUI NA BOLA, SINHOR...!!"
Aqui neste blog já propus o teste: pegue uma avenida, fique uns cinco minutos observando os motoristas que passam e anotem quantos falam ao celular. Palavras ao vento, eu sei. Pior é que tem gente que até escreve para jornal "denunciando" a "Indústria da Multa". Porque convém, repito.
Particularmente, um dos crimes ( pra mim é crime, e dane-se ) de trânsito mais desgraçados, perpetrados pelos paulistanos, é estacionar sobre as calçadas. Essa atinge todos os limites de canalhice. A cidade já foi sendo construída para restringir ou impedir a circulação de pedestres ( eu não gosto do termo "pedestre", já que fica parecendo um rótulo, uma "tribo urbana"; não é nada disso: os pedestres são os seres humanos, e estes não devem se render às máquinas, mesmo que estas estajam sob o comando de outros seres humanos; se bem que fico em dúvida sobre quem comanda quem ), e vem vagabundo botar o carro na calçada. Calçadas que são outro lixo, por falta de fiscalização. E de caráter do morador, claro. Um caos geral.
Pois bem. Por falta de pessoal da CET nas ruas, se tornou obrigatória a ajudinha do cidadão. Quando flagrar o carro de um verme em local proibido, ou sobre uma calçada, você liga para a CET, pelo número ( gratuito ) 1188. Feita a cagüetagem - que faço com o maior prazer -, é só esperar a vinda do vingador da Justiça. Mas...
Nem sempre o fiscal comparece ao local do crime. É comum passarem 7 ou 8 horas e ninguém aparece. Ou demora-se tanto, que o meliante tem tempo de cometer o crime e evadir do flagrante. Dá até vergonha, quando o marronzinho chega e percebe que veio à toa. Parece até que sofreu trote telefônico. Ou, então, você chama, e o fiscal simplesmente não vem. Hoje ocorreu isso: de posse do protocolo, quis saber o andamento da solicitação, feita horas antes: a resposta foi que o "fiscal da região" (!!!) tinha outra prioridade. O crime gargalha, vitorioso.
Vocês, senhores, percebem que quando me refiro a "meliantes e criminosos", refiro-me a qualquer cidadão comum, não? É isso mesmo. O cidadão comum em seus rompantes de marginal. Para si mesmo, um cara legal; uma autoimagem generosa, mas falsa. Não têm meu apreço. Pode ser meu vizinho, meu cliente, um conhecido, azar.
UM CHISTE
Ontem, vestindo uma de minhas personas no Twitter ( tenho 3 ou 4 ), cagüetei à CET um carro estacionado sobre uma calçada. Um hábito manjado, num local manjado, apesar de aberto, visível. em suma: estacionou na cara-dura sem medo de ser pego. A resposta, eu já esperava, foi aquela protocolar. Vejam:
Sim, querida CET. Sei disso. E faço isso direto. Mas, é foda. Às vezes me acho o único paulistano que gasta algum tempo telefonando prá vocês. Claro, sei que não é assim. Mas sabe o porquê do sentimento? Tão aqui os motivos:
OS MOTIVOS
Uma das razões: a proporção pessoas / automóveis. Acho eu, dois em cada dois-e-meio paulistanos possuem automóvel. Logo, é óbvio que ninguém vai querer um fiscal da CET perto de casa. Talvez em casos extremos, tipo, alguém deixar seu veículo estacionado na frente da garagem de outro, e este precisando entrar ou sair.
Dois: a "omertá" entre proprietários de automóveis. Se a CET ficar circulando por aqui, eu posso ser pego um dia. Logo, não é negócio ficar chamando. Eu posso até ficar chateado por minha mãe idosa ter que sair da calçada e andar na rua por causa dum lixo. Mas, vai que a CET vem verificar o problema e me pega estacionado em local proibido, como estou fazendo agora. A velha entenderá. No mais, sou sangue de seu sangue mesmo...
Três: pela conversa geral, você vê que quem não possui automóvel se sente um pária, um rebotalho. De modo que o desejo de comprar um é urgente, mesmo que não se tenha condição financeira boa no momento. Mas a vontade fica, persiste, e o desejo será satisfeito, logo que as condições melhorem.
Assim, o "pedestre" seria, na verdade, um "atualmente pedestre", ou um "pedestre, no momento, mas isso vai mudar". Então, por quê fortalecer a CET se, um dia, estarei ( Se Deus quiser! ) de carro? Sou pedestre, infelizmente. Me ferro hoje para colher os frutos amanhã.
POR FIM....
"COMO É QUE O SENHOR CONSEGUIU ESSAS INFORMAÇÕES?"
OU: "TODO DIA 'ELES FAZ' TUDO SEMPRE IGUAL"
Já disse que telefono pra CET sempre que posso, mas já fiz muito mais. A frustração é grande. Os resultados são desanimadores, em retrospecto. Todos esses anos, agindo como um "marronzinho voluntário", e a proporção de denúncias / punição justa é baixa. Os meliantes quase sempre se safam.
O que não me impede de continuar tentando.
Uma das coisas que me faz ver as coisas muito mais claramente, é que eu ando a pé, e muito. Meu trajeto de ida até o trabalho é de cerca de 35 minutos. E uns 40, 45 minutos na volta. às vezes volto de ônibus.
Nessas andanças, percebi que certos locais são como "pontos viciados", como aqueles locais que as pessoas despejam sucatas, lixos, entulhos e restos. Alguns horários são certos, batata. Há uma irritante alternância, difícil de acompanhar, já que, por exemplo, certos pontos são manjados aos domingos à tarde, mas não nos demais dias e horários. Outros locais são locais de crimes em dias de semana, depois das 5 da tarde, mas no retante, sem problemas.
Isso é que provoca o desânimo. Se a CET for chamada, e vir em determinado horário, geralmente incerto, talvez pegue alguém. Mas, se passasse diariamente ali, em horários regulares, a coisa mudaria. Em conclusão, o certo seria uma fiscalização ampla e constante, todos os dias e horários. Não se se isso é possível, reconheço.
Enquanto esse ideal não se concretiza, desenvolvi um "método" meio maluco: ligo antes mesmo de acontecer alguma coisa. Já funcionou.
Sim, você leu certo.
Conheço os locais e horários onde o crime acontece. Pois tem gente que todo dia faz tudo sempre igual. Então, não miro em ninguém em especial. Estimo umas 3 ou 4 horas pra chegada do fiscal, após feita a chamada, faço uma listinha destes locais e arrisco. Faço um roteiro de locais próximos, para facilitar o trabalho deles. Ponto A > Ponto B> Ponto C, todos próximos. Aí o fiscal não se desloca de onde estiver por causa de uma única denúncia. Questão de economia, também...
SURPRESA
Hoje tive uma surpresa estranha. Cansado de ver, sempre na calçada de um posto de gasolina fechado ( situado numa área aberta, visível e movimentada ) algum veículo atrapalhando ( geralmente é gente de alguma mecânica que põe ali ) resolvi incluí-lo, novamente, em minha lista, no meu roteiro. Esse é um dos locais manjados e, dia sim, dia não, eu faço minha parte pela cidadania. Só que, por incrível que pareça, a cena se repete quase que também diariamente. É um pesadelo!
Pois bem. Logo cedo, lá pelas 8:50 da matina, fiz uma listinha rápida de lugares em que, sabia eu, o crime estaria ocorrendo bem na hora da chegada do fiscal. Tipo "Minority Report". Não havia nada ocorrendo no momento da ligação pra CET mas, quando esta chegasse, teria frutos a colher. Líquido e certo.
A atendente pegou o primeiro endereço, o do posto. Deu-me o número do protocolo. "Peraí, que tem mais!", eu disse
Dei o segundo endereço, uma casa onde todo santo dia o cara deixa o carro na calçada estreita, numa rua de duas mãos. Peguei o protocolo. "Calma que tem mais", falei, olhando minha listinha de uns 8 pontos viciados. Dei o terceiro serviço, e o quarto. O quinto. A moça pareceu meio impaciente. Depois que apresentei a sexta barbada, a mulher me perguntou:
- Como o senhor conseguiu essas informações?
Juro que não entendi. Como assim, onde consegui as informações? Fiquei desconcertado, acuado. Como se EU ESTIVESSE FAZENDO ALGO ERRADO. Respondi gaguejando:
- A-andando... Meu caminho... er, meu trajeto pro trabalho... er, eu vejo, er, eu vi essas coisas.
Realmente não entendi a questão. Teria que explicar alguma coisa? Nem me ocorreu questionar. Em todos esses anos como Falcão da Justiça, Cavaleiro da Liberdade, Sentinela da Decência, eu passei por situação semelhante. Ter que me explicar por estar fazendo um trabalho que é, no fim das contas, da CET?
De qualquer maneira, horas depois, verificando os protocolos das solicitações, me informaram que nada daquilo servira para nada. O "fiscal da região" teve outra ocorrência, muito mais importante. Um semáforo com problema, ou algo do tipo.
O crime gargalha, vitorioso.

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